“Não havia ambulâncias na Margem Sul para dar resposta.” A frase é de Luís Mendes Cabral, o actual presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), ao comentar a morte de um homem de 78 anos, na terça-feira passada (6 de Janeiro), no Seixal depois de esperar cerca de três horas por assistência na Aldeia de Paio Pires, localidade que fica a 15 quilómetros do Hospital Garcia de Orta (Almada).
O caso concentrou as atenções mediáticas durante o dia de ontem e tornou-se mais um tema para a fogueira em que está a arder o INEM desde há muito tempo.
Ontem, falou-se no novo sistema de triagem, que o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar quer ver suspenso. Já o INEM garantiu que a sua resposta foi “dada dentro do prazo” e que fez o seu trabalho, pois “fez a triagem, que está correta, e fez pedido de ambulância ao fim de 15 minutos”.
Mas o ponto essencial e que deveria merecer muita atenção é apenas este: uma pessoa morreu porque esperou três horas por uma ambulância.
Aos familiares – deste idoso e de outras pessoas que têm ficado à espera de socorro, como denunciou o presidente do sindicato, Rui Lázaro – não interessam discussões sobre algoritmos ou sistemas de triagem. Esperavam era que a situação não tivesse acontecido. E que a justificação não fosse: não havia ambulâncias disponíveis na Margem Sul.
Provavelmente será essa a conclusão do inquérito que as Actividades em Saúde (IGAS) anunciou ter aberto. Ou seja, há uma grande possibilidade de ninguém ser responsabilizado por esta morte. O que, infelizmente, nem é caso raro.
Ou então a culpa será dos hospitais, que não têm camas para receber todas as pessoas que os procuram – sabendo-se que existem, por exemplo, duas mil pessoas que não deveriam estar nestas unidades de saúde, mas que não têm outro local para ser internadas -, o que obriga os veículos dos bombeiros a ficarem nos parques de estacionamento com os doentes nas suas macas.
Nunca será da falta de planeamento na área da Saúde, da ausência de médicos de família e de centros de saúde abertos mais horas para responder a casos menos críticos – como gripes mais fortes -, nem do facto de o país nunca ter sido capaz de redimensionar a sua rede de socorro às exigências de uma sociedade que se mudou para os grandes centros urbanos.
A verdade, todavia, é que situações como a do Seixal – que reivindica há anos um hospital no concelho – continuam a existir. E isso deve envergonhar qualquer responsável, político ou não, ligado à Saúde.
Saímos das festas para o dever cívico de eleger um Presidente da República. Ora o nosso Presidente, isto é, o Chefe do Estado que a nossa Constituição desenhou, não sendo o tranquilo protagonista da inauguração de exposições florais, que o parlamentarismo puro propugna, nem o verdadeiro Chefe do Executivo que o presidencialismo determina, assume na realidade um papel interveniente na cena política, sem ter por isso poderes executivos, que não sejam o de Supremo Comandante das Forças Armadas, bem como a faculdade de demitir o Governo, de dissolver a Assembleia da República e de vetar ou enviar para o Tribunal Constitucional os projectos de lei do Governo.
Deste modo, inspirados nalgum pensamento constitucionalista francês, de Benjamin Constant a Maurice Duverger, adoptámos um semi-presidencialismo mitigado, que não deu ao nosso Presidente os poderes que ele detém em França, mas, ao tê-lo eleito pelo sufrágio universal e não pela Câmara dos Deputados, forçosamente lhe conferiu uma maior legitimação política, que o colocou entre o “poder moderador” de Constant e o ambíguo “poder de influência”, que detém fundamentalmente em função da sua eleição directa.
Cada um dos presidentes da nossa democracia interpretou à sua maneira o alcance e o conteúdo dos poderes presidenciais, já sensivelmente recortados pela revisão constitucional de 1982. Mas, se da prática dos nossos anteriores Chefes do Estado se podem extrair conclusões genéricas sobre o poder real da Presidência no nosso sistema político, resulta também das lições do passado a importância decisiva da própria personalidade de quem exerce tais funções, do seu reconhecimento popular, das suas capacidades de intervenção e de equilíbrio, de um seu poder de influência generalizado a todo o conjunto dos partidos democráticos.
Conhecermos assim o pensamento político próprio e a abertura ao diálogo democrático de todos e de cada um dos candidatos parece-me um direito inalienável de cada eleitor para formar a sua escolha. Não compreendo, assim, as advertências de quem vem recordar o que já sabemos (que o PR não tem poderes executivos, que cabem ao Governo), como se nos devesse ser indiferente a personalidade, a formação e as escolhas de quem elegemos para a função topo da pirâmide do nosso sistema político.
