Passadeiras, sinais vermelhos, faixas de bus, placas indicativas de entradas prioritárias ou somente para animais, sinais de acesso proibido. Sinaléticas que identifica casas de banho ou balneários femininos ou masculinos, sentidos proibidos e sentidos obrigatórios. Sinais de ‘fechado’ para revelar que um estabelecimento está encerrado ou uma porta aberta para dizer que se pode entrar e a proibição de usar telemóveis enquanto se conduz.
Parece simples e básico o que estou a dizer, verdade? No entanto, o que é que sabemos? Que 57% dos atropelamentos, em Portugal, ocorrem fora das passadeiras. Ou que perto de 32% dos acidentes em auto-estrada acontecem porque os condutores estão a utilizar o telemóvel. Isto para usar apenas dois exemplos de duas regras tão simples cujo incumprimento leva a consequências significativas.
As regras existem, nas sociedades, para tornar a vida de todos nós mais fácil. Existem passadeiras por segurança dos peões; existem faixas exclusivas de autocarros porque isso ajuda os transportes públicos a serem mais eficientes; existem cores nos ecopontos para que a reciclagem seja feita mais facilmente; existem filas nos supermercados para que todos saiamos de lá mais rápidos.
Se todos nós cumprirmos as regras, a sociedade funciona de forma mais fluida: há menos acidentes, menos trânsito, zangamo-nos menos no supermercado, chegamos a horas se formos de autocarro…consegue entender a ideia? As regras são aborrecidas? Às vezes. E nem sempre são justas. Mas elas não foram feitas para nos chatear, embora às vezes pareça que sim.
Foram desenhadas – bem ou mal – para que o mundo seja, também, mais justo. Daí que não consiga deixar de me espantar com aquilo a que assisto diariamente, que é a um claro aumento de desrespeito pelas regras e pelos mais básicos princípios da boa convivência e educação numa sociedade que se diz evoluída. Mas repare-se: quando estamos a desrespeitar as regras, não estamos a desrespeitar essa entidade superior e abstracta – ‘regras’. Estamos a desrespeitar todos aqueles à nossa volta.
Quando passa um sinal vermelho, está a desrespeitar os outros condutores e os peões, que se regem pelas mesmas regras e agem em conformidade; quando fura uma fila no supermercado, está a desrespeitar os outros clientes que estavam lá antes de si; quando deixa um carro estacionado em segunda fila, pode estar a impedir que alguém receba ajuda urgente se por aquele lugar precisar de passar uma ambulância; quando usa o telemóvel enquanto conduz, está a aumentar em 4 vezes a possibilidade de ter um acidente que pode magoá-lo a si e a outros – está a desrespeitar a sua vida.
Todas as escolhas que faz têm consequências concretas e, muitas vezes, muito sérias não apenas para si mas para quem vive à sua volta. Fazemos, no mundo ocidental, publicações (e às vezes notícia!), porque o público japonês, quando participa num evento, leva consigo o lixo – a regra, que geralmente está em todos os lugares, diz para as pessoas levarem consigo tudo o que trouxeram.
O facto de nós ignorarmos as regras e aplaudirmos outros povos (como os do norte da Europa) porque as cumprem, mostra bem o nível de dissociação cognitiva que andamos a viver. Ao invés de nos espantarmos porque alguém cumpre as regras, talvez devêssemos todos tentar fazer o mesmo todos os dias. Desconfio de que nos iríamos espantar com o resultado.
Diário de Notícias
Margarida Vaqueiro Lopes
Editora-Executiva do Diário de Notícias
19.05.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Questionada pelo DN sobre se as celas do Estabelecimento Prisional de Lisboa têm condições para alojar pessoas, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais não respondeu. Não pode dizer que sim. Mas estão lá mais de mil.
