285: A mentira das Lajes

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🇵🇹 OPINIÃO

As relações entre Estados não se baseiam apenas na confluência de interesses, nem na dimensão ou força relativa de cada um. Que Paulo Rangel queira agradar à Administração norte-americana, ainda que Trump nem saiba onde fica Portugal, isso é lá com ele. Que o faça à custa do respeito próprio que é devido ao nosso País e enquanto chefe da diplomacia portuguesa já nos envergonha a todos.

Não é a primeira vez que o inquilino do Palácio das Necessidades tortura os factos para efeitos retóricos. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, a propósito do aumento do número de aeronaves militares estacionadas na ilha Terceira e da utilização pelos EUA da Base das Lajes para operações militares contra o Irão, afirmou aos jornalistas que “qualquer outra operação não tem de ser nem autorizada, nem conhecida, nem comunicada.”

Vamos então aos factos. O Acordo de Cooperação e Defesa, actualmente em vigor, data de 1995 e veio substituir o de 1951. O Acordo de Cooperação e Defesa integra ainda dois outros acordos (menos conhecidos, mas não menos relevantes): o Acordo Laboral, que regula as relações laborais dos portugueses ao serviço dos EUA, e o Acordo Técnico, que autoriza e regula a utilização de infra-estruturas das, e nas, Lajes pelos norte-americanos.

É este último que determina que Portugal cede aos EUA autorização para a utilização das instalações e para o trânsito de aviões militares na base e pelo espaço aéreo dos Açores e que Portugal “encarará favoravelmente” os pedidos de utilização da Base para operações militares decorrentes de decisões de organizações internacionais de que os dois países sejam membros como, por exemplo, a NATO.

Qualquer outra utilização por parte dos EUA que não se enquadre nesse tipo de operações deverá ter autorização prévia da parte portuguesa. De resto, nem se compreenderia que assim não fosse atendendo, inclusivamente, aos princípios nucleares das relações entre Estados, dos quais avultam a igualdade soberana dos Estados, a não ingerência nos assuntos internos, a proibição do uso da força, a autodeterminação dos povos, a resolução pacifica dos conflitos, entre outros.

Nestes quase 80 anos, aquela base evidenciou a sua relevância geo-estratégica com destaque, por exemplo, na Guerra do Golfo (1991), em que serviu de apoio a 12 mil operações de aviões, com 33 reabastecedores a operarem nas Lajes, um número muito superior aos 12 recentemente utilizados na operação contra o Irão e que, já agora, são muito semelhantes aos registados da II Guerra do Golfo, já em 2003.

Portanto, a ideia de que os EUA podem usar aquela base, ainda que ao abrigo do Acordo de Cooperação e Defesa, sem dar cavaco ao Estado português, confere-nos uma subalternidade e uma menorização que enfraquece a nossa posição negocial e ofende a dignidade institucional e soberana de um dos Estados mais antigos da Europa, com mais de 880 anos de História.

Por fim, o Estado Português, tão lesto em agradar e em não se dar ao respeito, tem sido praticamente inexistente na exigência que se impõe de resolver o passivo ambiental que resulta da presença norte-americana nas Lajes e ainda menos presente em potenciar a posição geo-estratégica única que os Açores nos conferem no Atlântico Norte. Isto sim, seria uma forma de valorizar o que é nosso e de reforçar a nossa posição face aos EUA.

Diário de Notícias
André Franqueira Rodrigues
Eurodeputado pelo PS e membro da Comissão de Defesa do Parlamento Europeu
27.02.2026

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282: A Figura do Dia. A eficácia dos “bacanais” de Epstein

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🇵🇹 OPINIÃO

Peter Mandelson, figura maior da diplomacia britânica, foi ontem libertado sob fiança. A teia Epstein continua a fazer vítimas, mas também a revelar o mais profundo do que, em nós, é um sórdido abismo.

Vamos sabendo das festas, dos “bacanais”, do tráfico de adolescentes, da rede de influentes e milionários, das trocas de e-mails e de favores, do que diziam uns aos outros. Não dá para tapar os olhos ou fechar os ouvidos.

As notícias oferecem-nos um retrato de uma corte onde tudo se traficava…a começar pela alma que, quando se vende, parece sempre ser uma brincadeira, uma reunião de amigos, uma prova de degustação.