O famoso “presidencialismo de primeiro ministro”, que definiu o mandato de Salazar, não foi de modo algum o modelo que os nossos constituintes quiseram. O equilíbrio de uma função presidencial exercida com ideias fortes para o país e com vontade séria de diálogo com todas as forças democráticas tem sido essencial no percurso histórico da nossa democracia.
Acrescento um ponto: no presente momento histórico que a Europa e o Mundo atravessam, em que as grandes potências simplesmente puseram de lado o Direito Internacional, o Chefe do Estado, Comandante Supremo das Forças Armadas, assume um papel ainda mais importante e que exige maior prudência e ponderação. Termos em Belém alguém que revele esse sangue frio e essa prudência esclarecida parece-me essencial neste momento.
E é por esse conhecimento e por esse realismo que, por mim, escolho jogar pelo seguro.
Quando estamos perante umas eleições presidenciais com o maior número de candidatos de sempre, é inevitável que o debate sobre o voto útil ganhe centralidade. Foram apresentadas 14 candidaturas, das quais 11 foram admitidas e constarão do boletim de voto; sete contam com apoio formal de partidos políticos, incluindo os maiores partidos à esquerda e à direita do sistema.
Nunca houve tantas candidaturas presidenciais simultâneas, nem uma concorrência tão intensa pelo mesmo espaço eleitoral. Há quem entenda que o voto verdadeiramente útil é, desde logo, o voto no mal menor para travar um mal maior. Essa leitura existe e não é nova. Votar continua, ainda assim, a ser um ato político com consequências institucionais.
É uma das marcas centrais da democracia representativa e muito difícil de relativizar num tempo em que esse direito é, em vários contextos, posto em causa ou simplesmente desvalorizado. Também por isso, há quem veja na lógica do mal menor uma forma legítima de voto útil, racional e estratégico. Pode até, para muitos, ser mesmo um voto por convicção.
Por outro lado, não votar no mal menor na primeira volta não tem de ser confundido com um gesto irreflectido, emocional e irresponsável. A convicção implica também avaliar percursos, distinguir candidaturas com solidez institucional e assumir que cada eleitor vote em quem realmente se reveja e gostasse de ver em Belém.
A responsabilidade de um voto por convicção obriga também a afastar exercícios de encenação, discursos inconsequentes ou meramente performativos. Uma eleição presidencial não é um espaço de espectáculo. O voto tem peso e deve ser tratado como tal.
Nada disto elimina os riscos. Num quadro de dispersão, o voto por convicção na primeira volta pode reduzir probabilidades de afastar determinados campos políticos da fase decisiva. Reconhecer esse efeito faz parte da maturidade democrática: saber o que se afirma com o voto e aceitar as consequências dessa escolha.
Este dilema seria, no entanto, menos relevante se os candidatos apoiados pelo maior partido da esquerda e pelo maior partido da direita conseguissem mobilizar e agregar todo o respectivo eleitorado. Se muitos eleitores admitem hoje outras opções, isso resulta da perda de capacidade de representação e de confiança nesses candidatos. Nas presidenciais, vota-se numa pessoa, num perfil e num percurso – não numa sigla partidária.
Nesse sentido, ampliar as opções disponíveis não é, por si só, um problema democrático. Pode ser um sinal de vitalidade. Uma democracia empobrece quando obriga o eleitor a escolher sempre entre os mesmos pólos, mesmo quando estes deixaram de responder às suas expectativas. Na primeira volta, essa abertura pode ser não apenas legítima, mas politicamente relevante.
É neste quadro que os apelos ao voto útil devem ser lidos – e de forma desigual. À esquerda, a pressão é hoje maior, porque a fragmentação coloca um risco real de exclusão da segunda volta. António José Seguro defendeu que a dispersão de votos no seu espaço político pode inviabilizar a passagem de um candidato de centro-esquerda à segunda volta.
Os eleitores que se revêm em candidaturas como as de Jorge Pinto, António Filipe ou Catarina Martins enfrentam um dilema estratégico claro: sem uma concentração significativa dos votos num candidato, a possibilidade de esse campo político chegar à segunda volta torna-se reduzida. O apelo à concentração assume aí um carácter quase existencial.
À direita, o cenário é diferente. A existência de várias candidaturas com potencial competitivo – incluindo uma candidatura sem apoios partidários, como a de Henrique Gouveia e Melo, com capacidade de captar eleitorado de diferentes áreas políticas – reduz a pressão para uma concentração imediata do voto.
O primeiro-ministro Luís Montenegro defendeu publicamente a concentração de votos em Luís Marques Mendes, apresentando essa escolha como forma de travar o avanço do populismo e garantir uma alternativa moderada forte. O debate desloca-se, assim, menos para a sobrevivência eleitoral e mais para a escolha de posicionamento e de perfil político.
Ainda assim, convém não confundir momentos. A primeira volta não é o espaço natural do “mal menor”. A sua função é permitir escolhas, clarificar preferências e definir limites. Se isso significar que um dos pólos não está representado, é essa a escolha dos portugueses. O povo é soberano.
