Foi ontem tornada pública pelo Departamento de Guerra dos EUA a versão desclassificada da NDS (National Defense Strategy – Estratégia de Defesa Nacional).
O ponto fundamental da NDS não é técnico; é existencial. Ao ressuscitar a designação de Departamento da Guerra, Washington não está apenas a trocar o papel timbrado.
Está a declarar a obsolescência da ordem liberal internacional que os próprios Estados Unidos patrocinaram em 1945. A mensagem a Bruxelas e Berlim é brutal: o guarda‑chuva americano passou a ter balcão de facturação e as cláusulas de exclusão são leoninas.
Quem não se aproximar dos 5% do PIB em despesas militares, ou quem hesitar na contenção tecnológica a Pequim, arrisca‑se a ficar exposto às intempéries da história.
A segurança deixa de ser um valor partilhado e converte‑se numa mercadoria de luxo, graduada pela utilidade estratégica e disciplina orçamental de cada aliado.
A NDS 2026 é o braço armado e a operacionalização da NSS (National Security Strategy – Estratégia de Segurança Nacional). O que testemunhamos é a fusão entre o instinto político de Donald Trump e o pensamento de uma nova elite de falcões estratégicos.
Se a NSS fixou a visão de uma América centrada na soberania económica e num intervencionismo de custo‑benefício, esta NDS fornece os dentes a essa narrativa. Não é apenas dar corpo doutrinal a impulsos presidenciais; é um processo de retro-alimentação.
Enquanto o Presidente quebra tabus diplomáticos com realismo transaccional, os planeadores do Departamento da Guerra codificam esses sobressaltos em directrizes de longo prazo, transformando a intuição numa máquina burocrática difícil de inverter.
Ainda assim, importa notar que esta convergência não elimina tensões: correntes do establishment veem esta doutrina com inquietação, mas perdem terreno na definição do horizonte estratégico.
A prioridade absoluta à defesa do território e o projecto da Golden Dome revelam uma América em modo de cidadela. O objectivo já não é projectar estabilidade no Médio Oriente ou na Europa de Leste, mas blindar fronteiras, espaço aéreo e infra-estruturas do próprio continente.
Esta viragem tem consequências: se os EUA olham obsessivamente para dentro, o vácuo no corredor atlântico torna‑se um risco real para a segurança marítima e rotas de reforço. A doutrina passa a tratar aliados como activos num balanço contabilístico, avaliados, classificados e, se necessário, depreciados.
A articulação entre NSS e NDS consolida o Corolário Trump: uma reedição musculada da Doutrina Monroe, adaptada por estrategas que traduzem geopolítica na linguagem que o Presidente privilegia: deal making e controlo de activos físicos.
Ao listar a Gronelândia e o Canal do Panamá como activos críticos, Washington sinaliza tolerância nula para influência externa no seu perímetro. A Europa deixa de ser um teatro prioritário e passa a ser um factor de risco a gerir com o mínimo custo.
Neste contexto compreende-se o tom crítico de Zelensky em Davos. A Ucrânia percebeu que deixou de ser o baluarte da liberdade para ser o primeiro activo a liquidar no mercado de balcão do novo Conselho de Paz.
Os sinais acumulam‑se: fadiga de apoio e ausência de compromissos de longo prazo. Este Conselho não é um fórum de concórdia, mas o braço estratégico da contenção da China e da Rússia, reduzida a uma certa insignificância. A sua função é encerrar a frente europeia a qualquer preço, libertando o Departamento da Guerra para concentrar a sua letalidade no Pacífico.
A geopolítica da dissimulação começa a ser exposta. A paz em Abu Dhabi não é um fim, mas um inventário para a guerra que se prepara noutras paragens.
O relógio de Washington já corre noutra escala. E, nesta nova era, a hesitação é lida como irrelevância por parte daqueles que esta arquitectura procura disciplinar e não apenas proteger, muito para lá do ciclo político do homem que a inspirou.
Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
24.01.2026
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A Europa não pode mostrar qualquer hesitação na cena internacional. Sobretudo agora, quando a paisagem global se assemelha a um campo de forças em rota de colisão. Durante demasiado tempo permitiu-se que a nossa visão estratégica fosse dominada por duas obsessões: a crédula subordinação ao amparo dos EUA e o receio de uma avalanche destruidora vinda do lado da Rússia. Em ambos os casos, a Europa acabou por perder soberania e credibilidade. A prioridade é recuperá-las.
Vivemos hoje num contexto de hostilidades vindas de vários azimutes. É vital enfrentá-las. A força externa, bem como a imagem da União Europeia são um reflexo directo da nossa coesão interna. Nos tempos actuais, é fundamental mostrar respeito pelos demais, advogar o equilíbrio e, ao mesmo tempo, projectar poder. A coesão interna é, por isso, no meu entender, a preocupação número um.
Para a conseguir, é imperativo reforçar a complementaridade europeia através de medidas concretas: primeiro, pela harmonização das principais dimensões políticas, impedindo assim que a fragmentação interna seja explorada pela competição proveniente do exterior; segundo, pelo fortalecimento da resiliência democrática contra a desinformação, estabelecendo um protocolo eficaz de resposta a ataques híbridos e às notícias falsas que visem dividir as nossas sociedades; e terceiro, pelo investimento massivo em infra-estruturas integradas nas áreas da energia e no domínio digital, garantindo que nenhum Estado-membro se torne um alvo vulnerável à chantagem de terceiros.
Uma Europa que não for sólida no seu núcleo central nunca poderá ser soberana nas suas fronteiras, nem jogar um papel geopolítico de peso. Isto inclui o fortalecimento da identidade comum, embora reconhecendo a diversidade cultural e nacional, e o envolvimento activo dos cidadãos e das suas estruturas representativas.
