Quando o Secretário da Guerra americano me entra pela casa, procuro o comando para o desmaterializar. Faço-o por repulsa, por incapacidade de tolerar uma energia que contamina, um veneno diabólico que se multiplica.
Pete Hegseth é o “mal”, uma sombra de filme de terror, um toque a reunir das bruxas de todas as encruzilhadas. Pergunto-me da razão para que tantos de nós não percebam o “mal” quando o vêem tão mal mascarado.
Pete Hegseth “tem o corpo tatuado a ódio. No peito, a Cruz de Jerusalém. Nos bíceps, a frase que era o grito dos Cruzados antes a matança: ‘Deus o Quer.’ Num braço, a palavra ‘Infiel’ escrita como se a tinta fosse sangue.” FOTO: Yuri Gripas / EPA
É um fanático. Como outros na Administração americana. Acabará mal como todos os ícaros, mas até à sua queda fará o que for preciso para abocanhar a fatia maior do bolo que Trump distribui todas as manhãs ao mais fiel dos seus esfomeados lobos.
Tem o corpo tatuado a ódio. No peito, a Cruz de Jerusalém. Nos bíceps, a frase que era o grito dos Cruzados antes a matança: “Deus o Quer.” Num braço, a palavra “Infiel” escrita como se a tinta fosse sangue.
“Pete Hegseth é o ‘mal’, uma sombra de filme de terror, um toque a reunir das bruxas de todas as encruzilhadas. Pergunto-me da razão para que tantos de nós não percebam o ‘mal’ quando o vêem tão mal mascarado.”
Vendo a sua biografia, e a dos mais emblemáticos ditadores, sabemos algumas coisas que lhes são comuns: maltratados na infância, perversos, ressabiados e providencialistas. É lógico e compreensível que pessoas assim não desejem a democracia: deve ser-lhes insuportável aturar um regime onde são obrigados a respeitar os outros meninos e meninas do recreio.
Por isso, as vítimas, todas as vítimas dos fanáticos religiosos, são o preço justo a pagar, a conversão do mundo é a única coisa que conta. Um mundo sempre visto, aos seus olhos, como diabólico.
E o Diabo combate-se com fogo e martírio. Não é novo. É apenas humano, horrorosamente humano.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
07.05.2026
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Lisboa não precisa de cenários “instagramáveis” pagos com dinheiro público. Precisa de políticas consistentes, transparentes e justas – que apoiem o movimento associativo, as colectividades e programas essenciais para os bairros, como o BIP/ZIP.
A decisão do Executivo liderado por Carlos Moedas de isentar de taxas e financiar o evento Chic Nic com 75 mil euros não é apenas muito discutível – revela uma visão de cidade que privilegia uma certa aparência “chic” em detrimento das necessidades reais. Num contexto em que o custo de vida aumenta diariamente, um punhado de privilegiados levou cestas de 300 euros para o Parque Eduardo VII num evento comercial financiado com dinheiro público. Quando se abdica de receitas municipais e se canalizam recursos públicos para um evento desse tipo, a pergunta impõe-se: quem beneficiou, que contrapartidas para a cidade?
Não foram, decerto, as associações de bairro, os projectos comunitários ou os agentes culturais que lutam todos os dias para manterem actividades com impacto social. Esses continuam a enfrentar candidaturas complexas, atrasos e apoios insuficientes. O contraste é evidente. Para uns há financiamentos fáceis, para outros só atrasos e exigências.
Lisboa enfrenta desafios sérios: dificuldades no acesso à habitação, pressão sobre serviços públicos, falta de financiamento nas cantinas escolares, falta de auxiliares nas escolas e fragilidades nas respostas sociais. No caso do programa BIP/ZIP, da responsabilidade da autarquia, projectos aprovados para 2025 receberam apenas 15% do financiamento previsto. Os atrasos colocam em risco iniciativas em áreas críticas como educação, envelhecimento e saúde mental.
Há igualmente associações a endividarem-se para pagar salários e para conseguirem manter respostas a pessoas em situação de sem-abrigo ou vítimas de violência doméstica, devido a incumprimentos da Câmara Municipal de Lisboa. O futuro do próprio programa BIP/ZIP – em vigor desde 2010 e considerado internacionalmente um exemplo de participação – é, neste momento, incerto.