“Há condenações consecutivas de Portugal pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos por práticas análogas à tortura nas prisões. Tortura é um crime. Sei que não é assim que funciona o Direito Internacional, mas é bastante estranho ver condenações por práticas que são análogas à tortura e ninguém ir preso. Não deveria haver responsabilização de quem tem a tutela das prisões, por submeter pessoas a tratamentos desumanos e degradantes?”
A pergunta é do jornalista Nuno Viegas, do podcast Fumaça, que está a fazer uma série longa — o Fumaça dedica-se ao “slow journalism” — sobre as prisões nacionais. A entrevista, de 2025, é a Miguel Feldman, coordenador da estrutura de apoio ao Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNP), que tem desde 2015 produzido relatórios sobre locais de detenção nacionais.
Naturalmente, a resposta não podia ser outra coisa senão diplomática; Feldman é jurista, visita prisões desde que o Mecanismo existe e tem de se relacionar com as autoridades prisionais e a tutela. Fala, numa voz pausada, serena, na qual o desalento corre em rio profundo, da “não coercibilidade do Direito Internacional público”. E assegura, quando questionado sobre “como pode a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais manter, na apreciação do MNP, reclusos ‘em condições desumanas’, 22 horas fechados em celas”, que a resposta mais simples é falta de meios: “Não creio que haja vontade de tratar mal as pessoas. Mas é muito difícil, perante a falta de meios, conseguir dar uma resposta rápida a situações que são intoleráveis.”
Não há vontade de tratar mal as pessoas, ecoa o jornalista, com ponto de interrogação. E enumera: se Portugal desde 2020 foi condenado pelo TEDH várias vezes diferentes, se vamos em bem mais de uma dúzia de violações separadas da Convenção Europeia dos Direitos Humanos devido às más condições materiais nos estabelecimentos prisionais (EP); se o que o tribunal vai encontrando são violações reiteradas ao longo de muitos anos, vários EP, vários locais.
Se toda a gente sabe disso porque há relatórios da Provedoria de Justiça sobre as prisões desde 1996, o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura vem cá há 20 anos e está lá tudo nos relatórios, se o Sub-comité para a Prevenção da Tortura das Nações Unidas vem cá menos vezes e encontra as mesmas coisas… A lista termina em pergunta retórica: “Houve alguma mudança estrutural no tratamento das pessoas reclusas desde as condenações do TEDH?”
Claro que não. Admite Feldman — o mesmo Feldman que este domingo, em entrevista ao Público, disse “mais do que indignas, às vezes as condições das prisões são inimagináveis” — e dizem todos os relatórios mencionados, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso, o Fórum Penal, os acórdãos sucessivos do TEDH. E dizem até as comunicações do Estado português com o Comité de Ministros do Conselho da Europa (que tem a incumbência de fiscalizar o cumprimento dos acórdãos do tribunal), pelo que demonstram, até nas medidas que referem estar em curso ou em preparação, ser o estado das penitenciárias.
Porque o que se vê ali, nessas comunicações pouco ou nada escrutinadas em que Portugal tenta comprovar estar a cumprir as decisões do TEDH, são garantias de, por exemplo, “desparasitação mensal” — supõe-se que devido aos reportes contínuos de infestações de baratas, percevejos, pulgas e ratos —, de avaliação da lotação dos estabelecimentos de acordo com as áreas mínimas de cela por pessoa exigidas pelo TEDH, de obras para separação das instalações sanitárias do resto do espaço dos alojamentos.
O que se vê ali é que grande parte do sistema prisional chegou à terceira década do século XXI com os reclusos amontoados em celas onde urinam e defecam à frente dos outros, celas onde por vezes nem têm espaço para estar três em pé ao mesmo tempo. Celas húmidas, cheias de bolor, gélidas no inverno e irrespiráveis no verão, não raro infestadas de insectos repelentes e roedores, e nas quais têm de passar grande parte do dia fechados, sem nada para fazer.