Por independência soberana não se deve entender um isolacionismo defensivo, mas sim a capacidade de afirmar e defender os nossos interesses estratégicos. Trata-se de uma soberania multidimensional: energética, tecnológica, cultural, política e militar. Ser soberano significa que as decisões de Bruxelas e outras expressam as nossas prioridades comuns e os nossos parceiros são escolhidos com base na reciprocidade e nunca na submissão.
Não podemos esquecer a China, que faz parte do núcleo das super-potências. A relação com a China exige um realismo desprovido de ingenuidade. A orientação a tomar deve ser definida em Bruxelas. O objectivo consiste na redução do risco, mas sem rupturas, protegendo sectores estratégicos e garantindo que as relações são condicionadas por regras mutuamente aceites.
Simultaneamente, a soberania conquista-se falando com todos. É imperativo que a Europa, como um todo, fale com Moscovo tanto quanto fala com outros. Manter canais abertos com o Kremlin não é mostra de fraqueza, mas um reconhecimento realista da nossa localização geográfica. Uma conversa produtiva com o Kremlin é praticamente impossível. Para D. Quixote, seria como convidar uma serpente para a nossa mesa e chamar a isso diplomacia. Penso, no entanto, que a Europa democrática, no seu conjunto, repito, deve tentar estabelecer um diálogo.
A Rússia está transformada pelos seus dirigentes num mau vizinho, não inspira confiança, bem antes pelo contrário, mas vive na porta ao lado. O primeiro passo será fazer ver a Moscovo que o prolongamento da agressão contra a Ucrânia leva à ruína de todos, a Rússia em primeiro lugar. Sun Tzu, na sua obra famosa A Arte da Guerra, sublinhou que “nunca houve uma guerra prolongada da qual um país tenha saído beneficiado”. Quando a vitória não é rápida e decisiva, a melhor opção para o agressor é retirar-se.
Na nova arquitectura, a NATO tem de ultrapassar a dependência unidireccional. Alinhando com a visão que Mark Rutte tem impresso à Aliança neste início do seu mandato, a Europa deve procurar construir um pilar europeu de Defesa operacionalmente autónomo.
Como o secretário-geral tem reiterado, “a segurança europeia não pode continuar a ser um produto de importação”. Reformar a NATO significa que a Europa assume a responsabilidade primária pela estabilidade do nosso continente.
No seguimento de Davos 2026 e da próxima Conferência de Munique, de 13 a 15 de Fevereiro, e no processo de reorganização das Nações Unidas (UN80), a Europa precisa de se assumir como a arquitecta de um multilateralismo revigorado e eficaz. A mensagem deve ser simples e directa: temos de restabelecer a confiança entre os Estados. Na reforma da ONU, que é mais urgente do que nunca, a Europa deve liderar a transição para um sistema que reflicta a realidade contemporânea, defendendo um Conselho de Segurança alargado onde a voz do Sul Global e dos países com peso regional seja institucionalizada, e o poder de veto não seja um instrumento de paralisia.
Este esforço de reforma multilateral corre agora o risco de ser minado por propostas transaccionais e excludentes, como o inacreditável “Conselho da Paz” (Board of Peace) sugerido pela Administração norte-americana. Esta proposta, que pretende substituir a diplomacia colectiva por um directório ao serviço dos interesses pessoais de Donald J. Trump, constitui uma ambição inaceitável. Ao tentar contornar as instituições internacionais, o “Board of Peace” procura impor uma ordem mercantilista, assente num ego descomunal e num conceito novecentista de império, que ignora os direitos e a soberania dos Estados. Numa palavra, é uma aberração.
A estabilidade e a influência geopolítica da Europa não virão apenas das armas, nem da modernidade das nossas economias. Resultarão, também, da nossa capacidade de ombrear a todos os níveis com aqueles que nos querem subjugar, da força moral que colocarmos na defesa dos valores universais e das pontes que soubermos estabelecer com os regimes democráticos existentes em cada região do globo.
O Estado Português já demonstrou sobejamente que tem pouco a oferecer às camadas mais idosas da sociedade. Ao contrário da maioria dos restantes países ditos desenvolvidos da Europa, Portugal tem delapidado os cuidados de saúde primários – a primeira linha de assistência a quem sofre, constantemente, de pequenos problemas de saúde.
Tem tornado um inferno a ida de um idoso para os hospitais públicos, que têm listas de espera monumentais para cirurgias; que tem tempos de espera medievais e que, já agora, têm uma disposição geográfica que divide os portugueses em cidadãos de primeira ou de segunda, consoante a disponibilidade das ambulâncias dos bombeiros.
E por último, para agravo maior, é fraco a proporcionar acolhimento para quem tem alta hospitalar, mas não tem família que consiga pagar uma cama num lar de idosos particular.
Isto num país que caminha a passos largos para ser um dos mais envelhecidos na Europa e, ao mesmo tempo, em que a remuneração dos seus cidadãos é cada vez mais insuficiente para o agravamento do custo de vida.
“A cama no SNS à qual cada uma destas 734 pessoas estão ‘presas’ por falta de outra opção custa ao Estado entre 21.000 e 24.000 euros por mês. Ou seja, 184 milhões se todas as 734 se mantiverem ali durante um ano. ”Paulo Spranger
É neste cenário que o Governo – no caso a ministra do Trabalho e da Segurança Social – se reúne hoje com os representantes das IPSS e Misericórdias para tentar encontrar a solução para um problema. O principal tema em debate, já se percebeu, será o valor que o Estado está disposto a pagar para que estas instituições recebam as centenas de idosos ou outros casos sociais que actualmente estão “presos” nos hospitais.
