244: Que imagem vai projectar a Europa na Conferência de Munique?

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🇵🇹 OPINIÃO

A minha crónica de 30 de Janeiro sublinhou a importância da conferência de Munique deste ano, olhando à nova realidade da segurança internacional, decorridos que estão 12 meses da Administração Trump. A mensagem principal do meu texto era suficientemente clara: o direito internacional deve dizer não à força bruta!

Agora, com a conferência a começar hoje e a decorrer até domingo, penso ser importante reflectir sobre a segurança numa perspectiva europeia. Em Munique, a Europa tem de saber demonstrar que está realmente disposta a resolver e a ultrapassar com feitos concretos a sua fragilidade geopolítica.

Este primeiro ano da Presidência de Donald Trump veio confirmar o que a invasão ilegal, injustificada e em larga escala da Ucrânia em 2022 já havia revelado: a Europa é economicamente poderosa, cultural e normativamente influente, mas estrategicamente fraca. Em matéria de segurança, tem dependido fundamentalmente dos EUA e da sua visão do mundo. Com a chegada de Trump ao poder, a vulnerabilidade e a dependência da Europa, em termos de Defesa, em relação a Washington, tornaram-se mais evidentes.

Neste contexto, a presença de Marco Rubio em Munique, à cabeça de uma enorme e influente delegação americana, ganha um significado particular. Na conferência de 2025, o vice-presidente americano JD Vance ficou para a pequena história ao dizer, entre outras afirmações que nos chocaram, que o compromisso americano com a segurança europeia deixara de ser incondicional. Uma vez isso dito, a posição de Washington já não precisará agora de ser tão perturbante. Rubio representa uma América menos boçal, que não hostiliza dessa forma a Europa. Apenas a considera como um actor geopolítico fragmentado, desorientado, com pouco peso, praticamente insignificante.

O seu discurso não andará muito longe dos seguintes pontos: a responsabilidade da segurança da Europa é, acima de tudo, uma incumbência europeia; os governos europeus devem investir mais em Defesa, tal como se comprometeram na Cimeira da NATO, em Junho de 2025; os americanos querem que haja mais clareza estratégica do lado europeu, o que no entendimento dos EUA significaria um alinhamento sem hesitações com as políticas definidas por Washington e um engajamento efectivo na iniciativa de Trump no inefável Conselho de Paz. Rubio não se esquecerá de mencionar que a Aliança Atlântica continuará a existir, enquanto a sua liderança for, no essencial, ditada pelos interesses dos EUA.

Irá igualmente explicar o pretenso plano de paz, de inspiração russa, que o presidente americano quer impor à Ucrânia, incluindo o projecto irrealista de realização de eleições presidenciais num país a sofrer uma guerra de agressão dia e noite, e ao som dos tambores e dos mísseis russos.

Na verdade, não creio que Rubio trará de oeste nada de novo. As intervenções dos dirigentes europeus, essas sim, terão de ser escutadas atentamente.

Aí, vejo de forma cada vez mais nítida, discordâncias significativas, em particular entre a França e a Alemanha – divergências que se reflectem nas visões contrastantes entre Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen.

Macron insiste, há anos, na necessidade de uma Europa estrategicamente autónoma, capaz de organizar a sua segurança tendo em conta as ameaças prováveis. Essa posição ficou de novo reflectida na entrevista que deu esta semana ao jornal Le Monde e a outros grandes jornais europeus. Não diminui a NATO, mas insiste no equilíbrio entre os interesses estratégicos das duas margens do Atlântico. Para Macron, a continuação da dependência em relação a Washington é uma forma disfarçada, mas real, de subordinação.

Contrariamente ao que outros pensam, acredito que essa tomada de posição de Macron não visa marcar terreno para vir a substituir António Costa como presidente do Conselho Europeu em Junho de 2027. Nessa área, Macron parece não ter grandes hipóteses.

Von der Leyen segue uma abordagem mais institucional e profundamente moldada pelas opções estratégicas alemãs. A sua liderança, mais próxima de Friedrich Merz, tem sido eficaz na obtenção de compromissos no domínio das indústrias de Defesa e no apoio à Ucrânia. Mas a presidente da Comissão Europeia permanece convencida da necessidade da nossa complementaridade com os Estados Unidos.

Para Von der Leyen, a autonomia europeia surge mais como reforço do pilar europeu da NATO do que como um projecto político paralelo, com laivos de independência. É uma decisão inspirada na tradição alemã das últimas décadas.

Macron pensa em Charles de Gaulle e reflecte uma Europa que deixou de acreditar no respaldo americano. Aposta na unidade entre as principais potências europeias. Já Von der Leyen teme as fracturas que possam surgir em situações de crise. Considera indispensável que haja um ponto de ancoragem exterior às rivalidades europeias. Na realidade, isso poderá significar que reconhece a fragilidade do projeto europeu.