Perante este cenário, a escolha de canalizar recursos públicos para eventos com forte componente comercial e destinados a uma elite é vincadamente simbólico. Indica um rumo político da cidade virado para o privilégio dos que só entendem a cidade como espaço de negócio, de especulação e de segregação social, em que os interesses do mercado constituem a orientação essencial. Moedas, agora com o apoio da extrema-direita que lhe deu a maioria, está a cumprir o seu programa.
Lisboa merece mais do que políticas para o 1% de privilegiados, enquanto os 99% enfrentam dificuldades e lutam por uma vida mais justa. Merece políticas que promovam a igualdade e coloquem os cidadãos no centro das decisões – não apenas como figurantes de uma fotografia bem composta, mas como protagonistas de uma cidade mais justa.
Diário de Notícias
Paula Marques
Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa
07.05.2026
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São já algumas dezenas os agentes da PSP presos preventivamente ou detidos por dezenas de crimes graves que terão sido praticados em esquadras do centro de Lisboa. “Presos por sodomizar sem-abrigo”, lia-se há pouco no rodapé de um noticiário na televisão. Na verdade, deve este ser o gang mais perigoso em acção na capital, o que é uma tristíssima ironia.
Naturalmente que os processos judiciais estão a decorrer e apenas há condenações, ou não, após os devidos julgamentos. Os sindicatos da polícia têm explicado estes factos com a “juventude” dos agentes em causa. Mas há algo aqui de especialmente mórbido, desde logo pela dimensão de que falamos: a gravidade dos crimes e o número de agentes envolvidos. A juventude dos agentes explica esta realidade? Bem, também há jovens bancários e jovens entregadores de pizzas… Faz parte da natureza das coisas. E o facto de terem uma arma à cintura só torna o seu comportamento mais inaudito.
Destes agentes, uns praticam os crimes originais, outros praticam outros crimes sucessivos, desde logo o de partilharem vídeos de agressões ou omitirem o seu dever de auxílio ou de denúncia. Mas esta escala de violência e de cumplicidade só é possível seguramente com um conhecimento mais amplo dentro da instituição policial. E com falhas muito graves daqueles que chefiam e sobre os quais ainda mais responsabilidades recaem.
Não chega o que se conhece hoje para virem as demissões devidas? É esta a cultura policial a que se chegou em 2026? Não há ninguém que consiga assumir que o que sucedeu é demasiado grave e representa não apenas falhas de funcionários em concreto, mas uma óbvia falha institucional gritante, que envergonha a polícia e o país e que tem de fazer mudar muita coisa?
Espera-se que esta seja uma das prioridades do novo ministro da Administração Interna. Já houve um tempo em que se decapitavam pessoas em postos policiais. Não se quer regressar a esse período.
E… Imigrantes, toxicodependentes, pessoas sem-abrigo – os alvos. É o uso da força contra os mais fracos, a cobardia no seu esplendor. Sente-se a vergonha alheia em relação aos demais polícias, os que são decentes e cumpridores, os que vêem na sua profissão uma oportunidade para ajudar outros, normalmente em situações difíceis.
Só a PSP sabe quem são estas pessoas com quem agora a Justiça lida. Foi a PSP que os recrutou, que os formou, que lhes atribuiu funções, que os supervisionou. Que falhanço, rotundo, sistémico! Quando tudo falha, é boa altura para reconstruir quase tudo.
Há decisões que não fazem barulho imediato, mas que deixam um eco prolongado na qualidade da democracia. Recusar a partilha de informação sobre o financiamento dos partidos é uma delas. Não é um tema mobilizador à superfície, porém, diria eu, toca no nervo central da confiança política.
Para os partidos, as vantagens são evidentes. Menos escrutínio significa maior margem de manobra, já que permite gerir apoios, donativos e relações com financiadores com menor exposição pública, reduzindo o risco de desgaste mediático e de leituras simplistas ou instrumentalizadas. Num sistema político pressionado por ciclos noticiosos rápidos, a opacidade pode parecer uma forma de protecção e, acrescenta-se, também evita que cada contribuição seja imediatamente convertida em suspeita, num ambiente em que a desconfiança se instala com facilidade.