Actualmente, a Segurança Social paga 1.400 euros mensais por cada caso, mas o presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel Lemos, afirma ao DN que esse valor terá sempre de ser superior a 1.700 euros por mês.
As contas nem sempre são fáceis de fazer. Mas aqui fica uma versão simplificada: no total, a resolução deste problema poderá custar quase 15 milhões de euros por ano à conta da Segurança Social.
E se este número parece alto, a verdade é que não representa, nem de perto, o que o Estado está a despender actualmente com estes casos preocupantes.
A cama no SNS à qual cada uma destas 734 pessoas estão “presas” por falta de outra opção custa ao Estado entre 21.000 e 24.000 euros por mês. Ou seja, 184 milhões de euros se todas se mantiverem no SNS durante um ano.
Trata-se de pessoas que não podem ser deixadas para trás, independentemente do custo que vem associado ao seu internamento. Que isto fique absolutamente claro.
Assim sendo, caberá ao Estado a decisão mais acertada e mais razoável do ponto de vista orçamental. Numa lógica de curto prazo, face às opções imediatas em cima da mesa, o pagamento deste serviço às IPSS e Misericórdias parece ser o caminho a seguir – salvo melhor sugestão de outro qualquer sector. Isto porque, em teoria, assegura o acompanhamento digno destes cidadãos e, por outro lado, custa uma fração do que está a custar ao SNS (além de libertar camas para casos de internamento graves do ponto de vista médico).
No entanto, é questão de perguntar se algum ministério ou grupo de trabalho estudou a hipótese de o próprio Estado construir e, se for preciso, concessionar lares de terceira idade para resolver este problema e os muitos outros que se antecipam com uma população cada vez mais envelhecida. Ou a ideia de PPP’s na terceira idade choca tanta gente que nem se quererá falar nisso?
Há épocas em que nos sentimos arrastados por forças a que não sabemos dar sentido, que se empenham em destruir os projectos que fizemos e os alicerces do mundo em que vivemos.
A única resistência que nós, bichos da terra tão pequenos (Camões), podemos opor a esses ciclos da História, tão impiedosos e cruéis como os da Natureza, está numa fórmula muito simples, mas que devemos entender e saber analisar: a democracia política liberal.
Este conceito é diferente da política económica liberal, não diz respeito à liberalização dos mercados e à desregulamentação da economia, mas sim à liberdade dos cidadãos e à sua capacidade de estabelecer regras decentes, que permitam afastar propostas liberticidas.
Nós conseguimos levar à segunda volta das eleições presidenciais um candidato decente, que respeita as regras do jogo democrático, contra alguém que as quer destruir, para as substituir pelo arbítrio autoritário das ditaduras.
Nós não queremos deixar que a nave siga sem nós, levada pelas correntes marítimas e pelos ventos que não controlamos: queremos ser cidadãos capazes de opor a nossa vontade a destinos urdidos por cima de nós.
A ideia de liberdade e o conceito de decência deverão nortear as nossas opções num momento em que se acumulam os perigos, a ganância de uns a conjugar-se com a fraqueza de outros: uma atitude firme e segura, intransigente com os atentados à liberdade e à democracia que se preparam e nem sequer já se escondem, é nosso dever, é o que estes tempos difíceis nos exigem.
Mostraremos que somos capazes de não ceder às antigas barbáries, disfarçadas de apelos do novo. Mostraremos que, através de todas as épocas e de todas as mudanças, há valores de liberdade, respeito pelos outros, solidariedade e inclusão social, que nunca deixam de ser actuais e exigem a nossa incansável vigilância.
E continuaremos a defender estes princípios e valores contra poderosas correntes que empurram por todo o mundo para o autoritarismo, o belicismo e o racismo. Nós já experimentámos o autoritarismo fascista e a Guerra Colonial. Não temos saudades desses tempos.
Ontem, vi alegria nas pessoas do meu bairro, o alívio de quem escapou a uma ameaça. Mas não é assim: dia 8 de Fevereiro teremos de mostrar uma vez mais a força das nossas razões contra a força irracional que cavalga os ressentimentos e os rancores para os aliciar contra a liberdade.
Não compreendo os que se dizem liberais e ao mesmo tempo são capazes de apoiar os que se esforçam para destruir as nossas liberdades.
Não compreendo os descontentes que imaginam que a ditadura tudo resolverá, com um golpe mágico, um Deus ex machina, que nos trará a felicidade a domicílio, assim nós deixemos que sejam eles a definir, condicionar e limitar essa felicidade.
Não compreendo os que atacam o “sistema” para tentarem vir impor um outro sistema, bem mais opaco e blindado contra qualquer mudança.
Não devemos nós, democratas, deixar de criticar o que corre mal e tentar emendar o que não funciona: mas não será um regime, que proíbe ou limita as críticas, que será capaz de corrigir o que vai mal.
E não, hoje não consigo falar de outras coisas. São evidências, mas nem todos partilham estas evidências. São princípios mínimos de solidariedade social e respeito mútuo, mas nem todos partilham estes princípios. São condições básicas para uma sociedade decente, mas nem todos partilham esta decência.
ADENDA: A morte de Maria Alzira Seixo é uma enorme perda para os estudos literários em Portugal e um profundo desgosto para os seus amigos, em que minha Mulher e eu nos contamos.
A União Europeia enfrenta desafios sem precedentes, num momento em que a ordem multilateral baseada na ONU está sob ataque. A estratégia de apaziguamento em relação a Donald Trump – desde a Cimeira da NATO até à desregulamentação das regras digitais, de Inteligência Artificial e ambientais, incluindo a humilhação tarifária de Turnberry – não está a funcionar. As concessões e acomodações não reduziram a imprevisibilidade e hostilidade de Trump – que culminaram em ameaças reiteradas à Gronelândia.