Temo que a Conferência de Munique mostre essas discrepâncias e transmita à delegação chefiada por Rubio uma imagem de fraqueza. E a convicção de que quem manda, de facto, na segurança europeia estaria afinal na Casa Branca. Tal seria trágico para o nosso projecto comunitário.

Perante Rubio, e por seu intermédio, Donald Trump, a Europa não pode limitar-se a prometer mais despesas. Tem de demonstrar unidade, capacidade de decisão e força moral num novo velho mundo, agora dominado por potências que deixaram outra vez de dar valor à ética política e ao direito internacional.

Conselheiro em Segurança Internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
13.02.2026

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238: Civilização ou barbárie

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🇵🇹 OPINIÃO

Numa série de interessantes artigos no Público, António Guerreiro procura pensar o processo social e político que vivemos neste momento, opondo ao conceito de “regressão” (voltar a um paraíso mítico de três Salazares, regra nos espíritos e ordem nos costumes), uma mais ampla ideia de “processo descivilizatório”, isto é, inversamente ao “processo civilizatório” que Norbert Elias descreve, um combate furioso a todas as aquisições de tolerância e liberdade que a evolução e abertura da moralidade pública têm tornado possíveis.

Nós temos hoje uma amostra ao vivo, qual montra publicitária, do destino desse processo de desconstrução das regras políticas democráticas e das conquistas na aceitação social em relação às minorias: os Estados Unidos de Donald Trump, onde se aliam as pulsões racistas e homofóbicas com o projecto de desmantelar a democracia dos Pais Fundadores, rumo a um sistema autocrático, com votações controladas de cima e concentração de poderes num líder sacralizado.

Se esta tendência revela a sua força nos próprios países fundadores da Democracia (França, Estados Unidos, Reino Unido), mais ainda se exprime em todos os países que se habituaram, durante toda a sua História, a regimes autocráticos.

Nesse sentido, a votação num candidato de união dos democratas, de esquerda e de direita, como foi a de António José Seguro, representa uma posição maioritária dos portugueses na rejeição desse processo anti-civilizatório e desse suicídio assistido das liberdades públicas.

Os três Salazares não movem mais os portugueses, por vaga que seja já para tantos a memória desses tempos do “viver habitualmente”, sob a protecção da polícia, das prisões e da censura. Dissemos com firmeza não aos três Salazares e reivindicámos, para além de todas as nossas diferenças e todas as nossas desilusões, a luta contra essa “política do pior” que se vai expandindo pelo mundo.

A grande lição que aprendemos é que nada fica definitivamente enterrado no caixote do lixo da História. O fascismo (pondo de lado as diferenciações académicas) está de regresso, como a esquerda norte americana entendeu já. E ao lado de nós temos uma Espanha, onde o PP não hesita em aliar-se ao Vox, uma França onde Le Pen e Bardella se tornaram favoritos, depois da empresa falhada, conduzida por Macron, de tentar destruir as diferenças políticas em democracia, uma Itália governada por um fascismo que recusa dizer o seu nome, uma Alemanha onde o AfD… etc., etc.

É claro que passámos a um regime de luta pela democracia e pela própria civilização, que virá tornar o debate político essencial (socialismo democrático ou liberalismo?) secundário relativamente a este combate pelas próprias condições de existência de uma sociedade aberta, multicultural e tolerante e de um Estado democrático e social. A base consensual do funcionamento de uma sociedade decente.

Não se tornou obsoleta a distinção entre esquerda e direita e aquilo a que chamamos centro designa apenas os moderados de um e do outro lado, que não querem perder o solo comum das garantias democráticas, para prosseguirem em paz e liberdade os seus combates.

Em tempos idos chamava-se “unidade antifascista”. Não será hoje o mesmo inimigo, com outras roupagens, discursos e tecnologias?

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
12.02.2026

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237: Figura do Dia. A pobre ministra não foi salva por um príncipe

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🇵🇹 OPINIÃO

O espanto deu lugar à impiedade e esta foi dizimada pela indiferença. Já não faz sentido escrever que a ministra da Administração Interna foi incapaz de desempenhar o seu cargo ou mostrarmos surpresa pelo seu pedido de demissão. Na verdade, a ministra já não o era. Foi retirada de cena e fechada numa masmorra de onde não foi salva por príncipes ou dragões. Só a deixaram sair para que fosse ela a colocar o parágrafo, mas a questão foi sempre outra.

Maria Lúcia Amaral é uma distinta professora catedrática de Direito, desempenhou as funções de juíza e vice-presidente do Tribunal Constitucional e fez um brilharete na Provedoria da Justiça. A maioria dos comentadores elogiou a capacidade de Montenegro para convencer uma das melhores portuguesas, esquecendo o pormenor de que muitas das estrelas da sociedade civil foram um desastre quando tiveram responsabilidades governativas.