Lemos os ficheiros de Mefistófeles e é uma sequela de Squid Game, um inferno sem redenção possível.

“Epstein era um crápula que usava a informação para criar e multiplicar teias de poder e influência.”
New York State Division of Criminal Justice Services / Handout

Mas desculpem-me a pergunta: todas aquelas pessoas são o mal ou muitos de nós poderíamos lá estar, se as circunstâncias o tivessem proporcionado? Teria o monstro o dom de reconhecer os perversos ou oferecia o que um largo número de homens deseja sem o poder confessar?

Terríveis, perguntam, mas quando vemos, um pouco por todo o lado, casas de prostitutas cheias de gente que paga pelo corpo que os serve, não será essa uma prova de que a luxúria é um vício humano?

Epstein era um crápula que usava a informação para criar e multiplicar teias de poder e influência. Sabia que o que acontecia ali, ficava ali.

Nos que vivem dentro de bolhas, nunca há culpa. E quando a culpa ameaça sair da toca há sempre o antídoto sob a forma de um cheque a uma associação de beneficência.

Diário de Notícias
Luís Osório
25.02.2026

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277: ‘Snova Spacibo, Gospodin Putin’

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🇵🇹 OPINIÃO

Há quatro anos escrevi, noutras páginas, uma coluna chamada Spacibo, Gospodin Putin.

Era Março de 2022, cinco dias após a invasão, e a ironia ainda cabia numa lista de agradecimentos: a NATO acordara, a Europa rearmava, o mito militar russo desfazia-se perante Kiev. Quatro anos depois, o dispositivo retórico mantém-se. A ironia, não. Há muito menos para agradecer. E o que há custa infinitamente mais do que qualquer cálculo antecipava.

É de agradecer a confirmação de que Putin não é o decisor frio que o seu marketing vendia, mas um líder consumido pelo ego e pela mitomania. Ao persistir num erro crasso, conseguiu o que mais temia: o maior alargamento da NATO na História, com a Finlândia a acrescentar 1300 quilómetros de fronteira e a Suécia a fechar o Báltico à projecção naval russa.

Até Trump funcionou como ricochete: ao ameaçar os aliados, acelerou a autonomia estratégica europeia. Putin quis dividir o Ocidente e forçou-o a crescer. Foram os ucranianos a pagar o preço.

É de agradecer ter posto fim ao sono europeu. Vinte e três países cumprem hoje os 2% do PIB em Defesa. Mas a gratidão é amarga: foi precisa a maior carnificina desde 1945 para comprarmos extintores. O mesmo vale para a energia, conquistada à custa das faturas mais pesadas para os consumidores mais vulneráveis.

É de agradecer ter exposto o encolhimento estratégico da Rússia. A Síria deixou de ser vitrina de poder; na Venezuela, em Cuba e em África, Moscovo tem cada vez menos para oferecer além de retórica. A reputação militar, alimentada por intervenções cirúrgicas na Geórgia e na Crimeia, ruiu perante a logística falhada, a doutrina inexistente e a corrupção estrutural. As escolas de guerra estudarão esta campanha durante décadas, não como modelo, mas como aviso.

É também de agradecer ter transformado a China no árbitro de uma paz que ninguém lhe pediu e ter reduzido a Rússia a vassalagem existencial. Putin foi a Pequim pedir suporte e saiu como parceiro subalterno. Não aliado: subalterno. Resta-lhe o arsenal nuclear, suficiente para garantir lugar à mesa, mas insuficiente para definir o menu. Putin jogou para restaurar um império. Acabou por hipotecar o que restava dele.

Nunca acreditei numa derrota militar total da Rússia. Quem a prometeu cedeu à pressão do momento. O que me perturba é que, apesar de estar no limiar da derrota estratégica, a Rússia poderia estar hoje numa posição muito pior. Não fosse a inflexão de Trump e as hesitações europeias, o mapa negocial seria mais favorável à Ucrânia. A Europa deu o suficiente para que não perdesse; nunca o suficiente para que pudesse ganhar.

Os números não mentem: quase dois milhões de baixas combinadas, a larga maioria das quais soldados russos, mais de 15 mil civis confirmados, seis a sete milhões de refugiados, metade da capacidade eléctrica da Ucrânia destruída. Cada número é uma vida interrompida, uma família dispersa, uma cidade amputada.