Pelo contrário, aprofundaram a vulnerabilidade estratégica da Europa, produziram um plano de capitulação inaceitável para a Ucrânia e uma declaração política de guerra à UE sob a forma de estratégia de segurança nacional dos EUA, na qual ele apela ao regresso a uma Europa das nações e anuncia, consequentemente, uma aliança com as forças políticas nacional-populistas do continente.
A Europa deve, portanto, tirar as conclusões necessárias: a sua segurança, prosperidade e democracia não podem mais depender da vontade mutável dos Estados Unidos. A autonomia estratégica não é mais uma opção, mas uma necessidade. A União Europeia deve ser capaz de agir de forma independente, assumir total responsabilidade pela sua própria Defesa e perseguir os seus interesses e valores no cenário global com soberania e credibilidade.
Uma Europa mais produtiva e competitiva é uma condição prévia para o poder geopolítico e o bem-estar social. Assim, devemos garantir, até 2028, a plena implementação dos relatórios Letta e Draghi sobre a conclusão do mercado único e a competitividade europeia. Além disso, precisamos de um orçamento plurianual que apoie novos investimentos, públicos e privados, em indústrias-chave e inovadoras. Por isso, exortamos a Comissão a apresentar uma proposta de Quadro Financeiro Plurianual (QFP) novo, reforçado e mais ambicioso, capaz de financiar bens públicos europeus, incluindo novas prioridades em matéria de Defesa e investigação, preservando simultaneamente as dimensões social e ambiental, a coesão e a agricultura, no respeito pelo controlo parlamentar e pelo papel das regiões e cidades europeias, e financiado com recursos próprios reais da UE.
Mas recuperar a competitividade e modernizar o orçamento não é suficiente para construir uma Europa geopolítica. Tal como em 1950, devemos concentrar-nos num ponto crítico, que é o estabelecimento de uma Defesa Comum Europeia apoiada por uma união política mais forte. Só uma Europa mais federal poderá enfrentar estes desafios, garantindo o respeito pelos nossos valores e direitos fundamentais, a menos que estejamos dispostos a aceitar Trump como autoridade política mundial, numa parceria ambígua com Putin e Xi Jinping.
Reconhecendo a ameaça à segurança que a UE enfrenta e a hostilidade aberta de Trump, confirmada pela Estratégia de Segurança Nacional, apelamos aos Estados-membros no Conselho Europeu para que estabeleçam uma Defesa Comum Europeia, tal como previsto no artigo 42.º do Tratado da União Europeia, o que também pode ser feito através de uma nova Cooperação Estruturada Permanente pelos Estados-membros dispostos a fazê-lo, em caso de falta de unanimidade. Isto constituirá um Sistema de Defesa Europeu capaz de coordenar as Forças Armadas nacionais em caso de agressão a qualquer Estado-membro. Para tal, é necessário um Centro de Comando e Controlo da UE.
De um modo mais geral, as instituições e os líderes da UE devem explorar plenamente o Tratado de Lisboa, através de uma interpretação federalista do mesmo em todos os domínios, tal como foi feito com a resposta à pandemia do Coronavírus, seguindo também o apelo de Draghi a um “federalismo pragmático”.
A UE não teria sido uma potência comercial com esta política sujeita à unanimidade. Precisamos de superar a vetocracia na Política Externa, na Defesa e nas Finanças. Um orçamento da UE mais forte, que beneficia certos Estados-membros, poderia ser condicionado ao seu apoio à activação das passerelles para passar da unanimidade à votação por maioria. Paralelamente, o Conselho Europeu deve dar seguimento coerente à proposta do Parlamento de reformar os Tratados para abolir a unanimidade no sistema de tomada de decisões da UE – as políticas orçamentais e fiscais, externas, de segurança e defesa, bem como o alargamento, devem ser abrangidas pelo procedimento legislativo ordinário -, incluindo futuras alterações aos Tratados.
Consideramos que o Parlamento Europeu pode desempenhar um papel fundamental na implementação das reformas institucionais necessárias, também tendo em vista o alargamento.
Em primeiro lugar, condicionando o seu apoio aos próximos orçamentos anuais e ao QFP à ação do Conselho Europeu relativamente aos pedidos acima mencionados. Em segundo lugar, promovendo uma Assembleia Interparlamentar (Assises) para defender a plena implementação desses objectivos, juntamente com uma Assembleia Europeia de Cidadãos ad hoc para envolver as pessoas e a esfera pública europeia em geral.
Com este intuito, apoiamos a criação de uma coligação pró-europeia renovada, supra-partidária e interinstitucional, que abranja os Estados-membros mais empenhados no Conselho Europeu, a maioria pró-europeia nos Parlamentos Europeu e Nacionais, a Comissão Europeia e as instituições regionais e locais – superando as inércias particulares de cada instituição -, bem como a sociedade civil organizada pró-europeia. Apelamos a todos para que se mobilizem a nível local, nacional e transnacional em apoio a estes pedidos de uma União mais soberana e democrática.
Este texto baseia-se na declaração “Um Roteiro para a Soberania Europeia”, adoptada pelo Comité de Acção para os Estados Unidos da Europa.