Maria Lúcia Amaral, ex-ministra da Administração Interna.
Global Imagens

Governar não é o mesmo que liderar um instituto, uma empresa ou ser presidente de um banco. Depende sempre das qualidades de quem se convida. Não quero criticar a pobre ex-ministra, faço-lhe apenas um reparo. Na vida, não podemos perder a noção do que sabemos fazer e do que não conseguimos.

A ex-governante não respeitou esse princípio, o que revelou um lamentável défice de auto-conhecimento – como é que alguém que se revelou tão ridiculamente frágil, aceitou ser ministra e logo na pasta da Administração Interna? Não conhecia as suas limitações?

A senhora professora deveria ter sido a primeira a dizer a Luís Montenegro que não era a pessoa certa. Ter-se-ia poupado e teria poupado o país a um espectáculo de nonsense.

Diário de Notícias
Luís Osório
11.02.2026

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232: A linha vermelha resiste

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🇵🇹 OPINIÃO

Ao contrário do primeiro-ministro, que deitou ao lixo o “não é não” e até equiparou Seguro a Ventura, a esmagadora maioria dos eleitores mostrou que sabe ver a diferença, erguendo bem alto a linha vermelha.

“A maior parte do eleitorado da AD e da Iniciativa Liberal votou em António José Seguro”.

A frase é do centrista Diogo Feio, proferida esta segunda-feira na SIC-N, em comentário ao resultado da segunda volta das presidenciais. Por mais que possa custar aos líderes do PSD, do CDS-PP e da IL, o que diz não é passível de contestação: para obter uma percentagem de quase 67%, o eleito precisou de grande parte dos votos do centro-direita e até da direita.

Isso mesmo demonstra, além da mera aritmética, a análise provisória publicada pelo politólogo Pedro Magalhães no Twitter/X: 77% dos que votaram Marques Mendes na primeira volta puseram a cruz em Seguro na segunda; o mesmo é verdade para 58% dos que tinham querido ver o candidato da Iniciativa Liberal em Belém e 58% dos que não tinham comparecido na primeira volta.

Também 68% dos que dizem ter votado AD nas últimas legislativas, assim como 80% dos que votaram noutros partidos que não o PS e o Chega e — o que é digno de nota — 59% dos que se haviam abstido nessa ocasião, escolheram na segunda volta o ex-secretário-geral do Partido Socialista.

Ou seja, uma larguíssima maioria deixou claro que, para evitar a vitória do candidato da extrema-direita, não se importam de votar em alguém que é de uma área política com a qual em geral (ou pelo menos nos últimos tempos, convindo lembrar que há escassos quatro anos, em 2022, o PS teve maioria absoluta) não se identificam ou até contra a qual — caso dos eleitores associados ao candidato da IL, partido que fala de “socialismo” como se fosse uma doença pior que a lepra — se definem politicamente.

E esta maioria dos eleitores do centro-direita e da direita “liberal” (com aspas, sim) fê-lo a despeito dos sinais que lhes foram transmitidos pelo líder do PSD e da coligação governamental e pelas figuras gradas do actual CDS-PP, assim como pelo detentor do poder real na IL (graças aos 900 mil votos que amealhou na primeira volta), João Cotrim Figueiredo.

Montenegro, recordemos, afirmou que “o espaço político do PSD” não estava representado na segunda volta, pelo que não ia tomar posição entre dois candidatos — os quais, a despeito de ter sido variadíssimas vezes insultado e até caluniado por Ventura (lembremos que este o colocou num cartaz ao lado de José Sócrates, que está em julgamento por vários crimes, como representante de “50 anos de corrupção” e apelidou o PSD por ele dirigido de “prostituta política”), referiu, sem efectuar qualquer distinção qualitativa, como “o candidato que representa o espaço político à esquerda do PSD” e “o candidato que representa o espaço político à direita do PSD”. Por outras palavras, o primeiro-ministro fez saber que tanto se lhe dava que ganhasse Ventura, que lhe chama de tudo, ou Seguro, e que se calhar até ia fazer desenhos no boletim.

Já o deputado do CDS-PP Paulo Núncio, numa performance digna do presidente da bancada do Chega (ou do próprio Ventura), berrou no parlamento contra quem (caso dos signatários do Manifesto de não-socialistas por Seguro) apresentava a segunda volta das presidenciais como uma escolha entre valores democráticos e o seu contrário, mostrando para onde aponta o seu coração: “Era só mais o que faltava que o único voto legítimo e democrático fosse o voto no candidato do Partido Socialista.”