Chegamos a 2026 com mais de dois milhões de baixas e mesas de paz em Abu Dhabi e Genebra. Resta um amargo agradecimento pelo erro crasso que Putin cometeu, por puro ego, em Fevereiro de 2022. Putin obrigou-nos a escolher entre a paz dos cemitérios e a fadiga das democracias. Apostou no nosso cansaço; respondemos com o rearmamento de um século. Se a Europa e Kiev recusarão esse guião ou cederão ao peso do tempo, é a questão que 2026 ainda não respondeu.

Obrigado, senhor Putin: hoje todos sabemos que, consigo, a paz é apenas o intervalo para a próxima guerra.

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
25.02.2026

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273: Guerra na Ucrânia. Quatro anos e mais quanto tempo?

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🇵🇹 OPINIÃO

O alemão Carlo Masala não quis escrever uma ficção distópica, mas sim um alerta ficcionado, seguido de um epílogo que é um pequeno ensaio explicativo: se a Rússia vencer a guerra na Ucrânia não se vai ficar por ali, é a sua tese. Haverá, prevê, uma expansão territorial russa, incorporando, no início, populações russófonas deixadas para trás com a desagregação da União Soviética em 1991. Se a Rússia vencer – um cenário é o título do livro, agora traduzido em português.

A ficção/ensaio de Masala, um académico que ensina na Universidade das Forças Armadas alemãs, em Munique, vale muito a pena ser lido. Sem necessidade de puxar demasiado pela imaginação, só relatando aquilo que costuma ser a prática tanto nos círculos de decisão do Kremlin, como da NATO, transforma a questão da resposta a uma fictícia incursão militar russa no leste da Estónia, em Março de 2028, num debate sobre se será o início da Terceira Guerra Mundial. E perante a incerteza do nível (nuclear ou não) da contra-resposta russa, a NATO acaba por não aplicar o artigo 5.º nesse cenário imaginado.

Não só há hesitação dos poderosos, como até a questão de se os países do Sul, como Itália, Portugal e Espanha, estarão dispostos a enviar soldados para combater por um recanto estónio. Pelo contrário, tanto os outros países bálticos como a Polónia, com um longo historial de guerras com a Rússia, defendem uma retaliação, provavelmente por temerem ser os próximos.

No livro de Masala, cuja primeira versão terminou de ser escrita há um ano, parte-se, portanto, da ideia de que, em Março de 2028, a guerra na Ucrânia já teria terminado, com sucesso da Rússia, cujos ganhos teriam vindo da incapacidade de europeus e americanos ajudarem a resistência dos ucranianos.

O alerta feito é esse mesmo: ganhe a Rússia na Ucrânia e haverá novas ucrânias, razão pragmática pela qual tudo deveria ser feito para que a Rússia não ganhasse.

Um alerta que é um apelo do autor para que Kiev não seja abandonada na sua luta contra Moscovo, seja porque os Estados Unidos dão prioridade a uma negociação de paz, seja porque os países da União Europeia decidiram investir em Defesa, mas adiando na medida do possível, e por vezes por falta de alternativa, a concretização do novo poder militar.

“O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes.”
Mykola Tys / EPA

Cumprem-se hoje quatro anos exactos sobre a invasão russa da Ucrânia. Certamente que houve surpresas, em sentido contraditório, desde o fracasso do passeio dos tanques russos até Kiev, até à capacidade da Rússia em resistir à retaliação mista do Ocidente, com sanções económicas a Moscovo, por um lado, e apoio material ao esforço de guerra da Ucrânia.

O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes. A maior evidência disso é a necessidade de novos recrutas e a dificuldade de os conseguir, por ambos os beligerantes. Longe da frente de batalha, os dois países, sobretudo a Rússia, até podem tentar manter a ilusão de que tudo funciona, mas consequências dos combates no Donbass vão sentir-se durante décadas depois da guerra acabar.

E quando acabará? Numa data qualquer antes de 2028, como prevê Masala? Um outro alemão, o chanceler Friedrich Merz, cujo país lidera o esforço de rearmamento europeu, disse agora, em jeito também de alerta, mas com terrível pragmatismo, que “esta guerra não vai parar até que ambos os lados estejam exaustos, militar ou economicamente”.