O que vemos ali é a certificação de que o sistema prisional português nem sonha cumprir a obrigação, prevista no seu próprio regulamento, de colocar apenas uma pessoa por cela.
O que vemos ali é a tentativa do Estado português, ano após ano, de empurrar com a barriga e para baixo do tapete, não criando sequer as condições para que os reclusos tenham um recurso, instância, nacional ao qual possam queixar-se das prisões com garantia de eficácia, em vez de só terem o TEDH — ausência de recurso que é em si uma violação dos direitos humanos, e pelo qual o país já foi condenado.
O que vemos ali, e aqui falo como jornalista, é que o Estado português envia para o Conselho da Europa informação que nega sistematicamente quando lhe é pedida por quem tem a função de informar, obrigando os jornalistas nacionais ao ridículo de requerer a um organismo internacional acesso àquilo que cá lhes é interditado como “documento de trabalho interno”.
O que vemos ali é a evidência de que o sistema prisional e quem o tutela se esforçam, hoje como há décadas, por escamotear a gravidade da violação dos direitos humanos, escondendo sistematicamente os factos e os números (nem nas mencionadas comunicações se encontra algo tão básico como a média de reclusos por cela ou o rácio real de recluso por metro quadrado).
É normal: os crimes negam-se até ser impossível continuar a negar (e mesmo assim muitas vezes para além disso). Porque, sem dúvida alguma, regressando à questão colocada pelo Fumaça a Miguel Feldman, é da assunção da continuação de uma actividade criminosa — a de tratamentos cruéis, degradantes e desumanos — que se trata.
O Código Penal português prevê o cometimento de crimes por omissão — são os crimes que comete quem não age como e quando tem o dever de agir, e nomeadamente quem tem o dever de garante (quem, pelas suas funções, ou relação com a vítima, tem a responsabilidade de garantir a sua segurança).
Quando a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, questionada pelo DN sobre se considera que as celas da Ala B do EPL, cujas imagens o jornal tem vindo a publicar, têm condições para alojar pessoas, não responde, está a responder que não. Não: não têm condições para alojar pessoas.
Pelo que cada uma daquelas pessoas — pessoas, sublinho — está, comprovadamente, a sofrer tratamento desumano e degradante por parte do Estado português. E por todos nós que vemos e deixamos passar, porque achamos que somos melhores, que aquelas pessoas são doutra natureza, doutra estirpe, doutra raça, doutro planeta.
Merecemos tanto, mas tanto, ser condenados por isso.
A pouco mais de 100 metros da esquadra, apenas um par de minutos a pé, está a Capela do Rato. Não podia ser mais simbólico do que somos: grotescos e anjos, perversos e generosos. A dois passos do Inferno, lugar de atrocidades e esgoto humano, um sítio que simboliza a tolerância, o conhecimento e a interioridade. Se as paredes daquela esquadra não fossem insonorizadas ter-se-iam ouvido as desesperadas súplicas dos que foram torturados por polícias fardados.
Esquadra do Rato ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
Gente pobre, excluída, sem-abrigos, toxicodependentes violados por cabos de vassoura e cassetetes amovíveis, humilhados e expostos em imagens que circularam como um vírus do Mal. A menos de 200 metros, a capela onde Tolentino pregou o Amor. Onde os católicos críticos do Estado Novo rezaram pelo fim da ditadura. Onde o Padre Alberto Neto, mentor da JUC, agitou as águas com palavras que indicavam o sentido do futuro. A dois minutos de distância da animalidade, uma capela despojada de artifícios para que só a Palavra possa sobreviver. E o silêncio.
Sabemos que o nosso destino está escrito: um dia a morte chegará. O problema por isso nunca foi o fim, mas o que fazemos até lá. O que somos, o que desejamos para a nossa vida. Que todos morremos não é uma surpresa, o que realmente me surpreende é encontrar pessoas que estando vivas nunca realmente viveram. A maldade a este nível não tem remissão ou se apaga com arrependimento, é puro veneno. São 200 metros, um pouco menos ou um pouco mais. Uma distância de dois minutos entre a vida e as trevas.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
18.05.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
As temperaturas devem registar valores mais elevados no Vale do Tejo e no interior do Alentejo, onde podem chegar aos 35 graus. Estão também previstas poeiras do Norte de África.
