392: Quero saber quem financia a política, e tu?

1
0

 

🇵🇹 OPINIÃO

EU também quero…

Há decisões que não fazem barulho imediato, mas que deixam um eco prolongado na qualidade da democracia. Recusar a partilha de informação sobre o financiamento dos partidos é uma delas. Não é um tema mobilizador à superfície, porém, diria eu, toca no nervo central da confiança política.

Para os partidos, as vantagens são evidentes. Menos escrutínio significa maior margem de manobra, já que permite gerir apoios, donativos e relações com financiadores com menor exposição pública, reduzindo o risco de desgaste mediático e de leituras simplistas ou instrumentalizadas. Num sistema político pressionado por ciclos noticiosos rápidos, a opacidade pode parecer uma forma de protecção e, acrescenta-se, também evita que cada contribuição seja imediatamente convertida em suspeita, num ambiente em que a desconfiança se instala com facilidade.

Mas aquilo que protege a curto prazo fragiliza a longo prazo: a democracia vive de confiança, e a confiança exige transparência. Quando os cidadãos não conseguem perceber quem financia quem, abrem-se espaços para a suspeita, para a ideia de que existem interesses ocultos a condicionar decisões públicas. Mesmo que não existam, a simples possibilidade mina a credibilidade do sistema. E uma democracia sem credibilidade entra num terreno perigoso, no qual o populismo encontra alimento fácil.

Existem boas-práticas internacionais que apontam noutro sentido, veja-se o que fazem tantos outros países por esse mundo fora. Existem opções claras de transparência activa com a divulgação acessível e compreensível das fontes de financiamento. Mais: existe a prática de realizar auditorias independentes e regulares. E ainda uma definição rigorosa de limites para donativos individuais e empresariais. E, sobretudo, existe uma cultura de prestação de contas que não é tão somente formal, é assumida como parte integrante da ética política.

A política exige responsabilidade acrescida, porque lida com o interesse público e, por isso, os códigos de conduta devem ser claros, os mecanismos de fiscalização eficazes e deverá existir comunicação frontal sobre financiamento. Nada disto é acessório, são condições mínimas de legitimidade. Digo eu e não creio que esteja sozinha.

Diário de Notícias
Patrícia Reis
Jornalista e escritora
30.04.2026

Visita: free web counter

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

Loading

391: Influenciadores

1
0

 

🇵🇹 OPINIÃO

As redes sociais, com o seu gosto pela boçalidade e o insulto, nivelaram o discurso por baixo, convertendo todas as pessoas, por mais tolas, imbecis ou ignorantes que sejam, em potenciais influenciadores, capazes de condicionar as acções de um cada vez maior número de “seguidores”, tão tolos, imbecis ou ignorantes como eles.

Influenciar é um comportamento tão comum como a natureza humana. A larga maioria dos seres humanos já influenciou, ou tentou influenciar, outros seres humanos.

Os pais influenciam os filhos. Os irmãos mais velhos influenciam os mais novos. Os professores influenciam os seus alunos. Os artistas mais conceituados e respeitados – pintores, escultores, arquitectos, compositores, actores, cantores – influenciam os que se iniciam nas respectivas actividades.

Há mesmo profissionais que desenvolvem a sua actividade no domínio específico da influência: vendedores, especialistas em marketing, políticos, críticos literários, musicais, teatrais, cinematográficos, lobbyists.

Neste contexto, foi-me difícil compreender o que haveria de especial na palavra “influenciador”. Consultado o dicionário – no caso, da Porto Editora –, além da definição óbvia de influenciador como aquele que influencia, surge o influenciador digital: “Pessoa que, por reunir um grupo significativo de seguidores em redes sociais ou plataformas de comunicação online, tem a capacidade de gerar interesse em determinada marca, serviço, produto ou causa, através das referências ou das recomendações que faz nesses meios.”

Nesta longa definição, sobressaem dois aspectos: a natureza predominantemente comercial da influência (as causas aparecem em último lugar) e a existência de seguidores nas redes sociais. O influenciador digital corresponde ao influencer da língua inglesa – ou corresponderia, se a palavra existisse, o que é tudo menos certo. O conceituado dicionário Merriam-Webster, por exemplo, ignora o termo, limitando-se a referir a palavra influence e alguns seus derivados, como influenced.