Mas aquilo que protege a curto prazo fragiliza a longo prazo: a democracia vive de confiança, e a confiança exige transparência. Quando os cidadãos não conseguem perceber quem financia quem, abrem-se espaços para a suspeita, para a ideia de que existem interesses ocultos a condicionar decisões públicas. Mesmo que não existam, a simples possibilidade mina a credibilidade do sistema. E uma democracia sem credibilidade entra num terreno perigoso, no qual o populismo encontra alimento fácil.
Existem boas-práticas internacionais que apontam noutro sentido, veja-se o que fazem tantos outros países por esse mundo fora. Existem opções claras de transparência activa com a divulgação acessível e compreensível das fontes de financiamento. Mais: existe a prática de realizar auditorias independentes e regulares. E ainda uma definição rigorosa de limites para donativos individuais e empresariais. E, sobretudo, existe uma cultura de prestação de contas que não é tão somente formal, é assumida como parte integrante da ética política.
A política exige responsabilidade acrescida, porque lida com o interesse público e, por isso, os códigos de conduta devem ser claros, os mecanismos de fiscalização eficazes e deverá existir comunicação frontal sobre financiamento. Nada disto é acessório, são condições mínimas de legitimidade. Digo eu e não creio que esteja sozinha.
As redes sociais, com o seu gosto pela boçalidade e o insulto, nivelaram o discurso por baixo, convertendo todas as pessoas, por mais tolas, imbecis ou ignorantes que sejam, em potenciais influenciadores, capazes de condicionar as acções de um cada vez maior número de “seguidores”, tão tolos, imbecis ou ignorantes como eles.
Influenciar é um comportamento tão comum como a natureza humana. A larga maioria dos seres humanos já influenciou, ou tentou influenciar, outros seres humanos.
Os pais influenciam os filhos. Os irmãos mais velhos influenciam os mais novos. Os professores influenciam os seus alunos. Os artistas mais conceituados e respeitados – pintores, escultores, arquitectos, compositores, actores, cantores – influenciam os que se iniciam nas respectivas actividades.
Há mesmo profissionais que desenvolvem a sua actividade no domínio específico da influência: vendedores, especialistas em marketing, políticos, críticos literários, musicais, teatrais, cinematográficos, lobbyists.
Neste contexto, foi-me difícil compreender o que haveria de especial na palavra “influenciador”. Consultado o dicionário – no caso, da Porto Editora –, além da definição óbvia de influenciador como aquele que influencia, surge o influenciador digital: “Pessoa que, por reunir um grupo significativo de seguidores em redes sociais ou plataformas de comunicação online, tem a capacidade de gerar interesse em determinada marca, serviço, produto ou causa, através das referências ou das recomendações que faz nesses meios.”
Nesta longa definição, sobressaem dois aspectos: a natureza predominantemente comercial da influência (as causas aparecem em último lugar) e a existência de seguidores nas redes sociais. O influenciador digital corresponde ao influencer da língua inglesa – ou corresponderia, se a palavra existisse, o que é tudo menos certo. O conceituado dicionário Merriam-Webster, por exemplo, ignora o termo, limitando-se a referir a palavra influence e alguns seus derivados, como influenced.
O que há de peculiar no uso actual (com não mais de meia dúzia de anos) dos termos influencer ou “influenciador” é que aqueles que assumem, ou pretendem, sê-lo o consideram uma profissão. Ora, se tivermos presente a definição do dicionário português, tal profissão consistiria em ganhar a vida através da influência exercida, em regra com finalidades comerciais, sobre outras pessoas, através das redes sociais.
Na verdade, como vimos, essa actividade, na sua essência, existe há muito. Sucede que esses “influenciadores” avant la lettre, exerciam a sua influência porque lhes era reconhecida especial qualificação, conhecimentos ou reputação, que tornavam a sua influência – veiculada, em regra, por órgãos da comunicação social – respeitada.
É aqui que entra a segunda parte da definição – as redes sociais.
As redes sociais, com o seu gosto pela boçalidade e o insulto, nivelaram o discurso por baixo, convertendo todas as pessoas, por mais tolas, imbecis ou ignorantes que sejam, em potenciais influenciadores, capazes de condicionar as acções de um cada vez maior número de “seguidores”, tão tolos, imbecis ou ignorantes como eles.