Josep Borrell Fontelles (ES), antigo alto-representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança e ex-presidente do Parlamento Europeu
Danuta Hübner (PL), economista, antiga comissária Europeia para a Política Regional, ex-membro do Parlamento Europeu
Guy Verhofstadt (BE), presidente do Movimento Europeu Internacional, antigo primeiro-ministro, ex-membro do Parlamento Europeu
Domènec Ruiz Devesa (ES), presidente da União dos Federalistas Europeus, ex-membro do Parlamento Europeu
Margarida Marques (PT), antiga secretária de Estado dos Assuntos Europeus, ex-membro do Parlamento Europeu
Enrico Letta (IT), presidente do Instituto Jacques Delors, antigo primeiro-ministro
Dominique Méda (FR), socióloga e filósofa
Javier Cercas (ES), escritor
Robert Menasse (AT), escritor
Daniel Cohn-Bendit (FR/DE), escritor, ex-membro do Parlamento Europeu
Enrique Barón Crespo (ES), ex-presidente do Parlamento Europeu
Klaus Hänsch (DE), ex-presidente do Parlamento Europeu
Hans-Gert Pöttering (DE), ex-presidente do Parlamento Europeu
Paolo Gentiloni (IT), ex-comissário Europeu para a Economia, ex-primeiro-ministro
Petre Roman (RO), ex-primeiro-ministro
Rosen Plevneliev (BG), ex-presidente da República
Isabelle Durant (BE), ex-vice-presidente do Parlamento Europeu, ex-secretária-Geral Interina da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento
Othmar Karas (AT), ex-primeiro vice-presidente do Parlamento Europeu
Jacques Attali (FR), escritor, antigo presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento e conselheiro especial do presidente Mitterrand
Pascal Lamy (FR), antigo director-Geral da Organização Mundial do Comércio, antigo comissário Europeu para o Comércio
Mercedes Bresso (IT), ex-presidente do Comité das Regiões Europeu e ex-membro do Parlamento Europeu
Gabriele Bischoff (DE), presidente do Grupo Spinelli, membro do Parlamento Europeu
Nicolas Schmit (LU), ex-comissário Europeu para o Emprego e os Direitos Sociais (Luxemburgo)
Andrea Wechsler (DE), presidente da Europa-Union Deutschland, membro do Parlamento Europeu
Luca Visentini (IT), ex-presidente da Confederação Europeia dos Sindicatos
Monica Frassoni (IT/BE), presidente do Centro Europeu de Apoio Eleitoral (ECES), ex-membro do Parlamento Europeu (Itália e Bélgica)
Moritz Hergl (DE), presidente dos Jovens Federalistas Europeus – JEF Europe
Brando Benifei (IT), membro do Parlamento Europeu, ex-presidente do Grupo Spinelli
Daniel Freund (DE), membro do Parlamento Europeu, ex-presidente do Grupo Spinelli
Sandro Gozi (IT/FR), membro do Parlamento Europeu, ex-presidente do Grupo Spinelli (Itália e França)
Petras Austrevicius (LT), membro do Parlamento Europeu
Raphaël Glucksmann (FR), membro do Parlamento Europeu
Anna Strolenberg (NL), membro do Parlamento Europeu
Katalin Cseh (HU), membro do Parlamento húngaro, ex-membro do Parlamento Europeu
Richard Corbett (UK), ex-membro do Parlamento Europeu, co-relator do Tratado Constitucional e do Tratado de Lisboa
Elmar Brok (DE), ex-membro do Parlamento Europeu, ex-presidente do Grupo Spinelli
Jo Leinen (DE), ex-membro do Parlamento Europeu, ex-presidente do Movimento Europeu Internacional
Andrew Duff (UK), ex-membro do Parlamento Europeu, ex-presidente da União dos Federalistas Europeus
Monica Baldi (IT), ex-membro do Parlamento Europeu
Pierre Larrouturou (FR), ex-membro do Parlamento Europeu
Virgilio Dastoli (IT), presidente do Conselho Italiano do Movimento Europeu, antigo colaborador de Altiero Spinelli
Francesca Ratti (IT), antiga vice-secretária-geral do Parlamento Europeu
Guillaume Klossa (FR), presidente fundador da EuropaNova, Civico Europa e Europa Power Initiative
Philippe Laurette (FR), presidente da Associação Jean Monnet
Alessia Centioni (IT), presidente da Civico Europa e da European Women Association
Roberto Castaldi (IT), professor, secretário-geral do Movimento Federalista Europeu
Chloé Fabre (FR), presidente da União dos Federalistas Europeus – França
Christelle Savall (FR), ex-presidente da JEF Europe
Margherita Orsi (IT), cientista política
Franco Bassanini (IT), advogado constitucionalista, ex-presidente da “Cassa Depositi e Prestiti”
Francisco Aldecoa Luzárraga (ES), cientista político, presidente do Conselho Federal Espanhol do Movimento Europeu
Céline Spector (FR), filósofa
Michele Fiorillo (IT), filósofo, coordenador da Civico Europa e da Citizens Take Over Europe
Slavoj ŽižeK (SLO), filósofo
Diário de Notícias
Comité de Acção para os Estados Unidos da Europa
21.01.2026
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Há cerca de uma semana, a Polícia Judiciária (PJ) anunciava o lançamento de uma campanha inédita de combate ao discurso do ódio. Hoje, passou da pedagogia à prática. A operação desencadeada contra o grupo neonazi 1143 demonstra que um Estado de Direito não se limita a condenar discursos – actua quando identifica estruturas organizadas que promovem o ódio, a segregação e a violência.
As palavras do director Nacional da PJ são inequívocas e assentam na memória, nos dados e na experiência acumulada. Em 1995, uma estrutura semelhante esteve ligada ao homicídio de Alcindo Monteiro. Em 2007, apesar de condenações pesadas, o fenómeno não desapareceu. Em 2016, novas investigações revelaram membros repetidos, continuidades, adaptações. O que falhou, reconhece implicitamente a instituição, foi a capacidade de interrupção sustentada: a reinserção não travou a reorganização. A mesma estrutura manteve-se, alargou-se, ganhou estabilidade no tempo.
