425: Do teu crime de tortura por omissão

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🇵🇹 OPINIÃO

Questionada pelo DN sobre se as celas do Estabelecimento Prisional de Lisboa têm condições para alojar pessoas, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais não respondeu. Não pode dizer que sim. Mas estão lá mais de mil.

“Há condenações consecutivas de Portugal pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos por práticas análogas à tortura nas prisões. Tortura é um crime.  Sei que não é assim que funciona o Direito Internacional, mas é bastante estranho ver condenações por práticas que são análogas à tortura e ninguém ir preso. Não deveria haver responsabilização de quem tem a tutela das prisões, por submeter pessoas a tratamentos desumanos e degradantes?

A pergunta é do jornalista Nuno Viegas, do podcast Fumaça, que está a fazer uma série longa — o Fumaça dedica-se ao “slow journalism” — sobre as prisões nacionais. A entrevista, de 2025, é a Miguel Feldman, coordenador da estrutura de apoio ao Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNP), que tem desde 2015 produzido relatórios sobre locais de detenção nacionais.

Naturalmente, a resposta não podia ser outra coisa senão diplomática; Feldman é jurista, visita prisões desde que o Mecanismo existe e tem de se relacionar com as autoridades prisionais e a tutela. Fala, numa voz pausada, serena, na qual o desalento corre em rio profundo, da “não coercibilidade do Direito Internacional público”. E assegura, quando questionado sobre “como pode a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais manter, na apreciação do MNP, reclusos ‘em condições desumanas’, 22 horas fechados em celas”, que a resposta mais simples é falta de meios: “Não creio que haja vontade de tratar mal as pessoas. Mas é muito difícil, perante a falta de meios, conseguir dar uma resposta rápida a situações que são intoleráveis.”

Não há vontade de tratar mal as pessoas, ecoa o jornalista, com ponto de interrogação. E enumera: se Portugal desde 2020 foi condenado pelo TEDH várias vezes diferentes, se vamos em bem mais de uma dúzia de violações separadas da Convenção Europeia dos Direitos Humanos devido às más condições materiais nos estabelecimentos prisionais (EP); se o que o tribunal vai encontrando são violações reiteradas ao longo de muitos anos, vários EP, vários locais.

Se toda a gente sabe disso porque há relatórios da Provedoria de Justiça sobre as prisões desde 1996, o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura vem cá há 20 anos e está lá tudo nos relatórios, se o Sub-comité para a Prevenção da Tortura das Nações Unidas vem cá menos vezes e encontra as mesmas coisas… A lista termina em pergunta retórica: “Houve alguma mudança estrutural no tratamento das pessoas reclusas desde as condenações do TEDH?”

Claro que não. Admite Feldman — o mesmo Feldman que este domingo, em entrevista ao Público, disse “mais do que indignas, às vezes as condições das prisões são inimagináveis” — e dizem todos os relatórios mencionados,  a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso, o Fórum Penal, os acórdãos sucessivos do TEDH. E dizem até as comunicações do Estado português com o Comité de Ministros do Conselho da Europa (que tem a incumbência de fiscalizar o cumprimento dos acórdãos do tribunal), pelo que demonstram, até nas medidas que referem estar em curso ou em preparação, ser o estado das penitenciárias.

Porque o que se vê ali, nessas comunicações pouco ou nada escrutinadas em que Portugal tenta comprovar estar a cumprir as decisões do TEDH, são garantias de, por exemplo, “desparasitação mensal” — supõe-se que devido aos reportes contínuos de infestações de baratas, percevejos, pulgas e ratos —, de avaliação da lotação dos estabelecimentos de acordo com as áreas mínimas de cela por pessoa exigidas pelo TEDH, de obras para separação das instalações sanitárias do resto do espaço dos alojamentos.

O que se vê ali é que grande parte do sistema prisional chegou à terceira década do século XXI com os reclusos amontoados em celas onde urinam e defecam à frente dos outros, celas onde por vezes nem têm espaço para estar três em pé ao mesmo tempo. Celas húmidas, cheias de bolor, gélidas no inverno e irrespiráveis no verão, não raro infestadas de insectos repelentes e roedores, e nas quais têm de passar grande parte do dia fechados, sem nada para fazer.

O que vemos ali é a certificação de que o sistema prisional português nem sonha cumprir a obrigação, prevista no seu próprio regulamento, de colocar apenas uma pessoa por cela.