O voto útil, nesta fase, pode ser entendido como voto consciente, não como voto condicionado pelo medo ou pela antecipação do desfecho final.
A divisão de águas surge depois. Na segunda volta, quando a escolha se reduz a duas opções, o voto muda inevitavelmente de natureza. Alguns votarão por convicção plena; outros votarão para impedir o que consideram inaceitável. Essa lógica faz parte do sistema. Mesmo assim, numa eleição presidencial, essa utilidade não é menor. É essencial.
Diário de Notícias
Valentina Marcelino
Directora Adjunta do Diário de Notícias
07.01.2026
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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Não é que seja inédito ver um país forte a fazer o que quer dos mais fracos; não é que nunca tenhamos assistido a invasões, ocupações e “operações especiais” ilegais. A novidade é mesmo a assunção sem disfarce da extorsão mafiosa como princípio — e, ainda assim, tanta gente a fingir que não vê.
Para quem seja capaz desse distanciamento (muito aconselhável para não se enlouquecer), há grande capital de diversão nos últimos acontecimentos. Desde logo pelo espectáculo que é ver muitos dos que invectivaram o PCP pelo seu vergonhoso discurso sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, um discurso que se esforçava por justificá-la sem sequer a nomear, a adoptar agora o mesmíssimo tipo de retórica (e, ao contrário, assistir à delícia que é o rasgar de vestes de PCP e amigos, de repente tão indefectíveis da soberania dos países e do Direito Internacional, com a acção dos EUA na Venezuela).
✊ Perante a agressão dos EUA contra a Venezuela, reafirmamos a nossa solidariedade com o povo venezuelano.
‼️ O que está em causa é um ataque a um Estado soberano, uma ingerência externa ilegal e uma tentativa de decidir, pela força, o futuro de um povo e o controlo dos seus… pic.twitter.com/JhJWT6xXQf
✊ Perante a agressão dos EUA contra a Venezuela, reafirmamos a nossa solidariedade com o povo venezuelano.
Se no caso do PCP, na sua retórica sobre a invasão da Ucrânia, a palavra chave foi — e continua a ser — a “paz” (“Somos a favor da paz, nós só queremos a paz”), nos que procuram justificar a intervenção de Trump na Venezuela o mote é a democracia: “Somos a favor da democracia, nós só queremos a democracia”.
Só há um problema, o mesmo com o qual esbarrava a argumentação (se lhe podemos assim chamar) de PCP e apaniguados: a clareza da justificação apresentada por Trump e seus ministros para a acção na Venezuela, como antes fora clara a justificação de Putin para invadir a Ucrânia. Se, em suma, Putin afirma que a Ucrânia não existe, porque é e nunca foi outra coisa senão parte da Rússia (para além, claro, de certificar que o governo ucraniano é ilegítimo, criminoso e nazi), Trump diz que a Venezuela, ou seja, os seus recursos naturais, passa a ser propriedade dos EUA (melhor dizendo sua propriedade).
Recordemos que no sábado (16H40 na hora portuguesa) Trump assumiu perante os media, de viva voz, isso mesmo sem qualquer hesitação: que os EUA iam “controlar” o país e empresas americanas iam tomar conta das respectivas reservas de petróleo. Ou seja, anunciou um plano de extorsão.
E não só não usou, sequer uma vez, a palavra democracia como afastou a possibilidade de que a mulher apresentada como a líder da oposição venezuelana, recipiente do mais recente prémio Nobel da Paz pelos seus alegados esforços em prol da instauração de um regime democrático no país (Maria Corina Machado), possa ser a pessoa por si escolhida para assumir o poder. Disse aliás esperar que o restante governo venezuelano, ou seja o regime de Maduro, se mantenha, sem Maduro, em funções sob as suas ordens — sob pena de outro show de força.
A preocupação de Trump com a instauração de uma democracia na Venezuela é de resto tão intensa como a que demonstra com o processo democrático no seu próprio país: assumiu esta segunda-feira que, se não pediu a necessária autorização do Congresso para aquilo que só pode ser descrito como um ato de guerra e nem sequer teve o cuidado de o informar previamente, falou, antes e depois da intervenção, com as empresas petrolíferas americanas. Privilegiou o que sempre privilegia: os negócios.
De resto, logo no sábado, em conversa telefónica com a Fox News, anunciara já que tencionava fazer a mesma coisa noutros países: “Fizemos uma coisa incrível ontem à noite, e podemos fazê-lo outra vez, vamos fazê-lo outra a vez. Ninguém nos pode impedir, ninguém tem a mesma capacidade.”