Cotrim Figueiredo foi um pouco mais sonso; ao contrário de Marques Mendes e Gouveia e Melo, evitou sempre dizer que ia votar em Seguro (só que não votava Ventura), acabando por afirmar, a uma semana do ato eleitoral, que a escolha era “entre andar para trás e ficar parado, que é uma coisa horrível” e que percebia muito bem quem ia votar em branco ou abster-se”, mas que pessoalmente preferia “estar parado a andar para trás”.

Esta atitude tão blasé face ao que estava em causa — para Cotrim “andar para trás” não é nada que lhe mereça uma rejeição empolgada — não contagiou, felizmente, a maior parte dos seus eleitores (ainda que 29%, como se constata na análise publicada por Pedro Magalhães, tenham achado que andar para trás é melhor, votando em Ventura, e 12% que tanto fazia, votando branco ou nulo).

Podemos, claro, considerar que a maioria dos eleitores de Marques Mendes/AD e de Cotrim/IL votaram Seguro não para — como defendia o citado Manifesto dos não-socialistas por Seguro — preservar os princípios do regime democrático liberal e rejeitar o discurso de ódio, divisionista, populista, racista e calunioso, do Chega, mas por motivos tácticos: se a escolha era entre dar força a alguém que assume querer ser o líder da direita e engolir PSD e IL, e um social-democrata do PS, melhor eleger o segundo, que está muito longe de querer destruir esses dois partidos e se apresenta como um pólo de “moderação”.

Mas esse, que terá sido decerto o motivo de vários apoios declarados a Seguro — o de um posicionamento táctico — e que esperaríamos do primeiro-ministro (talvez um dia venhamos a perceber o que passou pela cabeça de Montenegro para se colocar tão voluntariamente na posição de derrotado nestas presidenciais — será só, como diria Marcelo, uma obstinação “rural”, ou é, na verdade, um radical disfarçado?), não é de todo o da maioria dos eleitores que atravessaram a fronteira da sua área política para eleger o ex-secretário-geral do PS.

A generalidade dos eleitores não se move por táctica, e muito menos quando chove a cântaros. O que fez as pessoas sair de casa para votar em Seguro, um homem que nunca suscitará paixões assolapadas e de quem muitos até há pouco tempo já nem se lembrariam, não foi o cálculo sobre o xadrez partidário mas a repugnância que sentem por André Ventura e pelo seu teatro do grotesco.

Ainda há muita gente — e assim permaneça — que preza a democracia liberal tal como a conhecemos (imperfeita, certo, mas tão generosa na sua promessa de igualdade) e para quem, ao contrário do que sucede com um troca-tintas como Luís Montenegro, não é mesmo não. Podemos discordar, e discordamos, em muita coisa, mas aqui, como em 2022 quando se prefigurou a possibilidade de uma abertura do PSD ao Chega (porque Rui Rio não afastou claramente essa hipótese), ergueu-se, alta e magnificente, uma linha vermelha. Foi mesmo bonito, Portugal.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.02.2026

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231: A figura do dia. A enorme vitória da Joana

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🇵🇹 OPINIÃO

No meu tempo de criança as vitórias políticas eram festejadas como se estivesse em causa a Liga dos Campeões. As pessoas saíam para a rua e era sempre até de madrugada. Agora nem as jornadas da bola se adiam, o Benfica joga à mesma hora em que as televisões nos oferecem projecções.

Quando terminar de escrever sairei para festejar o que nos une. As circunstâncias transformaram a vitória esmagadora do novo Presidente da República numa conquista maior do que uma simples eleição. Representou um ato de resistência e de esperança num futuro decente para os nossos filhos e netos.

É provável que daqui a bocadinho não encontre ninguém na rua para abraçar, mas sairei à mesma. Celebrarei a esperança de cada bebé por nascer, de cada parto assistido por Joana Gomes, enfermeira de Setúbal que fotografa os bebés e as suas mães numa homenagem ao milagre de estarmos aqui. Cada fotografia sua, cada gravidez desejada e cada criança que nasce, é um apelo a que sejamos o melhor que conseguirmos ser.

Um apelo e o desejo de que aquele pequeno conjunto de partículas por deslindar seja bom e respeite as diferenças do mundo. Sairei de casa e festejarei com convicção absoluta a vitória da decência. Farei isso por cada um dos meus filhos, pela Joana fotógrafa da esperança e até pelos que votaram no candidato que carrega a náusea do ressentimento.

Gostaria que, no mais fundo de si próprios, pensassem nos vossos filhos por nascer, no bom que seria se fossem pessoas que não semeassem ervas daninhas na sua alma em construção.