D. R.
As temperaturas máximas vão subir na quarta-feira até nove graus Celsius, ultrapassando os 30 graus em algumas regiões do país, e estão também previstas poeiras do Norte de África, disse à Lusa a meteorologista Maria João Frada.
Segundo a meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), para esta segunda (18 de maio) e terça-feira ainda se prevê nebulosidade nas regiões do Norte e Centro, e há a possibilidade de períodos de chuva fraca ou chuvisco, temporariamente moderado no Minho e mais prováveis no litoral.
De acordo com Maria João Frada, na terça-feira já se aguarda uma pequena subida da máxima nas regiões do Norte e Centro e na quarta-feira essa subida será acentuada.
“No dia 20 [quarta-feira] começamos a ter a influência de um anticiclone que ficará localizado sobre França e estende a sua influência em direcção ao arquipélago da Madeira, juntamente com um vale invertido que se estende desde o norte de África à Península Ibérica que começa a transportar massas de ar tropicais que nesta altura do ano fazem com que as temperaturas subam significativamente”, explicou.
Assim, segundo Maria João Frada, na quarta-feira as temperaturas vão registar subidas da ordem dos 6 a 8/9 graus Celsius, com excepção de alguns locais da faixa costeira a norte do Cabo Raso, onde serão menos significativas.
“Vamos chegar a dia 20/21 com temperaturas na generalidade do território a variar entre os 26 e os 30 graus, com valores mais elevados no Vale do Tejo e no interior do Alentejo onde podem chegar aos 32 e 34/35 graus. Na faixa costeira ocidental, principalmente a norte do Cabo Raso, vão variar entre os 20 e os 25 graus”, disse.
Na quinta-feira, as temperaturas máximas voltam a subir 2/3 graus em alguns locais do continente.
“Teremos então na quarta e quinta-feira dias de céu pouco nublado ou limpo. No entanto, é previsível e provável que possam vir, principalmente na quarta-feira, algumas poeiras do Norte de África, que poderão ficar até pelo menos dia 22 [sexta-feira]”, adiantou.
De acordo com a meteorologista do IPMA, a partir de quinta-feira a previsão é um pouco instável.
“Os modelos ao longo do tempo não têm dado uma situação estável ou de confiança, podendo no sábado haver uma descida das máximas no litoral e na região sul, mas ainda a confirmar”, disse.
Maria João Frada referiu ainda que os valores da temperatura a registar na quarta e quinta-feira começam a contribuir para onda de calor.
“No entanto, se houver uma descida de temperatura no dia 23 [no sábado] deve quebrar e não haver onda de calor, mas o cenário em algumas estações do IPMA é para um período prolongado especialmente no interior”, disse.
As temperaturas na próxima semana deverão chegar aos 35ºC em Portugal continental, havendo dois dias em especial em que o calor se vai sentir de forma mais forte. A chuva deverá ser “residual ou nula” e o vento segue o mesmo caminho, mantendo-se discreto.
Maio é conhecido por ser o mês das flores, mas este ano a chuva ainda não deixou de acompanhar a primavera – cenário que está prestes a mudar (sim, fãs do calor, está na hora de celebrarem).
O cenário de chuva e tempo nublado que tem vindo a verificar-se está ao virar da esquina, que é como quem diz: ao virar do fim de semana.
De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), na próxima semana, de 18 a 24 de maio, “prevê-se uma subida gradual de temperatura devido ao estabelecimento de uma região anti-ciclónica entre a Madeira e a Europa Central, particularmente a partir de terça e quarta-feira, dias 19 e 20”.