O que vemos ali é a tentativa do Estado português, ano após ano, de empurrar com a barriga e para baixo do tapete, não criando sequer as condições para que os reclusos tenham um recurso, instância, nacional ao qual possam queixar-se das prisões com garantia de eficácia, em vez de só terem o TEDH — ausência de recurso que é em si uma violação dos direitos humanos, e pelo qual o país já foi condenado.

O que vemos ali, e aqui falo como jornalista, é que o Estado português envia para o Conselho da Europa informação que nega sistematicamente quando lhe é pedida por quem tem a função de informar, obrigando os jornalistas nacionais ao ridículo de requerer a um organismo internacional acesso àquilo que cá lhes é interditado como “documento de trabalho interno”.

O que vemos ali é a evidência de que o sistema prisional e quem o tutela se esforçam, hoje como há décadas, por escamotear a gravidade da violação dos direitos humanos, escondendo sistematicamente os factos e os números (nem nas mencionadas comunicações se encontra algo tão básico como a média de reclusos por cela ou o rácio real de recluso por metro quadrado).

É normal: os crimes negam-se até ser impossível continuar a negar (e mesmo assim muitas vezes para além disso). Porque, sem dúvida alguma, regressando à questão colocada pelo Fumaça a Miguel Feldman, é da assunção da continuação de uma actividade criminosa — a de tratamentos cruéis, degradantes e desumanos — que se trata.

O Código Penal português prevê o cometimento de crimes por omissão — são os crimes que comete quem não age como e quando tem o dever de agir, e nomeadamente quem tem o dever de garante (quem, pelas suas funções, ou relação com a vítima, tem a responsabilidade de garantir a sua segurança).

Quando a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, questionada pelo DN sobre se considera que as celas da Ala B do EPL, cujas imagens o jornal tem vindo a publicar, têm condições para alojar pessoas, não responde, está a responder que não. Não: não têm condições para alojar pessoas.

Pelo que cada uma daquelas pessoas — pessoas, sublinho — está, comprovadamente, a sofrer tratamento desumano e degradante por parte do Estado português. E por todos nós que vemos e deixamos passar, porque achamos que somos melhores, que aquelas pessoas são doutra natureza, doutra estirpe, doutra raça, doutro planeta.

Merecemos tanto, mas tanto, ser condenados por isso.

Jornalista

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
19.05.2026

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424: Figura do dia: Esquadra com vista para a Capela do Rato

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🇵🇹 OPINIÃO

A pouco mais de 100 metros da esquadra, apenas um par de minutos a pé, está a Capela do Rato. Não podia ser mais simbólico do que somos: grotescos e anjos, perversos e generosos. A dois passos do Inferno, lugar de atrocidades e esgoto humano, um sítio que simboliza a tolerância, o conhecimento e a interioridade. Se as paredes daquela esquadra não fossem insonorizadas ter-se-iam ouvido as desesperadas súplicas dos que foram torturados por polícias fardados.

Esquadra do Rato
ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Gente pobre, excluída, sem-abrigos, toxicodependentes violados por cabos de vassoura e cassetetes amovíveis, humilhados e expostos em imagens que circularam como um vírus do Mal. A menos de 200 metros, a capela onde Tolentino pregou o Amor. Onde os católicos críticos do Estado Novo rezaram pelo fim da ditadura. Onde o Padre Alberto Neto, mentor da JUC, agitou as águas com palavras que indicavam o sentido do futuro. A dois minutos de distância da animalidade, uma capela despojada de artifícios para que só a Palavra possa sobreviver. E o silêncio.

Sabemos que o nosso destino está escrito: um dia a morte chegará. O problema por isso nunca foi o fim, mas o que fazemos até lá. O que somos, o que desejamos para a nossa vida. Que todos morremos não é uma surpresa, o que realmente me surpreende é encontrar pessoas que estando vivas nunca realmente viveram. A maldade a este nível não tem remissão ou se apaga com arrependimento, é puro veneno. São 200 metros, um pouco menos ou um pouco mais. Uma distância de dois minutos entre a vida e as trevas.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
18.05.2026

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421: A figura do dia: O homem que guardava segredos

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🇵🇹 OPINIÃO

Morreu um desconhecido que tinha poder – o de escutar, o do silêncio, o de conhecer segredos, o de guardá-los, o de tratar bem quem lhe batia à porta, o de ser uma presença invisível. Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula.

Davide conheceu toda a gente na política portuguesa. Conversava com ministros, deputados, aspirantes a sê-lo, jornalistas, artistas e engolidores de fogo. Mantinha conversas suspensas que retomava quando o cliente tornava a aparecer, na sua cabeça existiam centenas de gavetas que abria e fechava como se fosse um jogador de xadrez num torneio de simultâneas.

“Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula.”
FOTO: Direitos reservados

Morreu o chefe que guardava uma parte dos segredos do país. E o segredo do melhor bife de Lisboa e das conversas pelo princípio da madrugada. Já não existem muitos como ele, até os bares e a noite estão em obras ou então fui eu que envelheci sem perceber que há outros lugares onde podemos confiar em alguém que nos serve um whisky de malte num copo baixo, sem gelo.

Davide partiu para um outro bar que um dia, quando me aborrecer, descobrirei. Há momentos em que devemos deixar a noite entrar. Abrir a janela de par em par e abraçar todas as sombras e estrelas. E há outros momentos em que devemos fazer o contrário. Fechar todas as janelas e impedir que a penumbra entre no que nos resta. Hoje estou assim.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
15.05.2026

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418: Trump em Beijing: o que está realmente em jogo

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🇵🇹 OPINIÃO

Quando o Air Force One aterra em Beijing, Donald Trump imagina que uma curta visita de dois dias à China será consagrada pelo eleitorado americano como vitória pessoal. Mas a realidade que importa é outra. Por baixo dos apertos de mão e das fotografias protocolares com Xi Jinping, desenha-se a versão contemporânea do Dilema de Tucídides: o choque entre duas super-potências — uma estabelecida, que tenta preservar a sua hegemonia (os EUA), e outra, emergente, em rápida ascensão (a China).

Para Trump, o propósito desta cimeira não é redesenhar a arquitectura de segurança do século XXI, nem falar de paz, harmonia ou desafios globais — temas que raramente entram na sua agenda. O que procura é um espectáculo táctico. Curto e vendável como uma vitória, antes das eleições intercalares de Novembro.

O presidente americano procura regressar com resultados fáceis de comunicar: sinais de desanuviamento comercial (compromissos de compras adicionais em setores relevantes para o eleitorado MAGA) e, idealmente, algum gesto que reduza o risco de disrupção no Estreito de Ormuz. A gestão da imagem é parte integrante da sua estratégia. O espaço mediático norte-americano tem-se tornado mais assimétrico: segmentos influentes amplificam narrativas partidárias, moldadas por incentivos comerciais e pela polarização à volta de Trump.

O problema desta abordagem transaccional é que expõe a verdadeira fraqueza americana: a obsessão pelo curto prazo corrói a confiança e afasta os aliados. Taipei observa, inquieta, a hipótese de a sua segurança ser convertida em moeda de troca. Na Europa, a visita é interpretada como um indicador de volatilidade na orientação estratégica de Washington. Isso tende a reforçar os debates sobre a autonomia de defesa, a resiliência económica e a política tecnológica.

Do outro lado da mesa, Xi Jinping move as peças do seu xadrez sem pressas e sem as amarras dos calendários eleitorais. O interesse imediato de Beijing é simples: gerir a imprevisibilidade de Trump, recorrer à diplomacia pessoal para obter concessões retóricas sobre Taiwan e, sobretudo, comprar tempo. A liderança chinesa parte do pressuposto de que a tendência de longo prazo — em capacidade industrial, tecnológica, semicondutores, Inteligência Artificial e em influência externa — lhe é favorável, e por isso privilegia estratégias de desgaste e de alongamento do horizonte decisório.

À primeira vista, a China parece munida de trunfos difíceis de contrariar. Um sistema político centralizado permite-lhe definir prioridades e mobilizar recursos com um horizonte plurianual — como nos Planos Quinquenais — e reduzir os custos de coordenação em sectores estratégicos. A aproximação a Moscovo, descrita por ambos como parceria “sem limites”, dá a Beijing margens adicionais em matéria de energia, de diplomacia, de rotas comerciais e de segurança, embora a exponha a riscos reputacionais e a sanções secundárias. No plano externo, a China procura consolidar a sua influência e poder junto dos países do Sul Global através do financiamento de infra-estruturas e de cadeias logísticas (Nova Rota da Seda) e de fóruns como os BRICS, em expansão.

Mas esta aparência de invencibilidade esconde fragilidades capazes de alterar o curso dos acontecimentos. O que Beijing projecta para o exterior como “coesão e estabilidade” é, as mais das vezes, uma paz interna imposta pela força e por um aparelho de vigilância e repressão. A China está longe de ser um monólito: é um mosaico de 1,41 mil milhões de pessoas, 56 grupos étnicos, centenas de línguas e dezenas de milhões de cidadãos pertencentes a minorias. Em regiões vitais como Xinjiang (mais de 26 milhões de habitantes) e o Tibete (cerca de 3,6 milhões), a assimilação forçada substitui a autonomia política — e as tensões não desaparecem; acumulam-se.