O jornal Le Monde, que na edição datada de hoje analisava o impasse na guerra e também o impasse na NATO sobre o que fazer, sublinhou que a frase dita, alto e a bom som, por Merz na Conferência de Segurança de Munique é o que pensam muitos chefes militares. Também citado pelo jornal francês, Elie Tenenbaum, director do Centro de Segurança do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), resumiu a situação no terreno assim: “Os dois lados estão em chamas, mas a questão é qual deles está a arder mais rapidamente. É a mesma corrida, algo cínica, que se vive desde 2022.”

O sistema russo, onde Vladimir Putin tem um poder inquestionável, parece dar vantagem a Moscovo nesta descida partilhada aos infernos, pois Volodymyr Zelensky tem de lidar com o escrutínio tanto dos ucranianos, como dos aliados Ocidentais, mas no final, até ver, o resultado é a tal destruição mútua.

O que torna ainda mais urgente negociações sérias, destinadas a travar o círculo de morte e destruição, mesmo que se saiba à partida que Rússia e Ucrânia partem de posições inconciliáveis, a primeira a ter já anexado oficialmente territórios de outro país e a segunda a defender a sua soberania. Qual o caminho para essas negociações sérias, não mero ganhar de tempo por uns ou outros, depende muito da capacidade de americanos – aqui Trump conta muito -,e europeus decidirem uma ação conjunta que obrigue a Rússia a repensar a estratégia e dê condições à Ucrânia para ver uma luz ao fundo do túnel.

Era importante também que a China, que pretende ser vista como um actor de peso e responsável na cena internacional, faça sentir à aliada russa que em algum momento a paz tem de regressar. Só assim se ilibará da suspeita que tira vantagens da guerra na Europa, seja por comprar petróleo a preço de amigo ou, a outro nível, por esta desviar as atenções da sua ascensão.

O sucesso dessa acção para acabar com a guerra depende também daquilo que os aliados da Ucrânia estão dispostos a fazer pela sua soberania e segurança no futuro. Convinha entenderem-se ou ficarão para a História como tendo incentivado a resistência dos ucranianos para depois os deixarem essencialmente sós numa guerra que é desigual.

Quatro anos! É quase tanto como a Primeira Guerra Mundial. E é mais do que durou a guerra dos soviéticos contra os nazis depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em Junho de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial.

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Director-adjunto do Diário de Notícias
24.02.2026

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270: Já não há desculpas, Carlos!

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🇵🇹 OPINIÃO

Corria o ano de 2011 quando Mário Soares publicou o ensaio autobiográfico, político e ideológico Um Político Assume-se. O título revelou-se particularmente feliz: não só descrevia com rigor a vida e o modo de estar de Mário Soares, como acabou por se tornar um verdadeiro critério distintivo entre dois tipos de actores públicos.

De um lado, os que assumem inequivocamente que fazem política, com o objectivo de garantir direitos e liberdades, gerir recursos públicos, criar impacto económico e influenciar o futuro do país. Do outro, aqueles que constroem carreiras alavancadas na política partidária, mas dela se afastam sempre que tal lhes convém, num exercício de cinismo cuidadosamente calculado.

Esta reflexão serve de enquadramento para compreender o acordo que Carlos Moedas celebrou com a extrema-direita, à revelia dos lisboetas e sem nunca ter assumido, durante a última campanha autárquica, que essa seria uma opção em cima da mesa.

O mesmo Carlos Moedas que acusa de “radical” qualquer exercício legítimo de oposição ao seu paupérrimo desempenho enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa é, afinal, o Carlos Moedas que faz acordos de bastidores com o Chega, negociando lugares em troca de votos favoráveis ao Orçamento Municipal e, simultaneamente, tentando silenciar os seus opositores políticos.

Há aqui uma contradição difícil de ignorar. O autarca obcecado com a imagem e com a comunicação, que procura afastar-se da figura do político tradicional desgastado pelo populismo, é o mesmo que decide “comprar” uma vereadora que, por curiosa coincidência, abandona o Chega para assumir pelouros, como o do Desperdício Alimentar, que certamente seriam apelidados de tachos no linguarejar do próprio… Chega. Um gesto que diz muito sobre a natureza real deste entendimento e pouco sobre coerência política ou respeito pelo eleitorado.