Num mundo de crescente mediocridade, poderíamos mesmo formular uma nova Lei de Murphy: por mais idiota que seja um influenciador, o número dos seus seguidores tende a aumentar.
Diário de Notícias
João Caupers
Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do ‘Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça’
30.04.2026
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Três mortes. Este é um número que deveria ser repetido várias vezes durante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) sobre o impacto da greve às horas extraordinárias dos técnicos de emergência pré-hospitalar que teve lugar entre 30 de Outubro e 4 de Novembro de 2024. Pois estas foram as mortes associadas pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde à paralisação das 12 ocorridas naquele período e que levantaram suspeitas sobre o socorro.
Aquelas mortes, bastava uma, deviam ser o suficiente para os responsáveis do Ministério da Saúde mostrarem respeito pelas vítimas e não procurarem usar a burocracia (para não lhe chamar pior) para não assumirem responsabilidades políticas.
Resumidamente a questão é esta: a ministra da Saúde e a antiga secretária de Estado da Gestão da Saúde disseram, desde o primeiro momento, que não tinham recebido o pré-aviso de greve dos técnicos.
E a verdade é que andamos nisto há um ano e cinco meses: ninguém é responsável pela falta de meios do INEM nesses dias.
A piorar a situação, sabemos desde essa altura que no Ministério da Saúde ninguém ouve notícias, lê jornais e vê televisão: chegámos a ouvir que não sabiam de uma greve que foi largamente noticiada. Aliás, acho que no país toda a gente sabia da mesmo, excepto quem trabalha no edifício da Avenida João Crisóstomo, onde funcionam o gabinete da ministra e as secretarias de Estado.
Mas a Lei de Murphy é para levar a sério neste ministério. Se já era difícil entender como é que quem tem responsabilidades governativas, e quem faz a sua assessoria, diz não saber de uma greve bastante anunciada, o que pensar do facto de um e-mail ser enviado para um gabinete, depois reencaminhado para o endereço errado e nenhuma das pessoas que o leu ser capaz de avisar que existia um aviso de greve? Não trabalham em equipa? Nem no mesmo local?
E depois as desculpas: primeiro ninguém tinha conhecimento do pré-aviso e, agora, afinal foi um erro no processamento da informação. Então se foi um erro qual a razão para o tentar “esconder”?
Infelizmente, enquanto assistimos a esta triste novela, não há um assumir de responsabilidades. Lembrem-se: morreram 12 pessoas naquele período e três ficaram associadas à falta de resposta do INEM.
Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
30.04.2026
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Todos os anos vamos para a rua pôr à vista uma realidade que contraria as ilusões instiladas pela extrema-direita na opinião pública – que a maioria o da população se reconhece no 25 de Abril, que os jovens não viraram as costas ao 25 de Abril e que a crítica a determinadas políticas públicas do Estado, seja de que área política elas venham, não quer dizer que rejeitemos a forma democrática de governo.
Este consenso transcende esquerda e direita e não é exclusivo de velhinhos a tremer pelas suas reformas, pois vimos muitos jovens na rua, com os cravos bem vermelhos a brilhar nas mãos.
Quer isto dizer que não existem problemas com as gerações que não viveram a Revolução e não conheceram o regime que nos foi imposto pela extrema-direita? Não, esse problema existe, essa distância é real, e, como disse o nosso Presidente da República, não podemos pedir aos mais jovens que amem o 25 de Abril por imposição, pois “ninguém ama por decreto ou procuração aquilo que não viveu”.
Por isso teremos de repetir sem quebras o que significou para nós essa data e, sobretudo, o que é viver num país democrático. Teremos de contrariar, com um discurso simples e sem chavões, as falsidades da extrema-direita, de onde surgiu agora a mentira da “facada nas costas” que teria sido dada pelo 25 de Abril a uma Guerra Colonial justa, ganha e aplaudida internacionalmente.
A mentira tem de ser desmentida com clareza, em vez de ser difundida acriticamente por uma comunicação social fascinada com as falsidades, quando as verdades não vendem.
Há uma desilusão com a política, quando a política falha nas promessas que faz aos eleitores. E é fácil, demasiado fácil, atribuir à maldade dos partidos e dos eleitos os fracassos havidos, em lugar de debater as soluções que cada força política propõe (ou não propõe) para os problemas. É que resolver problemas é mais complicado do que gritar “vergonha” no Parlamento e insinuar que um chefe todo-poderoso daria num ápice a felicidade a todos.