Segundo os especialistas, o guarda-chuva será mesmo para guardar, dado que a “precipitação prevista será residual ou nula, embora haja a possibilidade de períodos de chuva fraca ou chuvisco em alguns locais do litoral Norte e Centro, mais prováveis no Minho, na terça-feira”.
Mas a chuva não se despede sozinha, já que com ela deverá ir também o vento, dado que no período em questão se prevê que “o vento soprará em geral fraco, sendo moderado em alguns períodos, particularmente nas terras altas e, em regime de brisa, na faixa costeira durante as tardes”.
E os termómetros?
Vento e chuva ‘arrumados’, completa-se a tríade das previsões com as temperaturas – que, apesar de ainda estarmos na primavera, poderão mesmo parecer de verão, que oficialmente só chega daqui a um mês.
Para o início da semana os valores de temperatura máxima vão rondar os 18ºC e os 25ºC, “com os valores mais elevados no interior do Alentejo, subindo gradualmente ao longo da semana para valores entre 25ºC e 35°C a partir de quarta-feira, dia 20, com excepção da faixa costeira ocidental das regiões Norte e Centro, que deverá manter valores entre 20 e 25°C”.
Mas não são só as máximas que vão subir nos termómetros, dado que também a temperatura mínima vai subir “gradualmente, com valores entre 13 e 17°C na generalidade do território a partir de quinta-feira, ou mesmo ligeiramente superiores na costa sul do Algarve”.
Morreu um desconhecido que tinha poder – o de escutar, o do silêncio, o de conhecer segredos, o de guardá-los, o de tratar bem quem lhe batia à porta, o de ser uma presença invisível. Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula.
Davide conheceu toda a gente na política portuguesa. Conversava com ministros, deputados, aspirantes a sê-lo, jornalistas, artistas e engolidores de fogo. Mantinha conversas suspensas que retomava quando o cliente tornava a aparecer, na sua cabeça existiam centenas de gavetas que abria e fechava como se fosse um jogador de xadrez num torneio de simultâneas.
“Davide Pinto era chefe de sala do Café de São Bento, restaurante/bar em frente do Parlamento. Das poucas vezes em que lá fui chamava-o de guardião do bife e do maldito Abade de Priscos que me obrigava ao pecado da gula.” FOTO: Direitos reservados
Morreu o chefe que guardava uma parte dos segredos do país. E o segredo do melhor bife de Lisboa e das conversas pelo princípio da madrugada. Já não existem muitos como ele, até os bares e a noite estão em obras ou então fui eu que envelheci sem perceber que há outros lugares onde podemos confiar em alguém que nos serve um whisky de malte num copo baixo, sem gelo.
Davide partiu para um outro bar que um dia, quando me aborrecer, descobrirei. Há momentos em que devemos deixar a noite entrar. Abrir a janela de par em par e abraçar todas as sombras e estrelas. E há outros momentos em que devemos fazer o contrário. Fechar todas as janelas e impedir que a penumbra entre no que nos resta. Hoje estou assim.
Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
15.05.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
O El Niño está a emergir no Oceano Pacífico mais rapidamente do que o previsto e estão a aumentar as probabilidades de poder tornar-se historicamente forte – num raro “Super” El Niño – no outono ou inverno.
Isto de acordo com uma actualização recentemente divulgada pelo Climate Prediction Center da NOAA, que indica que há uma probabilidade de dois em três de que a intensidade máxima do El Niño seja forte ou muito forte.
O El Niño é um ciclo climático natural que ocorre quando o Oceano Pacífico tropical aquece o suficiente para provocar alterações nos padrões de vento na atmosfera, o que tem um efeito em cadeia nas condições meteorológicas em todo o mundo.