Carlos Moedas governa agora com uma maioria que os lisboetas não lhe deram nas urnas. E, com isso, deixaram de existir desculpas. O mandato que aí vem adivinha-se particularmente exigente: a vitimização tem agora a perna tão curta como a mentira. Durante quatro anos, repetiu até à exaustão que não fazia mais porque “não o deixavam”, recorrendo sistematicamente à poderosa máquina de comunicação que montou no município. Essa narrativa está, a partir de agora, esgotada.

Sem obras planeadas pelo Executivo liderado por Fernando Medina para inaugurar, e sem eventos excepcionais, como a visita do Papa, que lhe permitam ganhar protagonismo mediático, resta-lhe apenas um caminho possível: arregaçar as mangas, governar efectivamente a cidade e pensar mais em Lisboa e menos numa estratégia pessoal para substituir Luís Montenegro. O acordo de Moedas com o Chega tem essa virtude: já não há desculpas para não fazer, Carlos!

Diário de Notícias
Davide Amado
23.02.2026

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263: Figura do Dia. A árvore que teve medo de ‘Kristin’

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🇵🇹 OPINIÃO

O senhor José morava ali desde que se lembra. Havia uma sombra que o confortava, uma amiga de sempre que o protegia a ele e à casa. Na sua juventude brincara nos seus troncos, nas suas angústias falara com ela sem necessidade de palavras, limitava-se a sentar-se à sua beira e a escutar a brisa que a árvore carregava.

Vivia no Luso, perto da mata do Buçaco, numa casinha de família que era tudo o que ambicionava para a sua solitária velhice. As memórias estavam ali, os abraços que dera, o cansaço da jorna, as mortes, a juventude. Envelhecera na companhia da casa – incrível como os lugares que habitamos nos acompanham -, e na presença do Castanheiro-da-Índia que já era adulto quando ele veio ao mundo.

O senhor José admirava profundamente aquela árvore por representar uma presença sem falhas ou maus humores. Admirava a sua grandeza, as folhas grandes, as flores que nasciam na primavera e as rugas do tronco.

Por vezes, em noites de frio e vento, a árvore assobiava como se tivesse medo. Na madrugada assombrada por Kristin, o castanheiro tornou a gemer. Um assobio mais fundo do que era hábito, um medo que era horror.

O senhor José sentiu a árvore entrar-lhe pela casa, furar-lhe as paredes do quarto, rebentar-lhe as janelas.

Conseguiu fugir e salvar-se. Já na rua viu a sua árvore galgar desesperada antes de cair num desamparo que meteu dó. Talvez pela cabeça do velho homem tenha passado a ideia de que a amiga desejava encontrar-se com ele, desafiá-lo para uma viagem eterna. Teve de ir sozinha.

Diário de Notícias
Luís Osório
19.02.2026

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258: Figura do Dia. A simpatia tornou-se um ato de resistência

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🇵🇹 OPINIÃO

Ser simpático hoje é um ato de profundo radicalismo. Diria até ser quase transcendente quando alguém nos sorri, diz “bom-dia” ou nos ameaça com um abraço. A regra é, na maior parte das vezes, poupar nas palavras, nos sorrisos e nos elogios que, pelos vistos, estão fora de moda e podem ser mal interpretados.

A maioria de nós deseja não ser chateado, a mera ideia de um vizinho nos tocar à porta para pedir um raminho de salsa é motivo para tomar um ansiolítico ou fecharmo-nos por dentro, para que ninguém imagine que podemos estar em casa.

“Diria até ser quase transcendente quando alguém nos sorri, diz ‘bom-dia’ ou nos ameaça com um abraço.”
Daniel Rodrigues

De vez em quando ficamos de mão estendida ou com as palavras penduradas no ar e sem resposta. Já não me importo quando acontece, não fico a remoer, como há uns tempos, o que é grave e um fortíssimo sinal de desistência por antecipação. Não responderem quando cumprimentamos alguém passou a ser o novo normal. Como enviar um e-mail sem esperar qualquer resposta.

Para que viagem embarcou a delicadeza? Mais do que aquilo que fazemos com o nosso talento, mais do que o modo como realçamos a beleza do que escondemos ou o horror de que nos penitenciamos, mais do que a capacidade de ousar ou de sonhar, mais do que tudo isso, o que nos distingue verdadeiramente é o modo como gerimos a monotonia das nossas vidas… e a forma como tratamos os outros, os que passam por nós e nos sorriem.