Hoje, a realidade é ainda mais preocupante. Em poucos anos, Portugal passou de uma dezena de crimes de ódio por ano para um número sete vezes superior. Há associações com fundadores, chefias, membros, apoio logístico, financiamento, distribuição de funções e uma ideologia assumidamente neonazi, baseada na segregação de parte da população. Há um sentimento de pertença, uma identidade, uma imagem de marca. E há, sobretudo, uma estratégia definida.
É aqui que a operação ganha verdadeiro significado. A PJ não esperou pelo “crime de resultado”. Não esperou por mais mortos, como no caso de Alcindo Monteiro, por mais feridos com sequelas para a vida, como aconteceu em 2015 com um militante comunista. Como explicou o seu director Nacional, quem investiga este tipo de criminalidade procura interromper a actividade antes da violência consumada. Defender a integridade das pessoas é o núcleo da missão.
Também por isso, a investigação não foi suspensa, nem adiada, pelo calendário político. A campanha presidencial em curso não condicionou a actuação da polícia criminal.
Este é um princípio essencial numa democracia madura: a separação entre a disputa política e a aplicação da lei. A PJ investigou, reuniu indícios, actuou – como deve fazer, independentemente do ruído público.
Mas esta operação é igualmente um aviso institucional. Ao próximo Presidente da República, aos decisores políticos e à sociedade.
O extremismo violento existe, organiza-se e aprende com o tempo. Não é apenas retórica inflamada nas redes sociais. É uma realidade estrutural, persistente e com capacidade de mobilização. Ignorar este alerta seria um erro grave. E podemos até pensar que há destinatários no espaço político e no debate público actual.
Quem tem relativizado o discurso extremista ou o tem tratado como mero debate de ideias será agora confrontado com um dado objectivo: estruturas organizadas, com continuidade no tempo e capacidade de mobilização violenta.
A pergunta é simples: saberão esses responsáveis ouvir os avisos das autoridades e reconhecer que a liberdade de expressão termina onde começa o incitamento ao ódio e à violência?
O artigo 240.º do Código Penal existe precisamente para isso. Para proteger pessoas e comunidades antes de ser tarde. Para impedir que a história se repita sob novas siglas.
O maior risco, agora, seria transformar tudo isto num debate estéril sobre opiniões, reduzindo uma investigação sustentada a um exercício de retórica sobre liberdade de expressão.
Se esse for o desfecho – se se concluir que nada disto passou de palavras -, então não falhará apenas a Justiça. Falhará o Estado. E falhará a democracia.
Diário de Notícias
Valentina Marcelino
Directora Adjunta do Diário de Notícias
21.01.2026
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No mundo caótico, a Teoria do Caos parece estar a ser substituída pela Teoria do Louco. Teoria da política externa americana associada ao presidente Richard Nixon. Nixon, era um político experiente e um profundo conhecedor da geopolítica. Donald Trump, é o contrário, um narcisista, volúvel, e um profundo desconhecedor da história e da geopolítica.
O apoio de Trump à narrativa do Kremlin sobre a guerra na Ucrânia, têm sido motivo de alarme e desanimo na Europa. Agora, e de forma ainda mais perturbadora, Trump evocando um precedente datado dos tempos mais negros da Guerra Fria, insiste na tomada de posse da Gronelândia, não excluindo o uso da força militar. Uma guerra no Árctico será um absurdo, dispendiosa e contra produtiva.
A NATO sempre pautou a resolução de diferendos entre os seus membros pela via diplomática. É um facto que a Gronelândia é vital para os interesses estratégicos da América no Árctico, como o é para a Europa. A questão da Gronelândia deve ser resolvida pela via negocial, através de acordos já existentes, e nunca pela ameaça ou utilização da força militar.
A Gronelândia é uma zona autónoma e parte do Reino da Dinamarca. Cabe à NATO garantir a segurança e defesa dos interesses estratégicos da Aliança na área do Árctico. Os EUA são o membro mais importante da Aliança. Segundo, o Acordo de Segurança e Defesa de 1951, assinado entre a Dinamarca e os EUA. sobre a Gronelândia, é permitido aos EUA manter bases militares e acesso de defesa à ilha.
Curiosamente. o Acordo de Segurança e Defesa entre Portugal e os EUA (Acordo de Auxílio Mútuo para a Defesa) foi assinado em 1951. O Acordo formalizou a cooperação militar e permitiu aos EUA o uso da base das Lajes nos Açores.
Assumir o controlo da ilha não ofereceria qualquer dificuldade. A Gronelândia não tem forças territoriais, e apenas meia-dúzia de pequenos navios e helicópteros. Argumentam alguns analistas: teoricamente, a ilha seria capturada numa questão de horas. e simplesmente declarar a Gronelândia como território americano.
A experiência mostra, contudo, que aquilo que parece simples, pode tornar-se assaz complexo. Os planeadores militares sabem como os conflitos começam, mas raramente sabem como e quando acabam. Um exemplo recente, o Kremlin planeou conquistar Kiev em dias e, passados quase quatro anos, a guerra continua.
No cenário mais improvável, assumindo que a Dinamarca, solicita a activação do artigo 5 da Aliança, e que os países europeus da NATO respondem afirmativamente, abrir-se-á a “caixa de pandora” e logicamente o fim da NATO, conforme a conhecemos. Poderá prevalecer, mas com outro formato e sem os EUA. Para os americanos, aquilo que se previa ser uma simples operação militar, poderá não ser “um passeio no parque” e tornar-se num verdadeiro pesadelo logístico.