A verdadeira ameaça ao regime dominado pelo Partido Comunista pode não vir das periferias, mas do centro: das expectativas crescentes da maioria Han nas megacidades; dos jovens frustrados, altamente educados, mas a lutar numa sociedade cada vez mais competitiva; e da assimetria persistente entre as cidades costeiras hipertecnológicas — como Shanghai e Shenzhen — e o interior rural profundamente tradicional que vive no limiar da subsistência.

Em sistemas com mecanismos de responsabilização e mediação — imprensa relativamente livre, associações cívicas, manifestações nas praças públicas, tribunais independentes e eleições competitivas — a contestação tende a ser canalizada e absorvida por vias institucionais, reduzindo a probabilidade de rupturas abruptas. Num regime autocrático, onde a expressão pública é mais limitada e a correcção das políticas depende sobretudo de quem dirige o Partido-Estado, os erros podem acumular-se durante mais tempo e tornar-se mais difíceis de reverter. Quando choques económicos, demográficos ou de legitimidade convergem, a gestão dos conflitos sociais torna-se mais exigente e o custo de manter a estabilidade aumenta.

Em termos estratégicos, tanto a China como os Estados Unidos têm incentivos para um entendimento mínimo que reduza potenciais conflitos: gerir crises antes de escalarem, evitar incidentes militares no mar e no ar e estabilizar as expectativas na competição tecnológica, digital e comercial. São esses os temas que Trump e Xi deveriam discutir — não como gestos de boa vontade, mas para construir uma arquitetura de contenção mútua. Um arranjo deste tipo não apaga a rivalidade. É, todavia, a única forma de evitar que um erro de cálculo deite tudo a perder. O Dilema de Tucídides poderia então passar definitivamente à História.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
15.05.2026

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417: Transportes gratuitos: mais que boa intenção?

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🇵🇹 OPINIÃO

Dentro de cerca de um mês quem residir no Porto vai poder viajar gratuitamente nos transportes públicos que servem a área metropolitana. A medida aprovada recentemente pela autarquia deverá entrar em vigor a 1 de Julho e será destinada aos portadores do Cartão Porto, documento que já garante descontos em teatros, museus, piscinas e bibliotecas da cidade.

Além da parte política – foi uma das bandeiras da campanha eleitoral do actual presidente da câmara, Pedro Duarte –, a medida tem objectivos maiores: retirar carros da cidade e promover melhorias ambientais numa altura em que as alterações climáticas estão cada vez mais presentes e se assiste a uma tentativa de diminuir o consumo de combustíveis fósseis.

A decisão portuense não é inédita em Portugal existindo diversas ofertas de gratuitidade nos transportes públicos desde a isenção de pagamento para maiores de 65 anos (por exemplo em Lisboa) até ao projecto MobiCascais, em que os residentes não pagam para viajar nos transportes rodoviários. Braga, Aveiro, Guimarães e Castelo Branco são outros exemplos de medidas que visam incentivar o uso de transportes públicos.

E na Europa há vários casos, com o Luxemburgo a liderar ao ter sido o primeiro país do mundo a tornar a mobilidade gratuita – desde 2020 que não se paga para viajar de transportes públicos. Mas, há outros exemplos como Malta, Talin (Estónia), Montpellier e Dunquerque (ambos em França) com modelos diferentes.

Tudo em nome do ambiente, de uma melhor mobilidade e apoio à descarbonização.

Mas, há sempre um mas, à parte o elogio pela decisão, os responsáveis portuenses devem estar atentos a factores que podem tornar esta gratuitidade apenas numa bandeira para a imagem da cidade, excepto a poupança que os residentes vão passar a usufruir.

Para ser um sucesso completo é necessário que a mobilidade desses transportes seja a correcta e não com atrasos, e que exista mesmo uma redução de carros a circular/entrar na cidade. É que só com horários e frequências correspondentes às necessidades dos passageiros se consegue convencer alguém a usar um autocarro, um comboio ou o metro, não com passagens de 20 a 30 minutos entre carreiras, ou mesmo com a sua supressão.

Mas vamos esperar para fazer esse balanço e desejar que o Porto seja um bom anfitrião. O que, por vezes em Lisboa não acontece, por exemplo, devido aos atrasos nos autocarros que têm de circular em ruas cheias de carros pois os automobilistas privilegiam o transporte individual pelo conforto e para evitar tempos de espera longos.

Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
14.05.2026

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412: O Chega e o bar aberto dos fuzilamentos

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🇵🇹 OPINIÃO

É das propostas mais antigas do partido, a de conceder às polícias licença para matar: se um polícia usar a arma de fogo contra uma pessoa, deve à partida considerar-se que o fez com razão. Apresenta-a no parlamento justamente quando 24 polícias são investigados por tortura e violação. Apresenta-a por isso mesmo.

Há 51 anos, em Fevereiro de 1975, foi revogado em Portugal o instituto da garantia administrativa, que impedia polícias e outros funcionários estatais de serem julgados sem autorização do governo. Como se lia no decreto-lei 74/75, que procedeu a essa revogação, era através dessa norma, consagrada no Código de Processo Penal e no Código Administrativo, que os poderes públicos do Estado Novo garantiam a impunidade dos que “praticavam o mal à sombra do regime”: para que as autoridades exercessem a acção penal contra algum desses funcionários, era necessário que o membro do governo que os tutelava desse permissão formal. Por outras palavras, os crimes desses funcionários só seriam tratados como crime se o governo quisesse.

É uma das mais claras definições de um regime criminoso: a existência de uma disposição legal que impede a investigação e punição de crimes cometidos por determinadas categorias de pessoas — as que estão ao serviço do regime ou que este protege.

Vimos a defesa de algo semelhante em Janeiro de 2026, na boca do vice-presidente do Estados Unidos, J D Vance, quando este, a propósito do homicídio de Renée Good, baleada por um agente da polícia de imigração (ICE), afirmou que este goza de “absoluta imunidade” por ser “um agente federal  a fazer o seu trabalho”. A declaração de Vance, que também acusou a mulher morta de ter atacado o agente, a lei e a ordem e o povo americano, foi de imediato refutada por juristas, mas o ponto é que o governo norte-americano quis deixar claro que considera qualquer violência — inclusive mortal e contra pessoas desarmadas, como no caso de Good e no subsequente de Alex Pretti, também baleado por agentes do ICE — cometida por aquela polícia justificada com base no facto de ser violência cometida por aquela polícia.

Estas declarações de Vance são tanto mais chocantes quando a morte de Good, como a morte de Pretti (a quem o vice-presidente chamou “assassino”), foi filmada e os filmes divulgados, deixando poucas dúvidas sobre o excesso de uso da força letal.

Também filmados terão sido, de acordo com o que tem sido noticiado, os crimes, ocorridos entre 2023 e 2025, de que são suspeitos e acusados 24 agentes (incluindo dois chefes) da PSP, e que incluem tortura e violação em duas esquadras de Lisboa. Mas o partido que mais diz preocupar-se com a insegurança e a lei e a ordem em Portugal não está a exigir que os vídeos sejam divulgados e os suspeitos castigados — pelo contrário, está a acusar o ministro da tutela de ser demasiado severo com os polícias, insurgindo-se contra aquilo que apresenta como um tratamento injusto dos mesmos. Para o Chega, os polícias, por serem polícias, deveriam merecer gratidão incondicional e um tratamento mais leniente — quiçá mesmo a garantia, como defende J D Vance e estipulava o Estado Novo, de que mesmo que cometam crimes ninguém vai investigá-los.

Não é uma novidade; tínhamos ouvido André Ventura defender que o agente da PSP que disparou duas vezes à queima-roupa sobre Odair Moniz em Outubro de 2024 devia ser condecorado em vez de detido e julgado, e o líder parlamentar Pedro Pinto aventar que “se calhar se a polícia disparasse mais a matar, o país estava mais na ordem”; tínhamos lido o post do então assessor e hoje deputado Ricardo Reis, no Twitter, congratulando-se com a morte de Odair e chamando-lhe “bandido”.

Se foi morto por um polícia, Odair só pode ser um bandido; se foram torturadas e violadas por polícias, as vítimas das esquadras do Rato e do Bairro Alto só podem ter merecido, porque os polícias têm sempre razão, ou, se não tiverem razão, merecem pelo menos desculpa — é o que se retira das declarações dos dirigentes do partido sobre o assunto e do facto de André Ventura ter na semana passada, na sequência da detenção de mais de uma dezena de suspeitos daqueles crimes, convocado todos os polícias para um cerco ao parlamento a 14 de Maio, dia em que serão discutidos vários diplomas do Chega relacionados com as forças da autoridade.