Difícil ver diferença em relação ao que na lei americana é referido como o crime de “racketeering”, ou “prática de negócio coerciva”, e que estamos habituados a ver nos filmes de mafiosos: uma organização criminosa oferece “protecção” a uma empresa ou negócio, desde que essa empresa ou negócio passem a funcionar como seus, entregando-lhe uma parte, quando não todo, o produto da laboração. Uma prática simbolizada na célebre frase “fiz-lhe uma oferta que ele não pôde recusar”, do filme O Padrinho, de Francis Ford Coppola.
Mas, bom, há quem persista no desígnio de apresentar tudo isto como tendo “intenções benignas”. É o caso do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. Falando no sábado horas após as primeiras declarações de Trump à imprensa, Rangel recusou condenar a acção dos EUA ou sequer qualificá-la como infringindo o Direito Internacional.
“Em termos de doutrina internacional, há muitos, diria que a maioria, que consideram uma operação feita nestes termos, independentemente das suas intenções, que são benignas, não conforme ao Direito Internacional”, disse o governante. “Mas também, atendendo à ilegitimidade de Maduro, e designadamente à ideia da criação de uma elite de Narco-Estado, há também quem entenda que possa haver algum grau de legitimação dessa intervenção.”
Numa obscena cambalhota retórica, Rangel quis inclusive colar quem defende o respeito pelo Direito Internacional à defesa de Maduro: “O que é que defendem as pessoas focadas nessa questão [da violação do Direito Internacional] é o que pergunto: quando se diz que é uma intervenção ilegítima, o que se quer dizer é que devíamos voltar à situação anterior? O que propõem como solução? É devolver Maduro ao governo da Venezuela?”
É algo fascinante ver um jurista reputado a desconsiderar a classificação de uma acção, que segundo noticiado matou dezenas de cidadãos venezuelanos, incluindo civis, como legal ou ilegal — e ainda mais quando se trata da mesma pessoa que como ministro dos Negócios Estrangeiros convocou há apenas quatro meses o embaixador russo para pedir explicações sobre a violação do espaço aéreo polaco por drones russos.
E mais fascinante ainda se torna quando umas horas depois das citadas declarações de Rangel ouvíamos Trump a concretizar o seu desejo de repetir a “coisa magnífica” perpetrada na madrugada de sábado dando o exemplo da Colômbia e — alô, Europa? Está aí alguém? — da Gronelândia como os fregueses que se seguem. Decerto sempre com as mais benignas das intenções, já que sobre isso não conseguimos ainda ouvir um pio de Rangel, do primeiro-ministro ou do Presidente da República ou dos muitos que continuam obstinadamente a defender a acção dos EUA na Venezuela como “pela democracia” e como defesa legítima do país contra o narcotráfico e a criminalidade organizada e etc e tal.
Podem sempre dizer que não estão sós, pelo contrário: a esmagadora maioria dos líderes europeus, à excepção do governo espanhol (o único a condenar a intervenção dos EUA na Venezuela) e, pour cause, do governo dinamarquês (cujo embaixador nos Estados Unidos, compreensivelmente nervoso, foi para o Twitter lembrar que a Dinamarca faz parte da NATO e que sempre colaborou com os Estados Unidos em matérias de defesa), estão a fingir que não deram por nada. O primeiro-ministro britânico e vários outros membros do seu governo rivalizaram amplamente com Rangel nas figuras tristes nas TV, com jornalistas a qualificarem as respostas de “patéticas”, e Macron produziu um tuite lamentável em que só faltou bater palminhas e agradecer a Trump.
Sabemos que há muito a perder, sem dúvida, que no meio de tudo isto o destino da Ucrânia está cada vez mais periclitante e que é decerto também com os ucranianos em mente que os líderes europeus medem as palavras — ainda que caiba lembrar que no seu testemunho de 2019 ante o Congresso, Fiona Hill, ex-membro do gabinete de Trump, falou de uma proposta russa de “trocar” a Ucrânia pela Venezuela.
Sabemos que a Europa ainda não se capacitou de que tem de encontrar ganas para enfrentar um mundo no qual não conta com os EUA como aliado, pelo contrário, e para convencer os seus cidadãos de que é preciso lutar ou rendermo-nos. Mas quanto mais tarde levantarmos a cabeça mais hipótese há de que já não a tenhamos — costuma ser assim quando nos havemos com mafiosos.
Não, esta crónica não está no tempo certo. Esta semana eu deveria falar de paz, de harmonia entre os povos, de tranquilidade, de convivência em tempo natalício.
Mas como fazê-lo quando o mundo está polvilhado de guerras, quando as potencialidades dos países são canalizadas para o esforço bélico, para os egoísmos territoriais. Não se ouve falar de paz. Não escutamos, preferencialmente, palavras de amizade entre os povos.
A contabilidade da guerra dá-nos um número impressionante de pequenos conflitos espalhados por diferentes geografias e de grandes guerras noutras latitudes.