Diário de Notícias
Luís Osório
09.02.2026

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230: Desastres anunciados

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🇵🇹 OPINIÃO

Estivesse o TGV já em marcha e teríamos tido, por estes dias, a alta velocidade afogada em Coimbra. A zona para onde está projectada a futura estação intermodal, que se estende até à beira-rio, foi uma das afectadas pela subida do Mondego. Este “pormenor” pode parecer hoje insignificante face a tanto sofrimento e destruição provocados pelo mau tempo em tantas zonas do país, mas diz-nos muito sobre o que estamos a viver. Para lá das ondas de choque imediatas em curso, há uma questão de fundo que se impõe e que se chama ordenamento do território. O tema é lembrado sempre que acontece uma tragédia do género, sejam as cheias de inverno ou os fogos de verão, mas rapidamente esquecido de novo por quem tem a responsabilidade de zelar por ele até ao “azar natural” seguinte.

Não é por falta de avisos. Como não será também desta vez. Basta atentar ao que têm dito os diversos especialistas em ambiente, clima ou planeamento do território nos últimos dias. Aqui no DN, por exemplo, a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, titular da Cátedra da UNESCO para a Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, lembrava coisas tão elementares como esta: “Nós artificializámos as bacias hidrográficas e os rios, e acreditámos que estavam sob o nosso controlo. (…) Construímos um progresso na base da destruição permanente da natureza, sobretudo nos últimos 50 a 60 anos, e esse desligamento da natureza tem custos.”

Ou João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova FCT, especialista em Política Ambientais, também aqui no DN: “Por que razão Alcântara inunda? Porque está sobre uma ribeira. Por que razão se chama Sete Rios a Sete Rios? Porque ali confluíam sete ribeiras. (…) Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que naturalmente inundam periodicamente.” E deixou novo lembrete para memória futura: “Temos de levar a sério os planos e parar de construir onde não devemos. Quanto ao que já existe, não defendo que se deitem cidades abaixo, mas nalguns casos haverá que realojar pessoas que vivem em zonas de alto risco.”

Tudo isto é conhecido, estudado e cartografado. O que falta não é ciência, nem diagnósticos, é coerência política. E os exemplos mais recentes mostram que continuamos, apesar de tudo, a andar no sentido contrário, desde a polémica nova Lei dos Solos ao recente episódio entre o ministro da Agricultura e o Instituto de Conservação da Natureza e Floresta.

Invoca-se por vezes o exemplo dos Países Baixos, país construído em zonas inundáveis. Mas esse argumento esquece o essencial da lição: ali, tudo foi pensado em função da água, com planeamento rigoroso e investimento permanente. Não há improviso, nem atalhos. E mesmo assim, hoje, devolvem espaço aos rios.

O que convém percebermos o quanto antes é que os acontecimentos destes dias são um resultado previsível de décadas de decisões tomadas contra o conhecimento disponível. Até quando?

Editor do Diário de Notícias

Diário de Notícias
09.02.2026
Rui Frias

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217: Comandar por Zoom, Teams e WhatsApp

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🇵🇹 OPINIÃO

O escrutínio e as críticas às falhas das estruturas de alerta, de protecção civil e de apoio em caso de catástrofe – dos bombeiros à Saúde, passando pelas infra-estruturas energéticas e pelos militares – não são um exclusivo de Portugal. É assim em França, Espanha e no Reino Unido, na verdade um pouco por todos os países democráticos, em que os cidadãos, contribuintes e eleitores, podem expressar livre e publicamente as suas preocupações, desespero ou mesmo a sua raiva.

Tal como noutros momentos dramáticos no nosso país, chegará o tempo de escalpelizar a fundo o que não correu bem durante as tempestades Ingrid, Joseph , Kristin e Leonardo, que assolaram e ainda assolam Portugal desde o final de Janeiro. Serão feitos relatórios e análises técnicas, haverá ministros e comandantes operacionais a responder no Parlamento.

Não é futurologia arriscada. Foi assim, por exemplo, nos incêndios de 2017, nos quais morreram pelo menos 116 pessoas. E haverá – com toda a certeza – demissões e remodelações de estruturas inteiras. Parafraseando Giuseppe Tomasi di Lampedusa, no seu romance Il Gattopardo, por vezes “é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”.

“A ausência do país do comandante Nacional da Proteção Civil durante os piores dias das tempestades Joseph e Kristin, nos dias 26, 27 e 28 de janeiro, é grave e constitui um sintoma de males maiores.”
Gerardo Santos

As auditorias aos fogos de Pedrogão Grande apontaram uma falha grave no topo da estrutura de comando da Protecção Civil. Um dos relatórios entregues no Parlamento indica que o comandante operacional nacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil, à época Rui Esteves, deveria ter tido “uma presença activa” durante o incêndio. Que não deveria ter delegado o comando das operações no seu número dois, o tenente-coronel Albino Tavares, o homem que deu a ordem aos operadores de comunicações para não registarem mais alertas na fita do tempo do incêndio. Uma ordem que, na prática, terá impossibilitado de avaliar todas as falhas na resposta operacional.