Secas e ondas de calor podem intensificar-se em algumas regiões, aumentando o risco de incêndios florestais e problemas no abastecimento de água, enquanto outras são atingidas por chuvas intensas e inundações. Os efeitos abrangentes do El Niño também podem afectar a temporada de furacões no Atlântico. A uma escala maior, faz com que as já crescentes temperaturas globais resultantes das alterações climáticas provocadas pelo homem subam ainda mais. El Niños mais fortes tornam todos estes impactos mais prováveis.
Probabilidades de Super El Niño aumentam
O El Niño ocorre aproximadamente de dois em dois a sete em sete anos e dura entre nove e 12 meses. A sua intensidade é medida pela forma como as temperaturas da água sobem acima da média numa zona do Oceano Pacífico equatorial, atingindo normalmente o pico no inverno do Hemisfério Norte.
Condições fracas de El Niño desenvolvem-se quando a temperatura ultrapassa os 0,5 graus Celsius acima da média durante um período prolongado. As temperaturas da água têm de estar mais de 2 graus acima da média para ser considerado um El Niño muito forte ou Super El Niño.
O rectângulo indica a área do Oceano Pacífico onde as temperaturas da superfície do mar estão a ser monitorizadas para a formação do El Niño. CNN Weather
A temperatura média da água está actualmente ligeiramente abaixo do limite dos 0,5 graus, mas prevê-se que suba acima desse valor já no próximo mês, segundo a actualização mensal do Climate Prediction Center. Trata-se de uma mudança significativa em relação à actualização do mês passado, que apontava para condições neutras — nem El Niño nem La Niña — até Junho.
O próximo fim de semana vai ser marcado por uma melhoria do estado do tempo em grande parte de Portugal continental, com céu pouco nublado e temperaturas máximas a subir, sobretudo no interior, como referem as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Ainda assim, o vento vai fazer-se sentir com intensidade em várias regiões, especialmente no litoral e nas terras altas. Já no domingo, regressa alguma nebulosidade e há possibilidade de aguaceiros no Norte e Centro durante a manhã.
O IPMA prevê um sábado marcado por céu pouco nublado ou limpo em praticamente todo o território continental. Durante a tarde, poderá haver aumento temporário de nebulosidade nas regiões Norte e Centro. O vento sopra de noroeste, fraco a moderado na maioria das regiões, mas poderá ser moderado a forte no litoral oeste e nas terras altas, com rajadas mais intensas junto à costa.
Destaques para sábado
Céu geralmente limpo
Subida das temperaturas máximas
Descida ligeira das mínimas
Vento forte no litoral oeste e zonas altas
Algarve com vento de oeste durante a tarde
Na Grande Lisboa, o céu estará pouco nublado e o vento norte poderá atingir rajadas até 60 km/h, sobretudo junto ao Cabo Raso. Já no Grande Porto, espera-se céu pouco nublado, embora com aumento de nuvens durante a tarde e vento moderado a forte de noroeste.
Domingo: nuvens e possibilidade de aguaceiros
O domingo traz mudanças no estado do tempo, sobretudo durante a manhã. O IPMA prevê períodos de céu muito nublado, com possibilidade de aguaceiros mais prováveis nas regiões Norte e Centro até ao início da tarde.Ao longo do dia, a nebulosidade deverá diminuir gradualmente.
O que esperar no domingo
Céu muito nublado durante a manhã
Possibilidade de aguaceiros no Norte e Centro
Abertas a partir da tarde
Neblina ou nevoeiro matinal em algumas regiões
Pequena subida das temperaturas mínimas no Norte e Centro
Avisos meteorológicos
Para já, o IPMA não prevê avisos meteorológicos significativos para Portugal continental nem para os arquipélagos.
Quando o Air Force One aterra em Beijing, Donald Trump imagina que uma curta visita de dois dias à China será consagrada pelo eleitorado americano como vitória pessoal. Mas a realidade que importa é outra. Por baixo dos apertos de mão e das fotografias protocolares com Xi Jinping, desenha-se a versão contemporânea do Dilema de Tucídides: o choque entre duas super-potências — uma estabelecida, que tenta preservar a sua hegemonia (os EUA), e outra, emergente, em rápida ascensão (a China).