A América mantém na Europa um contingente militar, entre 80 a 100 mil militares. Dispõe de bases e infra-estruturas militares em múltiplos países europeus. O diferencial de capacidades militares entre os EUA e a Europa é significativo, claramente a favor da América. Contudo a Europa não está totalmente desarmada – longe disso.
Assumindo que as bases militares americanas na Europa não estariam disponíveis para apoiar as operações americanas na região do Árctico, devido ao conflito entre a Europa e os EUA, as dificuldades logísticas seriam enormes. É previsível que os americanos baseassem as suas operações em força aeronavais, através da projecção para o Árctico de dois ou três porta-aviões e os seus “battle groups”.
A Europa não está isenta de dificuldades. A ideia de um exército europeu dentro da UE, que de facto não existe, é uma falácia. Não há órgãos de comando conjunto e integrado: os que existem estão na estrutura da NATO. Em caso de conflito com os americanos seria urgente a criação de um comando conjunto e integrado europeu, aproveitando as infra-estruturas da Aliança.
As probabilidades de uma anexação/invasão da Gronelândia são ainda assim extremamente reduzidas, por se tratar de uma guerra absurda e de uma total insanidade.
Em Novembro passado, escrevi uma coluna em que defendi que a suposta retracção dos EUA era, na verdade, uma geopolítica da dissimulação. Sob o véu da fadiga imperial, Washington reorganizava a sua hegemonia. Hoje, essa suspeita é uma certeza: a máscara caiu. A recente captura de Nicolás Maduro, o incidente com o petroleiro Marinera e a posição face à Gronelândia e ao Irão confirmam que não há uma retirada, mas uma ofensiva de suserania absoluta que redefine as regras do jogo global.
A extracção de Maduro para julgamento em Nova Iorque terá marcado o fim da auto-contenção normativa. Washington abdicou da estética de garante da ordem liberal para assumir o papel de executor. A mensagem não se esgotou em Caracas: ao submeter a região a bloqueios e sanções, os EUA sinalizam que a esta interpretação da Doutrina Monroe não admite ambiguidades, preconizando a eliminação de qualquer vestígio de influência russa ou chinesa no hemisfério Ocidental.
No Médio Oriente, a pretensa retirada deu lugar a um controlo intenso. Nada acontecerá em Gaza sem a tutela americana, enquanto a influência sobre a Arábia Saudita e o Qatar isola o Irão. A presença reforçada na Síria e no Iraque fragmenta o corredor xiita, deixando Teerão perante uma geopolítica da exaustão. Vulnerável após o precedente venezuelano, o regime iraniano percebe que o apoio do Leste é um seguro de vida com data de validade perante a supremacia operacional de Washington.
A gestão da Ucrânia e de Taiwan revela o auge da resistência instrumental. Na Ucrânia, a aproximação americana à Coalition of the Willing é uma armadilha transaccional: Washington usa o brio europeu como travão conveniente, prometendo paz a Moscovo enquanto culpa a intransigência dos Aliados para não ceder no terreno.
O ataque ao Marinera, antecipando a protecção naval russa e expondo a sua vulnerabilidade logística, provou que a tentativa de dissuasão de Moscovo no mar foi irrelevante.
Em Taiwan, a lógica é idêntica, mas sem cortesia diplomática. Taipé é o aliado-pivô que não precisa de ser convencido, apenas armado. Ao fortalecer o arco de conflitos de baixa intensidade com o Japão, Coreia do Sul e Filipinas, os EUA criam uma barreira que a China não consegue romper sem uma guerra total para a qual não está preparada. Washington utiliza os seus aliados como escudo da sua hegemonia, testando a determinação e capacidade de Pequim.
A crise na Gronelândia fecha este arco de coação. A pretensão de ocupação sob o pretexto da ameaça chinesa é uma ficção sob a capa de realismo transaccional. Trata-se, na prática, de uma cerca preventiva, para sinalizar que a ilha é zona de influência exclusiva dos EUA, que força a Dinamarca a concessões militares e mineiras, sob pena de ver o seu território convertido num protectorado estratégico.
Fica demonstrado que a soberania de um aliado histórico é anulável perante a necessidade operacional de Washington. Se o direito internacional já era frágil, tornou-se agora um cadáver, substituído por um sistema de excepções administrado por quem tem força para as impor.
O que escrevi em Novembro confirmou-se. Os EUA não estão a sair de cena; libertaram-se apenas do figurino de polícia global para assumirem o papel de predador-alfa.
Já não há necessidade de parecer moralmente superior perante uma comunidade internacional incapaz de constranger.
Do Árctico à Venezuela, do Irão a Taiwan, a república americana parece querer transmutar-se num império que, ao abdicar das instituições que ajudou a criar, se tornou exponencialmente mais eficaz e perigoso.
A questão já não é quem tem razão, mas sim como sobreviver para não se tornar a próxima presa.
Entre nós, tem algum eco uma velha escola de anti-americanismo primário, que se alimenta da tese básica de que, na América, “eles” são todos iguais.
Republicanos e democratas, dependendo da conjuntura externa que condiciona o momento, representarão os interesses por trás da mesma moeda, o dólar, com faces apenas aparentemente diversas. São sempre os mesmos powers that be que ditam as regras, que mandam fazer ou desfazer as guerras. Os protagonistas alternam, mas a peça é basicamente idêntica. No fundo, na ocupação da Casa Branca, quase sempre, venha o diabo e escolha.
Com os anos, de forma racional, fui sendo levado, a pensar que, ao contrário dessa escola, nem tudo era assim tão bonnet blanc, blanc bonnet. Houve a tradição do New Deal de Roosevelt, emergiram ondas relevantes de políticas sociais. Nos direitos cívicos – chegando embora tarde ao que era evidente – os democratas estiveram quase sempre na linha da frente, muitas vezes com grande coragem.