Quase uma década depois, assistimos novamente a sinais de problemas sérios no topo das estruturas de comando da entidade encarregada de alertar e lidar com os efeitos destes fenómenos catastróficos.

A ausência do país do comandante Nacional da Protecção Civil durante os piores dias das tempestades Joseph e Kristin, nos dias 26, 27 e 28 de Janeiro, é grave e constitui um sintoma de males maiores.

Não é tanto o facto de Mário Silvestre, o homem no topo da pirâmide da coordenação, a última palavra em todas as decisões operacionais, ter sido autorizado a deslocar-se a Bruxelas para uma formação. É possível, ainda que pouco plausível, que não houvesse ainda uma ideia clara sobre os riscos da Tempestade Kristin, mas não é desculpável que Mário Silvestre não tenha regressado imediatamente quando os efeitos já eram visíveis até aos olhos destreinados do cidadão comum.

Ontem, Mário Silvestre ensaiou o discurso dos condenados: “A minha presença física nada teria mudado”, uma vez que “nada deixou de ser feito pela minha ausência”.

Das duas uma, ou Mário Silvestre considera – dez anos depois de Pedrogão – que é aceitável comandar operações em Estado de Calamidade por Zoom, Teams ou WhatsApp, ou acaba de assumir que não faz falta nenhuma nas operações.

Director-Adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Nuno Vinha
05.02.2026

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216: As pessoas estiveram lá. O Estado, nem tanto

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🇵🇹 OPINIÃO

“Não falharam as pessoas.” A frase com que a jornalista Margarida Vaqueiro Lopes terminou um artigo no início da semana deveria ter sido lida ao Presidente da República antes de Marcelo Rebelo de Sousa ter voltado aos tempos de professor universitário, e de comentador televisivo, e à análise crítica da actuação do Governo durante o período de calamidade que o país vive há uma semana devido à passagem da depressão Kristin que arrasou grande parte da zona Centro – nomeadamente a região de Leiria.

E o que se foi vendo e ouvindo ao longo destes dias dá razão à citação com que iniciei este texto. Às regiões afectadas foram chegando voluntários de diversos pontos do país que começaram a ajudar a limpar e a tentar arranjar o possível – desde retirar lixo das ruas, colocar lonas nos telhados ou acondicionar comida em sacos para serem entregues a quem viu a sua vida ser transformada em dias de sobrevivência sem luz, água e, até, estradas.

Tudo isto contrasta com o triste espectáculo a que fomos assistindo dado por quem tem a responsabilidade política de decidir e aprovar formas de apoiar e de prevenir situações como as que afectaram o país.

Além da falta de prevenção – o Instituto Português do Mar e da Atmosfera alertou com antecedência que a depressão se aproximava e que seria perigosa -, houve depois dificuldades em reagir. E quando essa reacção surgiu ainda piorou a imagem do Governo: um ministro deixou publicar um vídeo propagandístico onde aparecia ao telefone (diga-se, em abono da verdade, que assim que percebeu isso mandou retirá-lo); um outro que terá levado um grupo de militares a um determinado ponto onde fez uma acção (de campanha?) e depois, quando terminou, o cenário foi retirado – acusaram os moradores na zona e não foram desmentidos. Aliás, ouvi um desses habitantes a dizer para um canal de televisão: “Ajuda? Só se for dos passarinhos que estavam com fome.”

Acrescentemos à lista a ministra da Administração Interna que chegou a Leiria e, entre outras frases, disse: “Tudo isto é uma aprendizagem.” Quem assistiu viu a expressão do presidente da Câmara… Aliás, Maria Lúcia Amaral teve companhia do ministro da Coesão numa outra tese: o Governo desconhecia o que correu mal no atraso para a disponibilização de meios de ajuda para o terreno.

Por tudo isto as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa ontem, em Pedrogão Grande, podem ser consideradas uma avaliação negativa do Governo: “As pessoas ainda não perceberam o que aconteceu aqui, com 80% destruído”; “principalmente os que estão mais longe”; “As medidas têm de sair do papel e ser explicadas às pessoas. As pessoas comuns não as percebem. Para elas são politiquês.”

Ouviram o recado?

Editor executivo do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Carlos Ferro
05.02.2026

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214: Manifesto dos mais-ou-menos-assumidos por Ventura

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🇵🇹 OPINIÃO

Ler e ouvir quem, mais ou menos assumidamente, apela ao voto em Ventura é uma experiência fascinante. Há inclusive — juro — os que invocam como principal motivo as “convicções” do líder do Chega.

“Sei que ficamos espantados quando há gente com convicções na política”.