Um desses diplomas é uma velha promessa do partido de extrema-direita: trata-se daquilo que logo no seu primeiro programa eleitoral, em 2019, designava de “reforço da autoridade moral do corpo policial, desagravando-o da tácita suspeita de culpabilidade a priori, defendendo a “extinção da figura de ‘excesso de legítima defesa’ (…) em caso de ameaça de danos graves por parte de suspeitos insubmissos em acções formais de serviço das autoridades dos policiais e contra estas.”

Entregue na Assembleia da República a 6 de maio (dia seguinte ao da detenção de 14 agentes da PSP), o projecto de lei propõe, para “proteger os agentes das forças de segurança”, estabelecer uma presunção de legitimidade para o uso da arma de fogo por polícias. Assim, pretende o Chega, sempre que o agente, “na avaliação subjectiva que faz da situação”, tiver “uma percepção razoável de ameaça iminente de morte ou lesão grave, para si ou terceiros”, e disparar a arma contra pessoas, essa acção é considerada lícita até prova em contrário.

Era exactamente este o raciocínio subjacente à garantia administrativa em vigor no Estado Novo: blindar os polícias e outros funcionários face a acusações de excessos. No partido cujo líder proclama que o país precisa é de três salazares, não pode surpreender.

O que surpreende é que haja tanta gente a achar isto menos chocante do que propor baixar a idade da reforma. Ou que censure muito mais André Ventura por chamar “bar aberto de despedimentos” à reforma laboral do Governo que por propor um bar aberto de fuzilamentos.

Para não falar, claro, do apelo a (mais) um cerco policial ao parlamento — cerco no qual, como me disse, contristado, um agente da PSP, só poderão participar polícias que aceitam o que aconteceu nas esquadras do Rato e Bairro Alto. Polícias que querem, acrescento eu, ter a garantia de que podem cometer crimes sem castigo. Polícias que não são polícias, em suma.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
12.05.2026

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409: Figura do dia: Ele não morreu

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🇵🇹 OPINIÃO

Uma geração comoveu-se quando o astronauta desligou Hal. É uma das cenas mais poderosas da história do cinema, mas é bastante mais do que isso – Stanley Kubrich, com o seu 2001 Odisseia no Espaço, em colaboração directa com Arthur C. Clarke, ofereceu ao mundo uma máquina do tempo, a possibilidade de anteciparmos o futuro.

O filme foi realizado em 1968 e Hal era um supercomputador dotado de Inteligência Artificial e Dave Bowman o astronauta que o “mata” por perceber, com horror e espanto, que a máquina, por sua livre iniciativa, se preparava para assumir o controle da nave e eliminar toda a tripulação. O momento em que Dave apaga Hal é dramático e dilacerante. O computador pede para que ele não o faça, diz-lhe que tem medo, que não quer partir.

“O momento em que Dave apaga Hal é dramático e dilacerante. O computador pede para que ele não o faça, diz-lhe que tem medo, que não quer partir.”

Afinal, não morreu. Passados quase setenta anos, o mundo depende dele. Os sistemas operativos gerem a informação, o dinheiro, as armas, a electricidade, a água, os transportes, o GPS e os algoritmos manietam o que somos, compramos, amamos ou votamos. Nas redes sociais a mediação é feita por ele e todos os dias aumenta o número de pessoas que lhe fazem perguntas para poderem gerir a sua vida.

Foi ontem notícia que o BdP se tem reunido com os principais bancos portugueses para discutir medidas urgentes de prevenção contra futuros ataques gerados por Inteligência Artificial, infinitamente mais poderosos do que qualquer inimigo com quem tenhamos privado. Não estamos seguros em lado nenhum e agora é demasiado tarde para o desligar.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
11.05.2026

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407: Brincar aos deuses

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🇵🇹 OPINIÃO

Gattaca é um daqueles filmes de ficção distópica que deve fazer parte da colecção de culto dos tech bros de Silicon Valley. Filmado nos últimos anos do século passado, projectava um mundo futuro dominado pela engenharia genética, dividido entre os “válidos”, humanos escolhidos geneticamente em laboratório para serem mais inteligentes e saudáveis, e os “inválidos”, os que continuavam a carregar o peso biológico da imperfeição.

Na senda de outras distopias, como Admirável Mundo Novo, Blade Runner ou Matrix, Gattaca poderia ser hoje uma espécie de documentário sobre os projectos que fazem movimentar milhares de milhões de dólares na Meca da tecnologia. Numa reportagem recente, a revista norte-americana Mother Jones revela como muitos dos nomes da oligarquia tecnológica ligada aos projectos de Inteligência Artificial estão também a financiar startups de edição genética e selecção embrionária com um foco bem mais além do potencial terapêutico que algumas tecnologias oferecem para curar doenças genéticas.