Para Trump, o propósito desta cimeira não é redesenhar a arquitectura de segurança do século XXI, nem falar de paz, harmonia ou desafios globais — temas que raramente entram na sua agenda. O que procura é um espectáculo táctico. Curto e vendável como uma vitória, antes das eleições intercalares de Novembro.
O presidente americano procura regressar com resultados fáceis de comunicar: sinais de desanuviamento comercial (compromissos de compras adicionais em setores relevantes para o eleitorado MAGA) e, idealmente, algum gesto que reduza o risco de disrupção no Estreito de Ormuz. A gestão da imagem é parte integrante da sua estratégia. O espaço mediático norte-americano tem-se tornado mais assimétrico: segmentos influentes amplificam narrativas partidárias, moldadas por incentivos comerciais e pela polarização à volta de Trump.
O problema desta abordagem transaccional é que expõe a verdadeira fraqueza americana: a obsessão pelo curto prazo corrói a confiança e afasta os aliados. Taipei observa, inquieta, a hipótese de a sua segurança ser convertida em moeda de troca. Na Europa, a visita é interpretada como um indicador de volatilidade na orientação estratégica de Washington. Isso tende a reforçar os debates sobre a autonomia de defesa, a resiliência económica e a política tecnológica.
Do outro lado da mesa, Xi Jinping move as peças do seu xadrez sem pressas e sem as amarras dos calendários eleitorais. O interesse imediato de Beijing é simples: gerir a imprevisibilidade de Trump, recorrer à diplomacia pessoal para obter concessões retóricas sobre Taiwan e, sobretudo, comprar tempo. A liderança chinesa parte do pressuposto de que a tendência de longo prazo — em capacidade industrial, tecnológica, semicondutores, Inteligência Artificial e em influência externa — lhe é favorável, e por isso privilegia estratégias de desgaste e de alongamento do horizonte decisório.
À primeira vista, a China parece munida de trunfos difíceis de contrariar. Um sistema político centralizado permite-lhe definir prioridades e mobilizar recursos com um horizonte plurianual — como nos Planos Quinquenais — e reduzir os custos de coordenação em sectores estratégicos. A aproximação a Moscovo, descrita por ambos como parceria “sem limites”, dá a Beijing margens adicionais em matéria de energia, de diplomacia, de rotas comerciais e de segurança, embora a exponha a riscos reputacionais e a sanções secundárias. No plano externo, a China procura consolidar a sua influência e poder junto dos países do Sul Global através do financiamento de infra-estruturas e de cadeias logísticas (Nova Rota da Seda) e de fóruns como os BRICS, em expansão.
Mas esta aparência de invencibilidade esconde fragilidades capazes de alterar o curso dos acontecimentos. O que Beijing projecta para o exterior como “coesão e estabilidade” é, as mais das vezes, uma paz interna imposta pela força e por um aparelho de vigilância e repressão. A China está longe de ser um monólito: é um mosaico de 1,41 mil milhões de pessoas, 56 grupos étnicos, centenas de línguas e dezenas de milhões de cidadãos pertencentes a minorias. Em regiões vitais como Xinjiang (mais de 26 milhões de habitantes) e o Tibete (cerca de 3,6 milhões), a assimilação forçada substitui a autonomia política — e as tensões não desaparecem; acumulam-se.
A verdadeira ameaça ao regime dominado pelo Partido Comunista pode não vir das periferias, mas do centro: das expectativas crescentes da maioria Han nas megacidades; dos jovens frustrados, altamente educados, mas a lutar numa sociedade cada vez mais competitiva; e da assimetria persistente entre as cidades costeiras hipertecnológicas — como Shanghai e Shenzhen — e o interior rural profundamente tradicional que vive no limiar da subsistência.