A frase é de Teresa Nogueira Pinto, a “ministra da Cultura sombra” do Chega — que, filha da centrista Maria José Nogueira Pinto e do hagiógrafo de Salazar Jaime Nogueira Pinto, melhor teria o cognome de enviada-especial-do-Chega-para-a-velha-direita-endinheirada — num programa da Rádio Observador, referindo André Ventura. E que convicções lobrigou na pessoa em causa esta Nogueira Pinto, nas últimas semanas em pressuroso rodopio de entrevistas e comentários no desiderato de apor a sua patine bon-chic-bon-genre ao candidato presidencial da extrema-direita? Vejamos.

Supõe-se que o encontraremos explicado num texto que publicou no Expresso intitulado “porque voto Ventura”. Nele, começa por referir “a tríade ‘Deus, Pátria, Família’” — que, como é sabido, foi usada por Salazar como esteio central do seu regime e tem sido apropriada pelo líder do Chega. Segundo Nogueira Pinto, essa tríade, que “tanto horror suscita ao progressismo dominante”, não nasceu com Salazar mas sim da pena de um italiano oitocentista democrata e revolucionário, e é “uma ideia bonita e simples”.

Conviria quiçá lembrar que o ditador português Salazar pediu emprestado o slogan ao ditador italiano Mussolini — a quem, creio, ninguém se atreverá a negar o apodo de fascista — dando-se o caso, nada secreto, de Salazar ser contemporâneo do fascismo italiano. Tentar refutar essa referência evidente — tanto mais evidente quando Ventura anda a clamar aos quatro ventos que o que faz falta são “três salazares” — faz tanto sentido como asseverar que se alguém andar aí de cabeça rapada a vender T-shirts com “O trabalho liberta” se está a referir ao bem que faz trabalhar e ao título do livro de 1873 do alemão Lorenz Diefenbach (outro oitocentista) e não aos infames letreiros dos campos de concentração nazis.

Teresa Nogueira Pinto, obviamente, sabe-o bem — o seu pequeno texto é uma espécie de prestidigitação infantil, onde semeia aquilo a que se costuma dar o nome de “apitos de cão” enquanto pretende estar a negá-los. Porque a ideia é precisamente acicatar. Quando no citado programa da Rádio Observador assevera que é preciso “debater com toda a serenidade” matérias como a imigração, logo de seguida desculpabiliza como “uso da retórica e da comunicação política” o facto de Ventura assegurar que com ele como presidente haveria pessoas que iriam presas. É, diz a militante do Chega que se apresenta como “especialista em ciência política” e “professora universitária”, não um anúncio de alteração de regime e do fim da separação de poderes que caracteriza o Estado de direito democrático, mas “uma espécie de pedra que se manda para o charco de águas paradas, e funciona, porque ficámos a falar dos três salazares.”

Desde que funcione, tudo bem, então — supõe-se que Nogueira Pinto, que parece considerar muito a religião e a fé, também não achará mal que Ventura se tenha anunciado escolhido pelo seu deus para salvar Portugal (afirmação que deu origem a uma das melhores perguntas alguma vez feitas numa entrevista — aquela que Miguel Pinheiro, o director do Observador, colocou ao líder do Chega sobre tal revelação: “Quando é que isso aconteceu?”).

Talvez seja essa uma das “convicções” que a ministra-sombra vê no presidente do seu partido: a de ter sido ungido pelo Deus dos católicos. Certo é que no texto que escreveu sobre o seu candidato não colhemos referência às alegadas convicções que este terá, e que, segundo ela, o distinguem — só a certificação de que Ventura é “dissenso”, “divergência e alternativa” a “um consenso sufocante e despolitizado”. É, portanto, “contraditório”, ou “do contra”. Em quê? Para quê? Bom, isso agora não interessa nada.

O mesmo vale para o historiador e colunista do Observador Rui Ramos, que, num texto justamente intitulado “Ventura contra todos os outros”, garante ser esse “o único líder político em actividade que interessa aos portugueses”, mas não, ao contrário do que “os rivais crêem”, pelos seus truques de comunicação, mas pela “substância”. E a substância é? “O choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controlo da imigração.”

Passando à frente, por motivos de espaço, da afirmação de que “foi abolido qualquer controlo de imigração”, talvez seja de recordar que quando Ventura se começou a afirmar politicamente, ainda como candidato do PSD à autarquia de Loures, em 2017, a sua “causa” — Rui Ramos afirma que “é o único político activo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público” — era o ataque aos ciganos e àquilo a que dá o nome de “subsídio-dependência”.