É certo que, em momentos decisivos, em especial na obnubilação da Guerra Fria, a Administrações democratas fugiu o pé para os seus Vietnames, para o excepcionalismo, para um multilateralismo à la carte. Ainda assim, ia eu concluindo, não era bem a mesma coisa. Longe de ter sido entusiasta de Clinton ou de Obama, sempre me senti mais próximo dessa tradição do que da alternativa republicana, permanecendo um saudoso viúvo de Adlai Stevenson e de George McGovern – esse grupo dos the best presidents we never had.
Com a chegada de Trump à boca de cena, o contraste foi brutal. Tudo o que lhe era oposto passou a parecer melhor. De um dia para o outro, nos “meus”, esqueci os bombardeamentos de Clinton para mudar as notícias de Lewinsky, quase perdoei a cobardia de Obama na manutenção de Guantánamo, tentei apagar da memória a irresponsabilidade de Hillary Clinton na Líbia e, no limite, até desejei ter Kamala Harris na Casa Branca. O desespero induz estas fraquezas.
Trump anunciava-se muito mau. A realidade revelou-se ainda mais impiedosa. A deriva fez-se em catadupa, tanto na ordem interna como no plano internacional. Sanders e Ocasio-Cortez levantavam a voz, mas ela foi submersa na irracionalidade feita política.
Foi então que me lembrei deles: de Bill Clinton, de Al Gore, de Obama, de Hillary Clinton e até, enfim, de Kamala Harris. E esperei que falassem. Em vão.
Quando Trump ameaça usar força militar contra a Gronelândia – território de um aliado NATO – ou quando desmonta, com desdém, o sistema das Nações Unidas que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, o silêncio daquelas que foram lideranças democratas de peso é perturbador. Os promotores históricos do multilateralismo, de uma ordem internacional com algumas regras ou da agenda climática permanecem ausentes do espaço público, enquanto décadas de diplomacia são desfeitas com uma penada arrogante.
Este silêncio não é neutro. É uma escolha. Quando uma potência se arroga direitos de natureza imperial sem oposição interna credível, cria precedentes. E os precedentes, como bem sabemos, raramente ficam confinados a quem os inaugura. O silêncio de hoje prepara a capitulação de amanhã.
Será então que, afinal, a tese do “eles são todos iguais” tem alguma razão de ser? No final de contas, neste momento decisivo, que é feito da outra América?
O falecimento de três pessoas enquanto esperavam por ambulâncias do INEM, na mesma semana em que este organismo implementou um novo sistema de triagem, é algo que não pode ficar sem consequências. Caso contrário, corremos o risco de, em breve, vivermos num país onde este tipo de situações passam a ser banais.
O que aconteceu nos últimos dias não é um acidente estatístico, nem um episódio isolado. É o culminar de anos de degradação acumulada no sistema de emergência médica, denunciada repetidamente pelos próprios profissionais do INEM, pelos bombeiros e por sucessivos relatórios internos. Só esta semana, três pessoas morreram enquanto aguardavam socorro – uma no Seixal, outra na Quinta do Conde e outra em Tavira – todas com tempos de espera superiores aos previstos na triagem de emergência.
Mas estes três casos recentes são apenas a face mais visível de um problema que se arrasta há anos. Em 2024, durante as greves dos técnicos de emergência pré-hospitalar, a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde abriu inquéritos a 12 mortes ocorridas nesse período, concluindo que, pelo menos, três estiveram directamente associadas a atrasos no socorro, o que já motivou a abertura de um processo criminal, três inquéritos da IGAS e outros tantas auditorias do próprio INEM.
Antes disso, já se acumulavam episódios de grávidas a dar à luz em ambulâncias, utentes deixados horas em macas nos corredores das urgências e falhas repetidas na articulação entre hospitais e meios pré‑hospitalares – um cenário que se agravou progressivamente nos últimos anos do Governo de António Costa e nos mandatos da AD, com crises sucessivas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A Comissão de Trabalhadores do INEM tem sido clara: houve “anos de forte desinvestimento”, com falhas nos recursos humanos, nos meios técnicos e na organização interna, deixando o instituto incapaz de responder às necessidades reais do país. Quando o presidente do INEM afirma que o instituto “fez o seu trabalho” e que o problema é a falta de ambulâncias disponíveis, está a admitir aquilo que todos já percebemos: o sistema está tecnicamente montado, mas operacionalmente falido.
E é precisamente aqui que reside o perigo. Quando três mortes em 48 horas deixam de ser um escândalo nacional e passam a ser apenas mais um ciclo noticioso, entramos numa zona moralmente inaceitável. Um país que normaliza a morte por falta de socorro é um país que desistiu de si próprio.
O Governo pode anunciar mais ambulâncias – como fez esta quinta-feira, prometendo 275 novas viaturas -, mas a verdade é que o problema não se resolve apenas com compras. O que falta é liderança, planeamento e coragem política para enfrentar a raiz do problema: um SNS que perdeu capacidade de resposta e um INEM que opera no limite, dependente de equipas exaustas e de uma rede de urgências frequentemente colapsada.
O que aconteceu esta semana não pode ser tratado como uma fatalidade. É uma responsabilidade. E responsabilidades têm nome, têm história e têm consequências. Se tudo ficar na mesma e nada mudar, não será preciso esperar muito para que a próxima morte por falta de socorro deixe de nos chocar. E quando chegarmos a esse ponto, teremos perdido algo muito mais grave do que um serviço público: teremos perdido a noção do que significa viver numa sociedade decente.