Em sistemas com mecanismos de responsabilização e mediação — imprensa relativamente livre, associações cívicas, manifestações nas praças públicas, tribunais independentes e eleições competitivas — a contestação tende a ser canalizada e absorvida por vias institucionais, reduzindo a probabilidade de rupturas abruptas. Num regime autocrático, onde a expressão pública é mais limitada e a correcção das políticas depende sobretudo de quem dirige o Partido-Estado, os erros podem acumular-se durante mais tempo e tornar-se mais difíceis de reverter. Quando choques económicos, demográficos ou de legitimidade convergem, a gestão dos conflitos sociais torna-se mais exigente e o custo de manter a estabilidade aumenta.
Em termos estratégicos, tanto a China como os Estados Unidos têm incentivos para um entendimento mínimo que reduza potenciais conflitos: gerir crises antes de escalarem, evitar incidentes militares no mar e no ar e estabilizar as expectativas na competição tecnológica, digital e comercial. São esses os temas que Trump e Xi deveriam discutir — não como gestos de boa vontade, mas para construir uma arquitetura de contenção mútua. Um arranjo deste tipo não apaga a rivalidade. É, todavia, a única forma de evitar que um erro de cálculo deite tudo a perder. O Dilema de Tucídides poderia então passar definitivamente à História.
Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
15.05.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Dentro de cerca de um mês quem residir no Porto vai poder viajar gratuitamente nos transportes públicos que servem a área metropolitana. A medida aprovada recentemente pela autarquia deverá entrar em vigor a 1 de Julho e será destinada aos portadores do Cartão Porto, documento que já garante descontos em teatros, museus, piscinas e bibliotecas da cidade.
Além da parte política – foi uma das bandeiras da campanha eleitoral do actual presidente da câmara, Pedro Duarte –, a medida tem objectivos maiores: retirar carros da cidade e promover melhorias ambientais numa altura em que as alterações climáticas estão cada vez mais presentes e se assiste a uma tentativa de diminuir o consumo de combustíveis fósseis.
A decisão portuense não é inédita em Portugal existindo diversas ofertas de gratuitidade nos transportes públicos desde a isenção de pagamento para maiores de 65 anos (por exemplo em Lisboa) até ao projecto MobiCascais, em que os residentes não pagam para viajar nos transportes rodoviários. Braga, Aveiro, Guimarães e Castelo Branco são outros exemplos de medidas que visam incentivar o uso de transportes públicos.
E na Europa há vários casos, com o Luxemburgo a liderar ao ter sido o primeiro país do mundo a tornar a mobilidade gratuita – desde 2020 que não se paga para viajar de transportes públicos. Mas, há outros exemplos como Malta, Talin (Estónia), Montpellier e Dunquerque (ambos em França) com modelos diferentes.
Tudo em nome do ambiente, de uma melhor mobilidade e apoio à descarbonização.
Mas, há sempre um mas, à parte o elogio pela decisão, os responsáveis portuenses devem estar atentos a factores que podem tornar esta gratuitidade apenas numa bandeira para a imagem da cidade, excepto a poupança que os residentes vão passar a usufruir.
Para ser um sucesso completo é necessário que a mobilidade desses transportes seja a correcta e não com atrasos, e que exista mesmo uma redução de carros a circular/entrar na cidade. É que só com horários e frequências correspondentes às necessidades dos passageiros se consegue convencer alguém a usar um autocarro, um comboio ou o metro, não com passagens de 20 a 30 minutos entre carreiras, ou mesmo com a sua supressão.
Mas vamos esperar para fazer esse balanço e desejar que o Porto seja um bom anfitrião. O que, por vezes em Lisboa não acontece, por exemplo, devido aos atrasos nos autocarros que têm de circular em ruas cheias de carros pois os automobilistas privilegiam o transporte individual pelo conforto e para evitar tempos de espera longos.
Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
14.05.2026
Visita:
- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).