É estranho estar a chamar a atenção de um historiador para a história, mas a tal “causa existencial” que segundo ele faz o sucesso de Ventura só surgiu no seu discurso em 2024, quando o Chega já tinha um bom número de deputados e o seu líder era há muito o político mais entrevistado pelas TV portuguesas. Pelo que, lamento, não, não é de todo verdade o que Rui Ramos diz. Se Ventura tem desde o início da sua ascensão política uma causa, é a da discriminação dos discriminados, à mistura com os “apitos de cão” que Teresa Nogueira Pinto tão diligentemente refere no texto citado.

Acresce que, nas dores de crescimento, o Chega, ou seja o seu líder (porque o Chega é o seu líder), largou o hiper-liberalismo à Milei do programa inicial (de 2019) e transformou-se num partido que defende o Estado Social, ou seja, mais dinheiro para os hospitais públicos, as escolas públicas, os funcionários públicos, mais dinheiro para os pensionistas (incluindo os que pouco ou nada contribuíram para a Segurança Social, numa curiosa contradição face à sua propalada aversão à “subsídio-dependência”) — em suma, aquilo a que os “liberais económicos”, como será o caso de Rui Ramos, execram como “socialismo”.

De resto, o Chega é sistematicamente apanhado a votar contra, a favor e a abster-se no mesmo assunto — ou seja, destituído de convicções, a não ser uma: a de que tudo, incluindo todas as piruetas, vale para chegar ao poder. Se há algo que distingue André Ventura, algo em que é realmente exímio, é em não ter qualquer outra convicção a não ser a de que tem de fazer tudo o que for preciso, por mais repugnante e por mais vil, para chegar onde quer.

Não pode haver ninguém com o mínimo de cultura política e histórica que não veja e não saiba isso — pelo que todos os que, de forma mais ou menos sonsa, tentam articular defesas intelectuais do voto em Ventura são, como ele, meros oportunistas que ou pretendem uma boleia para o que esperam seja o seu destino ou sonham poder usá-lo.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
04.02.2026

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209: A crise comunicacional

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🇵🇹 OPINIÃO

A catástrofe natural que se abateu sobre a zona centro do país expôs as fragilidades da resposta do Governo em situações de crise. Não se trata de colocar em causa a competência técnica ou a boa vontade das pessoas responsáveis, dos ministros aos secretários de Estado, dos técnicos da Protecção Civil aos militares. O problema é estrutural e, também, comunicacional. E ficou visível para todos: numa altura em que centenas de milhar de pessoas estão aflitas, sem acesso a bens essenciais e assustadas com o que poderá acontecer assim que o sol voltar a pôr-se, o Estado português não tem conseguido transmitir confiança e coordenar esforços no apoio às populações afectadas.

No terreno, tem sido evidente a desarticulação. O episódio, noticiado pelo DN, em que o Exército teve de “contornar” a Protecção Civil para poder actuar, articulando-se directamente com as autarquias, mostra como temos um sistema que privilegia a burocracia em detrimento da eficácia. Quando enfrentamos uma situação de catástrofe, não há tempo para disputas entre “quintinhas”. São necessárias rapidez e uma cadeia de comando inequívoca. O país não pode assistir, incrédulo, as Forças Armadas que se vêem obrigadas a negociar a sua presença como se fossem um actor secundário, quando deveriam estar na linha da frente desde o primeiro minuto.

Por outro lado, na comunicação política também se registaram falhas. Em primeiro lugar, o vídeo promocional protagonizado pelo ministro da Presidência, Leitão Amaro, foi um passo em falso. Para além das acusações, que lhe foram dirigidas, de aproveitamento da catástrofe, o ministro passou uma imagem de uma certa falta de empatia pelo sofrimento alheio.

Em segundo lugar, a ministra da Administração Interna revelou-se incapaz de se afirmar como líder num momento em que as pessoas da precisavam de uma figura firme e empática, que lhes transmitisse alguma serenidade.

Numa crise, o que conta é a capacidade de comunicar com eficácia, de mobilizar recursos rapidamente e de criar condições para que os problemas das pessoas sejam resolvidos com a maior celeridade. O exemplo das antenas Starlink é paradigmático. Foi um empresário privado – Marco Galinha, accionista do DN -, quem tomou a iniciativa de comprar e instalar estes equipamentos para ajudar a restabelecer comunicações nos concelhos de Pombal e Leiria. Onde estava o Estado?

A explicação reside, eventualmente, na falta de visão estratégica e na inexistência de uma cultura de proximidade. Os autarcas de Leiria e Coimbra, Gonçalo Lopes e Ana Abrunhosa, mostraram o caminho que o Governo deveria seguir. Ambos revelaram muito pragmatismo, um contacto directo com as populações e soluções rápidas.

O desafio agora é aprender com os erros, reformar os mecanismos de resposta e, sobretudo, compreender que em momentos de crise a comunicação faz parte da própria essência da liderança.

Diário de Notícias
Filipe Alves
Director do Diário de Notícias
03.02.2026

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