Há em todo o planeta cerca de 50 guerras e incidentes bélicos de diferentes dimensões.
A qualquer continente onde vamos encontramos sinais de guerra. No continente africano, na Etiópia, há conflitos entre forças governamentais e milícias locais. A Etiópia é apenas um dos cinco países africanos onde se registam guerras de diferentes dimensões. A paz não existe no Congo, na Nigéria, no Sahel, ou ainda nos Camarões onde há escaramuças embora de baixa intensidade.
Mas se pensarmos na Ásia este continente regista , igualmente, situações de conflitos armados. Teremos, por exemplo, de ter cuidado se quisermos visitar a Caxemira, porque, com frequência verificam-se confrontos entre a Índia e o Paquistão. Ambos os países reivindicam a posse daquele território. Ainda na Ásia, surgiram, recentemente, problemas em Myanmar, (antiga Birmânia). E no Afeganistão, após a saída dos norte-americanos, há frequentes episódios de conflitos entre grupos armados.
Passando agora para a Europa e antes de entrarmos nos grandes dossiers bélicos, há uma tensão política latente que pode agravar-se a qualquer momento entre a Sérvia e o Kosovo. E na Moldávia a situação pode, igualmente, escalar a qualquer momento.
Todavia de maior gravidade no Mundo temos, actualmente, três grandes guerras que causam milhões de mortos e consomem enormes quantias de dinheiro que poderiam e deveriam ser canalizadas para fins pacíficos e que resultassem em benefícios para as populações que delas carecem.
Rússia/Ucrânia, Israel/Palestina e Sudão. Estes são as três guerras que, verdadeiramente, tornam este Natal particularmente sangrento
Senão vejamos!
Na invasão da Ucrânia pela Rússia os ucranianos desde o inicio do conflito já perderam cerca de 70 mil soldados e os russos 152 mil. Se juntarmos aos militares o número de civis apontados pelas Nações Unidas temos de acrescentar mais 14 mil civis mortos e 38 mil feridos ucranianos. Quanto a custos de guerra a Ucrânia, desde o início do conflito, já gastou 320 biliões de dólares e estima-se que a reconstrução da Ucrânia, um dia, possa vir a custar qualquer coisa como 524 biliões de dólares.
Relativamente a custos de guerra da invasão russa, Moscovo já gastou 250 biliões de dólares até ao meio do ano de 2024. Acrescentando as sanções aplicadas pelo Ocidente e as percas económicas o custo da guerra para a Rússia atingiu, até hoje, os 1,3 triliões de dólares, o que justifica as dificuldades financeiras que se fazem sentir no Kremlin.
Passando ao segundo conflito mundial mais grave, a guerra Israel/Palestina, na faixa de Gaza, custou a vida a 60 mil palestinianos, enquanto do lado de Israel há a registar a morte de 1300 israelitas, sobretudo nos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023. A reconstrução da faixa de Gaza de acordo com valores estimados pelas Nações Unidas pode atingir os 80 biliões de dólares.
E neste percurso bélico chegamos , finalmente, ao Sudão um conflito que passa discreto no Ocidente mas cujas consequências são devastadoras. Com inicio em Abril de 2023, a guerra no Sudão já provocou 14 milhões de deslocados, fome, epidemias e 150 mil mortos. O conflito verifica-se entre o governo sudanês e as RSF, um grupo paramilitar surgido no Darfur no ano 2000.
Como não falar, então, de um Natal sangrento com este panorama mundial. Resta-nos a esperança para futuro? Sim, claro, a esperança é a última a morrer.
Mas há uma pergunta a fazer? Qual o balanço da actividade das inúmeras organizações que existem para promover a paz. Afinal, qual o resultado do seu trabalho? As Nações Unidas o que conseguiram fazer até agora para reduzir a selvajaria destes conflitos. E a OSCE, Organização de Segurança e Cooperação na Europa, criada por influência soviética, qual o balanço da sua acção em prol da paz? Praticamente nenhuma. Os países sobrepuseram-se à lógica pacifista que devia emanar destas organizações.
Com este panorama mundial, além de estarmos todos sentados num barril de pólvora, como poderemos falar em termos mundiais de um Natal que não seja, inevitavelmente, sangrento.
Sobreviver ao Natal é, antes de mais, sobreviver à ideia do Natal. Essa versão polida, cintilante e feliz que nos vendem desde pequenos: famílias perfeitas, mesas fartas, abraços espontâneos, reencontros emocionados. A realidade, claro, raramente cabe nesse postal ilustrado. Mas todos fingimos que cabe, e é aí que começa o sufoco.
Há uma pressão silenciosa – e por isso mesmo mais pesada – para estarmos felizes. Não apenas bem-dispostos, mas felizes com maiúscula, como se a alegria fosse um interruptor que se liga no dia 24. E se não estamos, sentimos culpa. Como se a tristeza, as saudades, a raiva ou o medo fossem, não emoções perfeitamente válidas e legítimas, mas sim uma falha de carácter.