A reportagem destapa um objectivo cada vez mais assumido de criar humanos geneticamente de “elite”, super-bebés capazes de enfrentar um futuro dominado pela IA que esses próprios gurus tecnológicos estão a desenvolver mais e mais.

A lógica é mais ou menos esta: se a IA poderá vir um dia a ultrapassar as capacidades humanas, como eles já admitem recear, então é preciso produzir crianças mais inteligentes – mesmo se as evidências científicas alertam que aquilo que somos (incluindo a inteligência que desenvolvemos) depende de múltiplos factores que vão para além da mera herança genética.

Financiada pelos suspeitos do costume, o mais inquietante é que esta já não é apenas uma mera tendência ou ambição empresarial, mas sim toda uma nova religião tecnológica que domina a cultura tech bro (de Silicon Valley e dos EUA até aos mais misteriosos hubs tecnológicos chineses), onde uma elite de semideuses tecnológicos desafia limites éticos em prol das suas crenças e ambições, e acredita poder vir a resolver os grandes mistérios da vida e do universo com a construção de um qualquer Admirável Mundo Novo feito de humanos optimizados, homens-máquina, super-inteligência artificial e mundos virtuais – o próprio Musk já disse que via “uma hipótese em mil milhões” de estarmos a viver de facto num mundo real e não num qualquer videojogo de uma civilização avançada.

A verdade é que, no futuro, as desigualdades arriscam deixar de ser apenas económicas e sociais para serem desde logo biológicas, como em Gattaca, transformando a humanidade num projecto de engenharia de uma oligarquia tecnológica que acredita ter não só o poder, mas o direito de redefinir a espécie.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
11.05.2026

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406: Um imposto extraordinário

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🇵🇹 OPINIÃO

A ideia do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, de criar um novo imposto para taxar lucros extraordinários deve perturbar alguns empresários deste país, mas desconfio que não pelas razões mais óbvias. A medida recupera uma iniciativa de 2022, protagonizada pelo governo PS de António Costa e por outros governos europeus, que pediram à Comissão Europeia de Von der Leyen para dar uma talhada nos “lucros caídos do céu” de algumas empresas. Motivo? A invasão russa sobre a Ucrânia fez disparar os preços dos combustíveis – e, depois, de tudo o resto – e foi preciso agitar muito os braços para parecer que se estava a fazer tudo para proteger o consumidor.

A eficácia foi reduzida. O Estado português, por exemplo, estimava arrecadar entre 50 e 100 milhões de euros, mas acabou por captar um total de “apenas” 8,3 milhões, como recordou recentemente a Helena Garrido no Observador. Portanto, não será o valor da cobrança a assustar as empresas.

Agora, uma nova guerra – desta feita no Irão – levou ao fecho do estreito de Ormuz e, consequentemente, à subida dos preços dos combustíveis e dos bens. E Miranda Sarmento vai criar uma taxa especial sobre as empresas energéticas.

Na verdade, já existe uma. Durante o programa de ajustamento da Troika – que se seguiu ao reconhecimento pelo governo de José Sócrates que iria entrar em “default” sem ajuda externa – o governo de Pedro Passos Coelho decidiu criar uma contribuição extraordinária sobre o Sector Energético, a CESE.

Na Lei do Orçamento do Estado de 2015, aliás, criou uma outra: sobre a Indústria Farmacêutica. Ambas, tanto a CESE como a CEIF (Contribuição Extraordinária sobre a Indústria Farmacêutica) ainda estão em vigor, mais de uma década depois, apesar dos processos movidos por várias empresas que as pagam.

Alguns destes processos resultaram no óbvio: o Tribunal Constitucional considerou que a permanência em vigor desta taxa, muito além do período de excepcionalidade que o motivo, viola princípios constitucionais de igualdade e proporcionalidade. Por exemplo, já travou a sua aplicação nos sectores do gás natural e do petróleo, correspondendo a uma pretensão da Galp, que desde o início contestou a CESE e recusou-se a pagá-la (mas constituindo provisões para essa eventualidade). O sector farmacêutico aguarda também que o TC se pronuncie nos processos que também tem a correr.

Foi também por causa de uma guerra que nasceu o mais antigo imposto do sistema fiscal português, o Imposto de Selo. Tudo porque a Coroa portuguesa – sob a regência de D. Luísa de Gusmão, que governou enquanto Afonso VI era menor – precisava de equilibrar as contas após a Guerra da Restauração da Independência, face a Espanha, e assim decidiu instaurar um imposto temporário que se aplicava a actos notariais e transferências de propriedade. O Estado recebia, por essa via, uma parte das transacções.