Acabar com a corrupção é fácil, quando se dispõe de uma censura eficaz, pois o que não vem a público deixa de existir. Minimizar as falhas dos serviços do Estado é fácil, desde que elimine, por via autoritária, qualquer escrutínio público. Nós lembramo-nos disso. Lembramo-nos da guerra e da miséria, dos interditos e das prisões. Lembramo-nos dos coronéis da censura e dos informadores da PIDE. Lembramo-nos da tortura nas prisões, dos Tribunais Plenários, das medidas de segurança, que permitiam manter um cidadão ou uma cidadã na prisão por tempo indefinido, mesmo sem acusação processual, mesmo com sentença de absolvição lavrada.
Hoje a prioridade política é defendermo-nos dos falsos salvadores.
Nos EUA, um ministro pretende fazer um sermão bíblico recitando, em pose Chuck Norris, a fala furiosa de um gangster num filme; em Portugal, um partido invoca o laicismo do Estado para declarar que o país é católico e, portanto, podem-se ilegalizar outras confissões.
Já toda a gente, menos o próprio, terá dado umas boas gargalhadas ao ver Pete Hegseth, o burlesco ministro da Guerra de Trump, recitar entusiasticamente, do princípio ao fim, convencido de que está a reproduzir um excerto bíblico, o inesquecível “sermão” de Samuel L Jackson em Pulp Fiction — aquele que a personagem, esbirro de um mafioso, declama sempre antes de despachar mais uma vítima com um tiro entre os olhos.
Engraçado porém que a maioria dos comentários sobre o equívoco do governante se detiveram na sua reveladora ignorância bíblica, sem mencionarem algo bem mais relevante: admitindo que não se tinha enganado, e citara mesmo a Bíblia e não uma criação de Quentin Tarantino, como se admite, num país com alegada separação entre Estado e religião, um ministro “oficiar” numa cerimónia religiosa? Mais, que sentido faz uma cerimónia religiosa num edifício estatal (o Pentágono)?
A razão pela qual — em Portugal, pelo menos — ninguém colocou essas questões é que, apesar de termos desde 1976 uma Constituição que deixa clara a separação entre Estado e igrejas, estamos há estes mesmos 50 anos a assistir a negações práticas dessa separação. Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante — ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS —, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões.
Este é, de resto, um assunto praticamente tabu — de cada vez que alguém se lembra de abordar tais privilégios, é tratado de herege raivoso para baixo.
Nem que apenas se proteste, por exemplo, contra o facto de a Igreja Católica portuguesa ter levado duas décadas para aceitar examinar com seriedade a horripilante questão dos crimes de abuso sexual de menores no seu seio, sem nunca ter sido a tal forçada pelo Estado. Ou se chame a atenção para o facto de a renitente interdição do sacerdócio às mulheres, mantendo-as num estatuto de menorização na hierarquia, constituir, nas palavras do teólogo suíço Hans Küng, “uma difamação essencial das mulheres” que nega o princípio fundamental da igualdade de género.
Ou ainda, numa nota mais leve, alguém se insurja por num determinado dia santo para os crentes do catolicismo toda uma zona da cidade ser apetrechada com altifalantes para que o som da música (tocada pela banda da GNR, claro) e cânticos de uma procissão, mais o sermão do padre que lhe preside, possam propagar-se em alto e bom som por vários quarteirões.
Que faria então se, em vez de questionar apenas a necessidade de altifalantes que obrigam toda a gente nas imediações a escutar a celebração como se tivesse resolvido passar o dia na missa, a proposta fosse de interditar as procissões, alegando que, ao ocupar o espaço público, incomodam quem nelas não participa, podendo de resto defender-se que são contrárias aos valores e gostos da maioria, já que, como resulta evidente, só uma ínfima minoria da população, mesmo quando sucedem em feriados, a elas ocorre?