Depois há o convívio forçado. Aquelas pessoas com quem mantemos relações distantes, tensas ou simplesmente esvaziadas, mas que, por decreto natalício, se tornam “família”. Sentamo-nos à mesa com elas, trocamos frases educadas, sorrimos para não estragar o ambiente. E, no fundo, contamos os minutos até poder respirar outra vez. Não é maldade. É humanidade. As relações interpessoais são complexas, e o Natal não tem o poder mágico de as simplificar.
E depois os presentes. Pequenos objectos que tentam ocupar o lugar de grandes ausências. Compramos coisas para dizer “pensei em ti”, quando o que queríamos mesmo era dizer “sinto a tua falta”, “não sei como chegar a ti”, “gostava que estivesses aqui de verdade”. Mas embrulhamos tudo em papel brilhante, porque é mais fácil oferecer um objecto do que oferecer vulnerabilidade.
E, enquanto isso, esbanjamos. Enchemos mesas, carrinhos, sacos, como se o excesso fosse uma forma de redenção. Mas há quem passe fome, frio, solidão… e não apenas em Dezembro. A solidariedade nesta época do ano é bonita, necessária até, mas não chega. Não resolve. Não transforma. É um gesto que aquece o momento, mas não muda problemas estruturais. E talvez o Natal também doa por isso: porque nos lembra, com luzes demasiado fortes, o contraste entre o que temos e o que falta a tantos.
Sobreviver ao Natal, então, talvez seja isto: permitir-nos ser humanos. Não corresponder à expectativa de felicidade obrigatória. Estabelecer limites com quem nos desgasta. Aceitar que algumas relações não se resolvem só porque é Dezembro. E perceber que nenhum presente substitui uma presença – mas que, às vezes, é o melhor que conseguimos dar.
No fundo, sobreviver ao Natal é desistir da fantasia para abraçar a realidade. E, quem sabe, encontrar aí um bocadinho de paz. Não a paz perfeita das campanhas publicitárias, mas a paz possível. A paz honesta. A paz que chega quando deixamos de fingir.
Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal
Foi publicado na Nature Climate Change um pequeno artigo intitulado “The Political Psychology of Climate Denial”, de Alon Tal e Shlomit Paz, revelando que a negação das alterações climáticas não é fruto de ignorância, mas de uma estratégia política deliberada, sustentada por mecanismos psicológicos que moldam percepções e comportamentos.
Os autores explicam que “a persistência e a disseminação da negação não podem ser explicadas apenas por oportunismo político”. Há forças psicológicas que tornam a rejeição da ciência confortável, até “virtuosa”. Entre elas destacam-se algumas dessas forças:
· Distância psicológica, que faz parecer que os impactos são longínquos e irrelevantes à nossa vida;
· Enviesamento de disponibilidade, que desvaloriza tendências globais quando não há eventos extremos locais;
· Dissonância cognitiva e raciocínio motivado, que justificam hábitos ameaçados pela transição climática;
· Enviesamento da confirmação, alimentado por redes sociais e “especialistas” alinhados com as ideias anti clima;.
· Aversão à perda, que transforma políticas climáticas em supostas ameaças económicas e ao bem-estar actual;.
· Ansiedade existencial e identidade social, que tornam a negação um sinal de pertença e defesa psicológica.
Este quadro liga-se directamente aos estudos de Daniel Kahneman, Nobel da Economia, que demonstrou como enviesamentos cognitivos afectam decisões, mesmo entre gestores experientes. Quando confrontados com riscos ambientais, muitos líderes empresariais não escolhem a melhor solução, mas a mais confortável para reduzir dissonância ou evitar perdas imediatas. Como Kahneman escreveu em Thinking, Fast and Slow: “As pessoas não escolhem entre opções, escolhem entre descrições das opções”. E quando essas descrições são manipuladas politicamente, a racionalidade desaparece.
O artigo sublinha que “factos isolados raramente mudam opiniões”. Para contrariar a negação, é preciso comunicar melhor, com mensagens locais, vozes credíveis e estratégias que considerem emoções e valores. Caso contrário, a manipulação continuará a minar a acção colectiva.
Estas técnicas não são casuais. São instrumentos de poder, usados para travar políticas urgentes e manter narrativas convenientes. Quando a verdade científica é relativizada e a opinião pública é conduzida por vieses emocionais, o risco vai muito além da crise climática – ameaça a própria integridade da democracia.
Em jeito de fim de ano, e de equacionar o 2026 que já se avizinha penso ser fundamental não cedermos à tentação de nos alhearmos da sociedade inacreditável, rude e perigosa para onde parece estarmos a caminhar. Se queremos um futuro baseado em conhecimento e responsabilidade, temos de comunicar melhor – mas também limitar a propagação deliberada de mentiras. A liberdade de expressão não pode ser confundida com liberdade para manipular.