O alvará deste imposto sobre o “Papel Selado” foi rubricado na véspera de Natal de 1660. Está, portanto, temporariamente em vigor há 365 anos.

E o problema das empresas é mesmo esse. O Estado português – e os sucessivos ministros que o gerem – tem uma extraordinária dificuldade em aceitar o conceito da finitude temporal. Pelo menos no que diz respeito a impostos, taxas e outras cobranças.

Diário de Notícias
Nuno Vinha
Director-adjunto do Diário de Notícias
11.05.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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405: Uma mão cheia de (in)diferença

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🇵🇹 OPINIÃO

Em 25 de Julho de 1963, poucos meses antes de ser assassinado em Dallas (Texas), John F. Kennedy enviou uma carta ao Comité dos Estados Unidos para a UNICEF, como forma de apoiar a angariação de verbas para o fundo da ONU de apoio às crianças. Nela, escrevia: “As crianças são o recurso mais valioso que há no mundo e a sua maior esperança para o futuro”.

São palavras simples, que facilmente poderíamos ler em vários dos programas eleitorais dos principais partidos em Portugal. O problema não está no conceito em si mesmo: defender a saúde e promover o desporto na infância; salvaguardar a educação e equilibrar as oportunidades de acesso ao ensino médio e superior representam ideias básicas em qualquer país evoluído. O problema está na concretização desses desígnios e, sobretudo, na abrangência. Em termos simples, quem fica tapado pelo cobertor e quem fica com os pés de fora.

Não é novidade para ninguém que lê as notícias nos jornais que o Estado português – seja a nível central, seja na grande maioria das autarquias – dedica pouco orçamento, poucos meios e pouca atenção às crianças com necessidades educativas específicas. É o jargão para crianças com dificuldades de aprendizagem que podem, ou não, estar associadas a problemas cognitivos, autismo ou síndromes de vária ordem.

Em suma, são crianças consideradas “diferentes” [por isso existem escolas “inclusivas”] e têm, por isso mesmo, acesso a regras diferentes na sua educação (na avaliação e, por vezes, no conteúdo dos programas), ainda que nem sempre aos meios que, por vezes, seriam necessários para os prosseguir. A manta só estica para outros desígnios, por muito direito que estes alunos tenham a receber apoios adequados.

A perplexidade torna-se maior quando se percebe que o outro lado da escala – os alunos sobre-dotados – enfrentam o mesmo tipo de problemas. Como escrevemos nesta edição do DN, o apoio a estes alunos com capacidades acrescidas são quase inexistentes, o que leva a presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobre-dotadas (APCS), Helena Serra, a dizer que o apoio “é uma mão cheia de nada”. Como acontece frequentemente em países que elevaram a sua burocracia a uma forma de arte, a ausência de apoios radica na regulamentação que enquadra a vida destas crianças.

Tal como as crianças que não conseguem acompanhar o programa normal, estas – que muitas vezes o acham ridiculamente fácil – têm as mesmas regras. “Não há legislação específica, aplica-se a Educação Inclusiva, que pouco ou nada inclui quem tem mais capacidades”, revela a responsável.

Se pensarmos na Educação a duas velocidades (privados vs público); na crescente ausência de professores (sobretudo motivados) na escola pública; na falta de condições de muitas escolas do Estado; na menor exigência dos currículos e quase ausência de exames; nas dificuldades acrescidas das aulas com múltiplas nacionalidades, vemos um padrão e um rumo.

O caminho do Ensino público português arrisca-se a tornar-se, por este meio, uma enorme trituradora de excelência, liminarmente capaz de servir decentemente quem se enquadra no padrão e muito pouco quem fica fora dele.

Colectivamente, parecemos ter já dado como perdida a luta para reter em Portugal os melhores cérebros saídos da geração mais bem preparada de sempre, seja nas universidades, seja depois no mercado de trabalho. Seria um mal maior que abdicássemos de formar estes cérebros em todo o seu potencial.

Lembremo-nos disso quando fizermos a próxima festa – merecida, refira-se – de um ou uma jovem que tira 20 a tudo, faz desporto de competição e está em vários programas internacionais de excelência. Sabemos que ele ou ela não ficam cá, mas é já é bom que sejam de produção nacional.

Lembremo-nos que estes jovens, todos os jovens, os de excelência e os outros, são o nosso recurso mais valioso e a maior esperança para o nosso futuro.

Diário de Notícias
Nuno Vinha
09.05.2026

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