O que há de peculiar no uso actual (com não mais de meia dúzia de anos) dos termos influencer ou “influenciador” é que aqueles que assumem, ou pretendem, sê-lo o consideram uma profissão. Ora, se tivermos presente a definição do dicionário português, tal profissão consistiria em ganhar a vida através da influência exercida, em regra com finalidades comerciais, sobre outras pessoas, através das redes sociais.

Na verdade, como vimos, essa actividade, na sua essência, existe há muito. Sucede que esses “influenciadores” avant la lettre, exerciam a sua influência porque lhes era reconhecida especial qualificação, conhecimentos ou reputação, que tornavam a sua influência – veiculada, em regra, por órgãos da comunicação social – respeitada.

É aqui que entra a segunda parte da definição – as redes sociais.

As redes sociais, com o seu gosto pela boçalidade e o insulto, nivelaram o discurso por baixo, convertendo todas as pessoas, por mais tolas, imbecis ou ignorantes que sejam, em potenciais influenciadores, capazes de condicionar as acções de um cada vez maior número de “seguidores”, tão tolos, imbecis ou ignorantes como eles.

Num mundo de crescente mediocridade, poderíamos mesmo formular uma nova Lei de Murphy: por mais idiota que seja um influenciador, o número dos seus seguidores tende a aumentar.

Diário de Notícias
João Caupers
Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do ‘Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça’
30.04.2026

Visita: free web counter

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

Loading

390: O ministério onde não se lê jornais ou vê televisão

1
0

 

OPINIÃO

Três mortes. Este é um número que deveria ser repetido várias vezes durante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) sobre o impacto da greve às horas extraordinárias dos técnicos de emergência pré-hospitalar que teve lugar entre 30 de Outubro e 4 de Novembro de 2024. Pois estas foram as mortes associadas pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde à paralisação das 12 ocorridas naquele período e que levantaram suspeitas sobre o socorro.

Aquelas mortes, bastava uma, deviam ser o suficiente para os responsáveis do Ministério da Saúde mostrarem respeito pelas vítimas e não procurarem usar a burocracia (para não lhe chamar pior) para não assumirem responsabilidades políticas.

Resumidamente a questão é esta: a ministra da Saúde e a antiga secretária de Estado da Gestão da Saúde disseram, desde o primeiro momento, que não tinham recebido o pré-aviso de greve dos técnicos.

E a verdade é que andamos nisto há um ano e cinco meses: ninguém é responsável pela falta de meios do INEM nesses dias.

A piorar a situação, sabemos desde essa altura que no Ministério da Saúde ninguém ouve notícias, lê jornais e vê televisão: chegámos a ouvir que não sabiam de uma greve que foi largamente noticiada. Aliás, acho que no país toda a gente sabia da mesmo, excepto quem trabalha no edifício da Avenida João Crisóstomo, onde funcionam o gabinete da ministra e as secretarias de Estado.

Mas a Lei de Murphy é para levar a sério neste ministério. Se já era difícil entender como é que quem tem responsabilidades governativas, e quem faz a sua assessoria, diz não saber de uma greve bastante anunciada, o que pensar do facto de um e-mail ser enviado para um gabinete, depois reencaminhado para o endereço errado e nenhuma das pessoas que o leu ser capaz de avisar que existia um aviso de greve? Não trabalham em equipa? Nem no mesmo local?

E depois as desculpas: primeiro ninguém tinha conhecimento do pré-aviso e, agora, afinal foi um erro no processamento da informação. Então se foi um erro qual a razão para o tentar “esconder”?

Infelizmente, enquanto assistimos a esta triste novela, não há um assumir de responsabilidades. Lembrem-se: morreram 12 pessoas naquele período e três ficaram associadas à falta de resposta do INEM.

Diário de Notícias
Carlos Ferro
Editor-executivo do Diário de Notícias
30.04.2026

Visita: free web counter

- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

Loading