Começo este artigo com uma declaração de interesses: o caso que vou relatar aconteceu com um familiar e, na minha opinião, mostra bem o que pode enfrentar quem procura o Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Todos já ouvimos falar, assistimos a imagens e lemos declarações mais ou menos inflamadas sobre as dificuldades que médicos, enfermeiros e restante pessoal que trabalha no SNS enfrenta diariamente. Tal como ouvimos os utentes a dizer que não têm médico de família (em Novembro havia 1,5 milhões de pessoas nessa situação) ou que têm de ir para o centro de saúde de madrugada para tentar uma consulta.
Passemos então ao caso que referi no início. Na sexta-feira passada – um dia depois da greve geral a que Federação Nacional dos Médicos aderiu para protestar contra uma proposta de reforma da legislação laboral que considera “um retrocesso profundo para o Serviço Nacional de Saúde (SNS)” –, um familiar acordou com dores no corpo e febre que se juntaram à rinite alérgica que tem. Sabendo do aumento de casos de gripe e da sua gravidade decidiu cumprir aquilo a que tanto têm apelado os responsáveis pela Saúde e ligou para a Linha SNS24.
Atendido rapidamente e depois de responder às perguntas que lhe fizeram ficou com duas indicações: tomar Ben-u-ron para a febre e uma consulta marcada para o centro de saúde de referência no dia seguinte – sábado. Ou seja, a máxima “Ligue antes, salve vidas” parecia estar a funcionar e, assim, a conseguir evitar idas às urgências dos hospitais tão sobrecarregadas.
Mas – há sempre um mas – este cenário de tudo a funcionar bem caiu por terra quando recebeu uma chamada do centro de saúde a comunicar que a consulta tinha sido anulada porque o médico não “apareceu” e não havia mais nenhum disponível. Ao mesmo tempo foi-lhe dito que não lhe iriam marcar nova consulta, que tinha de ligar para a Linha SNS24.
Ora, esta situação é ilegal uma vez que, como foi denunciado no mais recente relatório da Entidade Reguladora da Saúde (divulgado pelo DN no passado dia 5), os utentes “não podem ficar sem acesso a assistência em cuidados de saúde”, pois isso “viola a Constituição Portuguesa e a Carta dos Direitos e Deveres dos Utentes”. O documento frisa também que a remarcação da consulta “é da responsabilidade da unidade de saúde”.
Além disso, a falta do médico (as razões só ele e o centro de saúde saberão) também levanta questões. Uma delas é: qual a razão de só haver um clínico a trabalhar naquele dia e, provavelmente, um tarefeiro sem ligação obrigatória à unidade?
Portanto, quando entre 1 e 7 de Dezembro os casos de infecção respiratória aguda representaram 8,1% das 128.602 urgências hospitalares, a um utente doente – após um teste ficou a saber que tinha gripe A – só restava uma de duas soluções: ir para as urgências e esperar uma dezena de horas para ser atendido ou ficar por casa a medicamentos.
Conclusão: fez auto-medicação. E não entrou para as estatísticas da DGS que, por este exemplo, não devem ser muito fiáveis.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos marca uma ruptura profunda com a ordem construída ao longo das últimas oito décadas. A administração Trump não procura reformar o sistema multilateral, mas substituí-lo, e fá-lo com uma clareza desconcertante ao afirmar que na política externa e de defesa “America First” não é um slogan eleitoral, mas a bússola oficial da maior potência mundial.
A primeira ruptura é conceptual. A estratégia declara, sem rodeios, que o ciclo de globalismo do pós Guerra Fria terminou. As instituições multilaterais, que durante décadas foram essenciais para moderar tensões, arbitrar conflitos e equilibrar ambições, surgem agora retratadas como limitações injustificáveis à acção dos Estados Unidos. A administração Trump propõe um regresso a um mundo pré institucional, onde a força, a transacção imediata e o cálculo de oportunidade se sobrepõem a qualquer ideia de bem comum internacional.
A segunda ruptura é económica e confirma o retorno ao proteccionismo estratégico. A China é apresentada como a principal distorção do comércio global e a resposta americana passa por uma reindustrialização agressiva, pela protecção de cadeias de valor críticas e por alianças condicionais onde os parceiros alinham não por convicção, mas por necessidade. Para a Europa, esta é a escolha desconfortável entre ficar dependente de Washington ou aceitar um confronto económico, mesmo que indirecto, com o seu principal aliado histórico.
A terceira ruptura é estratégica e possivelmente a mais disruptiva. Para a administração Trump, os Estados Unidos deixam de ser o garante da segurança europeia. Os aliados devem assumir a responsabilidade primária pela defesa do continente, expressão diplomática que equivale a afirmar que a Europa está sozinha. Já não basta gastar mais. É preciso construir, de raiz, uma arquitectura de segurança europeia sustentada em recursos, capacidades e decisões próprias.