Tal proposta — a de interditar as procissões por a maioria nelas não participar nem por elas se interessar — seria decerto e bem classificada como um atentado à liberdade em geral e à liberdade religiosa em particular. Não faltaria quem lembrasse que é assim que agem os estados totalitários e as teocracias, onde, em nome do alegado império de uma maioria e do bem da nação, os que professam religiões minoritárias (ou qualquer religião) são frequentemente invisibilizados, discriminados, obrigados a esconderem-se para as celebrar. E até insultados, perseguidos, escorraçados, brutalizados e mortos.
Haveria inclusive quem recordasse como em Portugal, o Portugal monárquico em que Igreja Católica e Estado não se distinguiam, foram a certa altura discriminados, perseguidos, escorraçados e obrigados a esconder a sua religião, para não serem expulsos ou assassinados, os judeus.
Tudo impensável hoje, no país democrático e liberal, com separação entre confissões e Estado e garantia constitucional de não discriminação com base na religião, que somos.
Ou não: num projecto de lei apresentado em Março, e que esta quarta-feira vai a discussão em comissão, a dos assuntos constitucionais, da Assembleia da República, o Chega propõe precisamente, em nome de uma “matriz cultural e espiritual da nação”, e da “identidade católica portuguesa”, alterar a Lei da Liberdade Religiosa (de 2001) para combater “a crescente diversidade religiosa”.
Passando então os respectivos artigos 4º e 5º a rezar assim (alterações a itálico): “O Estado não adopta qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas, contanto que as mesmas não contrariam os valores constitucionais ou a ordem pública (…)”; “O Estado cooperará com as igrejas e comunidades religiosas radicadas em Portugal e compatíveis com os valores nacionais (…).”
O objectivo, entre outros, tal como se admite no muito instrutivo preâmbulo do diploma, assinado pelos 60 deputados do partido, é desde logo proibir “celebrações muçulmanas em espaços públicos”, com a justificação de que ser muçulmano é não ser português: “Não pode, nem deve, o Estado, disponibilizar os seus espaços públicos, e até, financiar, celebrações que nada têm que ver com a matriz do ser português.”
Assistimos assim à expulsão simbólica de todo e qualquer muçulmano da identidade nacional, ficando aliás a saber, os que de nós não são católicos, que deixamos muito a desejar como portugueses (como aliás nos lembrou ainda há semanas o ministério da Defesa, ao partilhar nas redes sociais o desejo de “Uma Santa Páscoa”) e podemos, quiçá, ser os próximos.
O mais curioso, porém, é que o Chega apresenta estas propostas em nome do “princípio constitucionalmente protegido da liberdade religiosa”. E como? Alegando que “em algumas comunidades muçulmanas há sistemas normativos, como a Xaria, nos quais a distinção entre o direito religioso e o direito civil não é formalmente estabelecida, prática substancialmente distinta do princípio ocidental da separação entre Estado e religião, consagrado na Constituição da República Portuguesa (…).” Um “princípio ocidental” que, lembre-se, até 1975 não vigorava em Portugal, já que o divórcio civil era interditado a quem tivesse celebrado um casamento católico — mas isso agora não interessa nada, muito menos ao partido “dos três salazares”.
Concluímos assim que para defender a ideia de que uma confissão (reconhecida pelo Estado, como é o caso da islâmica) não pode ser tratada como igual às outras, o que significa, obviamente, que aqueles que a professam não são cidadãos como os outros, se invoca o princípio da liberdade religiosa. Mais: parte-se “da premissa constitucional de um Estado laico cuja política pública deve preservar a respectiva neutralidade e a igualdade entre cidadãos, sem prejuízo das garantias de liberdade religiosa (…).”
O que este extraordinário diploma nos diz é que é para defender o Estado laico — o Estado que não tem religião — que propõe ilegalizar a manifestação pública de uma determinada confissão, porque essa manifestação pública colide com “o núcleo identitário português”, ou seja, com uma proclamada identidade católica nacional. E isto tudo, imagine-se, “não pretendendo alinhar qualquer juízo de valor discriminatório”.
Não é preciso ser constitucionalista ou sequer jurista para saber que este projecto de lei não tem ponta por onde se lhe pegue — os próprios autores saberão bem disso. Mas o que pretendem não é aprovar uma lei. É, como Hegseth quis com o seu sermão tarantinesco, fazer um show. Num caso como no outro, de ódio — porque é esse o seu único reino.