Volto então ao início, a uma frase de David Byrne, vocalista, do Talking Heads, numa entrevista que tem poucos dias: a simpatia tornou-se um ato de resistência.

Diário de Notícias
Luís Osório
17.02.2026

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257: Dias de nevoeiro

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🇵🇹 OPINIÃO

Há sempre qualquer coisa de sebastiânico nas aparições públicas de Pedro Passos Coelho, por quem uma parte da direita continua a suspirar como se o país dependesse do seu antigo timoneiro para se realizar de corpo inteiro enquanto ideia de nação. O fenómeno encontrará provavelmente mais explicações ao nível da psicanálise colectiva do que em quaisquer indicadores político-económicos que aqueles quatro anos de governação com a troika tenham produzido, mas é bem real.

E tão certo quanto a referência a D. Sebastião em dias de nevoeiro, num país carregado de saudosismos até à medula. Pelo que se pode apreciar, o papel agrada ao ex-primeiro-ministro, que cultiva essa aura no modo como gere as suas intervenções públicas. Raras e com estudado sentido de oportunidade, aguçando o apetite da audiência saudosa e aproveitando para reforçar esse estatuto de reserva moral a quem o país há de bater à porta um dia, quem sabe, esteja o Diabo à solta ou não.

Desta vez, o cenário foi a apresentação de um livro sobre lideranças intermédias na Administração Pública. Mas o cenário político era bem mais vasto: a intervenção coincidiu com a paisagem de um País submerso entre cheias e derrocadas, e com a polémica nomeação de um enfermeiro para coordenar a Estrutura de Missão para as Energias Renováveis (EMER 2030) a espreitar como exemplo oportuno para um diagnóstico sobre os vícios do Estado.

O discurso de Passos encaixou como uma luva. Denunciou a falha do Estado nas suas funções regulatórias como uma justificação para a falta de preparação face a eventos como os que assolaram o país nestas semanas; e carregou sobre concursos “viciados” e escolhas pouco transparentes que descredibilizam o Estado, com o caso da EMER a pairar sobre o actual Governo.

Obviamente, o diagnóstico de Passos Coelho foi certeiro. Ao apontar esses vícios estruturais na Administração Pública, reforçou a imagem de estadista distante das pequenas lutas do dia a dia, a “autoridade moral” que intervém apenas quando entende que o essencial do país está em causa.

Claro que essa consciência, hoje tão desperta, nem sempre esteve assim vigilante durante os seus anos de governação, que também eles tiveram as suas nomeações polémicas, como as 100 de última hora quando a Geringonça recebeu o aval para lhe suceder no Governo, mas sabemos como a memória (mesmo a colectiva) tende a ser selectiva.

Menos vocal, mas efectiva foi a ministra do Ambiente, Graça Carvalho, que assumiu publicamente não ter tido conhecimento da nomeação e a mandou anular, traçando uma linha de exigência e responsabilidade política que a reafirma como uma boa referência deste Executivo.

O controlo de danos, no entanto, só seria realmente efectivo se percebêssemos quem e o que falhou. Se este concurso foi, também ele, “viciado”, quem o viciou? E aí talvez a ministra tenha de avaliar se está devidamente acompanhada. Porque só um Estado competente, transparente e responsável pode resistir aos suspiros saudosistas de dias de nevoeiro.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
16.02.2026

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256: Navios, blindados e mísseis transparentes

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🇵🇹 OPINIÃO

Há dias ficámos a saber que Portugal foi um dos primeiros oito países a ver aprovado o seu plano de investimento no SAFE, o programa europeu através do qual vamos comprar 5,8 mil milhões de euros em material militar por meio de empréstimos em condições ditas “favoráveis”. Já lá iremos às condições “favoráveis”.

Primeiro vamos ao bom. De facto, Portugal está cada vez melhor a conseguir reunir tudo o que é preciso para convencer Bruxelas a enviar o cheque. Neste caso, uma primeira tranche de 876 milhões.

Portugal formalizou a sua candidatura ao programa em Novembro de 2025, e apresentou à Comissão projectos elegíveis em duas categorias: a primeira diz respeito a munições, mísseis, sistemas de artilharia, capacidades de combate terrestre, drones e ciberdefesa. A segunda abrange defesa anti-míssil e aérea, capacidades navais, activos espaciais e Inteligência Artificial.