Com esta retirada americana, o multi-lateralismo das últimas oito décadas perde o seu pilar central e a Europa tem de decidir se quer ser protagonista ou figurante num sistema internacional em acelerada fragmentação. Tem de transformar peso económico em poder político, autonomia militar em soberania efectiva e diplomacias nacionais dispersas numa estratégia comum. Se falhar, será empurrada para a irrelevância num mundo cada vez mais organizado em blocos que disputam hegemonia e sobrevivência.
O desafio é monumental. A Europa precisa de uma base industrial de defesa robusta e autónoma. Precisa de falar com uma só voz em política externa, mesmo quando isso implicar enfrentar divergências internas profundas. Precisa de transformar o mercado comum num verdadeiro instrumento de poder geo-económico. E precisa, sobretudo, de coragem estratégica para ocupar o espaço que o mundo lhe oferece e para impedir que outros o ocupem por ela.
Para se substituir aos Estados Unidos como potência normativa global, a Europa terá de construir novas alianças, dialogar com democracias mas também com países que não partilham integralmente os seus valores, e erguer pontes onde outros erguem muros. Esta será a condição para continuar a defender um modelo internacional baseado em regras, abertura e cooperação.
Hoje, a linha que separa uma Europa estratégica de uma Europa irrelevante é mais fina do que parece. E num mundo em fragmentação acelerada, repetir erros antigos não seria apenas imprudente. Seria fatal, porque a História não espera por atores indecisos e não perdoa hesitações estratégicas.
Está a ficar cada vez mais difícil responder a perguntas de colegas estrangeiros sobre a situação migratória em Portugal. Quando não são cartazes que nos envergonham, é uma Lei de Nacionalidade que retrocede décadas. Quando não são imigrantes separados da família no aeroporto, são notícias de redes de tráfico humano que envolvem precisamente os agentes responsáveis pelo seu controlo. E começamos a assistir a isto como se fosse um “novo normal”.
A investigação recente da Polícia Judiciária, que resultou na detenção de dez militares da GNR, um agente da PSP e seis civis, dá conta de um esquema clássico de escravatura moderna: centenas de imigrantes do sul da Ásia, Timor-Leste e países africanos vieram para Portugal em busca de trabalho, acabando por ser explorados em condições de destituição total, amontoados sem direitos básicos, mantidos num verdadeiro clima de terror. Mais: os suspeitos assegurariam ainda às vítimas que denunciar às autoridades seria inútil.
Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) 2024, 76% das sinalizações de tráfico de pessoas em Portugal estão relacionadas com exploração laboral, principalmente na agricultura, construção civil e trabalho doméstico. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) confirma que desde 2022 a exploração laboral ultrapassou a exploração sexual como causa predominante de tráfico a nível global. Portugal segue esta tendência deplorável: os migrantes tornaram-se os novos escravos do século XXI.
Note-se que o crime de tráfico nem sempre é fácil de comprovar: ele requer a prova de uma actividade, como aliciar, transportar ou alojar pessoas, através de um meio, como violência, ardil ou abuso de autoridade, e com uma finalidade, que será a exploração da pessoa.
Não raras vezes não se consegue comprovar o envolvimento dos suspeitos nos três elementos referidos, pelo que acabam por ser condenados apenas por um deles, como por exemplo por exploração. Enquanto isso, observamos, impotentes, um abismo entre a gravidade moral do crime e a resposta penal que efectivamente recebe.
As normas internacionais e europeias exigem que o país onde se detectou uma situação de tráfico proceda imediatamente à protecção e recuperação das vítimas. Importa ainda assinalar que a nossa lei de imigração prevê a concessão de um título de residência para as mesmas, desde que elas cortem quaisquer relações com os envolvidos nos crimes.
Contrariamente a outros países da UE, Portugal não exige que as vítimas de tráfico colaborem com as autoridades. Trata-se de uma solução justa, que tem em conta receios de represálias, e visa dar alguma compensação por este inaceitável falhanço do Estado no que toca à prevenção de tal crime.
Um dia leremos isto nos livros de História. Serão realizados filmes sobre esta escravatura. E as gerações futuras perguntarão: como conseguiram viver com isto? Como permitiram que isto acontecesse nos seus países, nos seus campos, nas suas cidades? É insuportável a ideia de nos habituarmos a isto. O mínimo que posso fazer é o reconhecer e expressar a vergonha profunda que estes casos nos deixam. Aqui, e lá fora.
Professora Auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Diário de Notícias
Ana Rita Gil
Professora da Faculdade de Direito da Universidadede Lisboa. Investigadora do LisbonPublic Law
30.11.2025
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