Começou no início deste mês o período de entrega do IRS, e quase dois milhões de pessoas já submeteram as suas declarações de rendimentos relativos ao ano passado ao Estado. O Executivo comprometeu-se a pagar num prazo médio de duas semanas, o que tem sido cumprido, sobretudo quando se fala de entrega automática de declarações – de qualquer forma, tenha especial atenção se fizer parte do grupo de pessoas que entrega a declaração automática, porque têm sido relatados vários erros na declaração das contribuições, o que pode ser penalizador na hora do acerto de contas.
Ora, algo que sabemos este ano é que os valores dos reembolsos deverão ser significativamente menores, uma vez que o Governo de Luís Montenegro decidiu reduzir o montante das contribuições mensais, para aliviar a carteira dos cidadãos no curto prazo, o que ainda poderá causar surpresa a quem tenha andado mais desatento. Pode até dar-se o caso de ter de liquidar alguma conta com o Estado, mesmo que nos últimos anos tenha sempre sido reembolsado – daí ser ainda mais importante confirmar que declarou todas as suas despesas e que as tem devidamente identificadas para conseguir ter os benefícios fiscais devidos.
Mas o que não deixa de ser surpreendente nesta época, é que o Estado continue – e que nós não nos insurjamos contra isso – a usar dois pesos e duas medidas na hora deste acerto de contas anual a que somos todos obrigados. É que se eu for obrigada a liquidar algum montante ao Estado, porque não descontei o suficiente durante os 12 meses de 2025, tenho de o fazer até dia 31 de Julho de 2026. Precisamente um mês depois de ter terminado o prazo para a entrega das declarações de IRS. Mas se, por acaso, for o Estado a ter de me reembolsar porque, afinal, descontei mais do que me seria devido, pode fazê-lo até dia 31 de Agosto.
No mesmo sentido, o Fisco também avisa logo que se houver lugar a reembolsos de valores inferiores a dez euros, estes não são transferidos para a conta do contribuinte. “Não há lugar a reembolso quando em virtude de liquidação, ainda que adicional, reforma ou liquidação, a importância a restituir seja inferior a dez euros”, diz o Portal das Finanças. O mesmo não acontece se eu tiver de pagar 10 euros ao Estado – e é só fazer as contas: se dois milhões de contribuintes tiverem cinco euros, por exemplo, para receber do Estado, o Fisco embolsa 10 milhões de euros sem o mínimo esforço (ou direito).
O facto de haver dois pesos e duas medidas no tratamento de cidadãos e Executivo é algo que não se restringe às Finanças, e que nos devia deixar a todos em alerta. Porque, afinal, este dinheiro todo de que falamos quando falamos de IRS, é nosso: pagamo-lo porque trabalhamos, e entregamo-lo a quem escolhemos para o administrar, para que tenhamos direito a bens e serviços. Ser mais exigentes com a transparência e a justiça é, pois, o mínimo que devemos fazer.
Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Editora-Executiva do Diário de Notícias
28.04.2026
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Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.
Parece difícil de acreditar que muitos de nós não tenham orgulho num dos momentos mais bonitos e identitários de ser português – enquanto na Guerra Civil espanhola morreram mais de meio milhão de pessoas, não contabilizando os 100 mil que desapareceram, em Portugal preferimos armar as espingardas com cravos a matar-nos uns aos outros.
“António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa (…).” FOTO: Leonardo Negrão
Os cravos são um símbolo da democracia, não necessariamente um património exclusivo da esquerda. Representam a vida em oposição à morte, a esperança em oposição ao medo, o optimismo em oposição ao fatalismo. É o símbolo da nossa inocência, de uma ingenuidade poética que me emociona e orgulha.
É também um abraço à memória de uma mulher, a dona Celeste, que começou a distribuir, por puro instinto, cravos aos soldados revoltosos, entusiasmando vendedoras de várias praças de Lisboa a fazerem o mesmo.
Não é bonito? Não é extraordinário? Não foi um verdadeiro milagre?
“Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.”
Renegar os cravos é virar as costas ao que temos de melhor, ao símbolo mais poderoso da tolerância democrática, da liberdade colectiva e individual.
Vamos lá a ver, António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa, por ser intolerante com o ressentimento dos que prefeririam que os cravos não existissem… ou a democracia.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
27.04.2026
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