A compra mais sonante ao abrigo deste programa, para já, são três fragatas aos italianos da Fincantieri (que ascendem a três mil milhões de euros). Já o contrato de reabilitação e modernização das quase 200 viaturas blindadas Pandur (um contrato estimado pelo Governo em 280 milhões de euros) está incluída na Lei da Programação Militar (LPM).

Ao aderir ao programa, em Novembro, o ministro da Defesa, Nuno Melo, disse que “não há mistério nenhum” quanto à “transparência” na aplicação dos recursos públicos. Na verdade, havia. Na verdade, ainda há.

Sabe-se desde o início que as regras deste programa (talvez por uma questão de rapidez) envolvem ajustes directos com os fornecedores, em vez de concursos públicos. É o regulamento. Mas isso não desobriga o Governo, nomeadamente o ministro da Defesa, de tornar público – que é como quem diz, informar os contribuintes que vão pagar tudo isto – quem são os membros do grupo de especialistas que o aconselhou a optar por esta ou aquela empresa, seja portuguesa, italiana, francesa ou outra.

Por outro lado, a maior parte da comunicação que se fez sobre o programa português no SAFE – que, recordo, ascende a 5,8 mil milhões – referia empréstimos “em condições favoráveis”.

Portanto, para que fique claro: não são fundos europeus, como estamos habituados nos Quadros Plurianuais, nem apoios ao abrigo do Programa de Recuperação e Resiliência (que envolve maioritariamente subvenções a fundo perdido).

Aqui, no SAFE, estamos a falar de empréstimos com prazos de até 45 anos (ou seja, pagando até 2071) e que, consoante a rapidez com que Portugal queria receber o dinheiro, podem custar no mínimo mais de 6 mil milhões de euros em juros.

Os cálculos do jornalista Luís Leitão, no Eco, mostram até que, no cenário mais plausível, os portugueses terão de pagar 12,1 mil milhões de euros até ao final da maturidade do crédito (em que mais de metade disto são juros). Ou seja, pagar 209 euros por cada 100 euros pedidos. É por isto, mas também porque quase todas as compras militares em Portugal foram polémicas, que os contribuintes têm o direito a saber mais e melhor sobre todo este processo.

Artigo alterado às 9h55 com a indicação de que o contrato de modernização das viaturas blindadas Pandur faz parte da Lei de Programação Militar e não do programa SAFE, como estava escrito originalmente.

Diário de Notícias
Nuno Vinha
Director-Adjunto do Diário de Notícias
16.02.2026

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245: Figura do Dia. A medalha que faltava a Rosa Mota

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🇵🇹 OPINIÃO

Continua a correr todos os dias, a sorrir todos os dias, a preocupar-se todos os dias. Não há nenhum atleta em Portugal que tenha feito da sua vida uma apologia da comunidade, do vivermos uns com os outros, uns para os outros.

Rosa Mota nunca quis ser livre no sentido mais egoísta do termo, acreditou sempre que as suas medalhas precisavam de continuidade, que precisava de ser em permanência um exemplo ético e cívico.

Não há paralelo com qualquer dos grandes atletas portugueses, ninguém se lhe pode comparar – a nossa Campeã Olímpica, uma das maiores maratonistas da historia, deixou as competições a “sério”, mas continuou a ganhar provas atrás de provas no Circuito de Veteranos, a viajar para os cinco continentes, a ajudar quem precisa, a comprometer-se nos mais variados combates sociais, culturais e até políticos.

Fábio Poço / Global Imagens

A menina da Foz manteve-se menina. Pequenina, sorridente, esmagadora na simplicidade, mas corajosa e politicamente incorrecta. Rosa Mota, mais o seu companheiro e mentor, o enorme José Pedrosa, acorda nas manhãs como se fosse eterna. E no próximo dia 19, de hoje a oito dias, será doutora pela Universidade do Porto. Doutora Honoris Causa.

Rosa, a segunda mais nova de seis irmãos de uma família proletária na zona mais burguesa do Porto, será aplaudida de pé pelos professores e sábios da cidade, do país e do mundo. Estarão reitores, cardeais, ministros, autarcas e até dois presidentes de duas Repúblicas. Despacho já o meu abraço, querida Rosa. Na próxima semana, não conseguirei chegar a ti.

Diário de Notícias
Luís Osório
12.02.2026

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