383: A Figura do Dia. O cravo de Seguro

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OPINIÃO 🇵🇹🕊

Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.

Parece difícil de acreditar que muitos de nós não tenham orgulho num dos momentos mais bonitos e identitários de ser português – enquanto na Guerra Civil espanhola morreram mais de meio milhão de pessoas, não contabilizando os 100 mil que desapareceram, em Portugal preferimos armar as espingardas com cravos a matar-nos uns aos outros.

“António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa (…).”
FOTO: Leonardo Negrão

Os cravos são um símbolo da democracia, não necessariamente um património exclusivo da esquerda. Representam a vida em oposição à morte, a esperança em oposição ao medo, o optimismo em oposição ao fatalismo. É o símbolo da nossa inocência, de uma ingenuidade poética que me emociona e orgulha.

É também um abraço à memória de uma mulher, a dona Celeste, que começou a distribuir, por puro instinto, cravos aos soldados revoltosos, entusiasmando vendedoras de várias praças de Lisboa a fazerem o mesmo.

Não é bonito? Não é extraordinário? Não foi um verdadeiro milagre?

“Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.”

Renegar os cravos é virar as costas ao que temos de melhor, ao símbolo mais poderoso da tolerância democrática, da liberdade colectiva e individual.

Vamos lá a ver, António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa, por ser intolerante com o ressentimento dos que prefeririam que os cravos não existissem… ou a democracia.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
27.04.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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378: EUA-Irão: a escalada, o jogo político e a saída possível

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🇵🇹 OPINIÃO

Constantemente promovido pelos canais televisivos e por outros meios de comunicação social – incluindo as plataformas digitais –, o espectáculo político funciona como uma droga de efeito rápido: estimula, excita, mas não alimenta; promete cura, mas não trata a doença. E depois, quando a adrenalina baixa, volta a pergunta que incomoda: onde estão os resultados? No dia a dia, o que resta são os custos exorbitantes dos combustíveis, da Saúde, da habitação e de tudo o resto, somados a uma sensação crescente de insegurança.

Passado o efeito, fica tudo na mesma – ou pior. O circo acaba, com o tempo, por revoltar o espectador contra os actores políticos, que não produzem resultados, e contra os comentadores, que falham previsões como quem troca de camisa. É uma política feita para a fotografia: o essencial é manter-se visível, no centro da arena.

Quando os resultados não se materializam, a estratégia costuma mudar de direcção: ou se anunciam reformas em catadupa (no estilo faz-de-conta), ou se aumenta a polarização e se procura um inimigo a quem atribuir todas as culpas. O espectáculo pode mobilizar multidões – pode, até, ganhar eleições. Mas é o resultado concreto que sustém o poder e, por algum tempo, garante a paz social.

Ou então, para continuar no poder, o mau líder tenta destruir – ou, pelo menos, enfraquecer – as instituições que sustentam os regimes democráticos. Se é um fascista, procura capturá-las, subjugá-las, torná-las inteiramente obedientes. Se é um populista, o objectivo é mais rasteiro: reduzir a capacidade de controlo e fiscalização, eliminar os travões. A partir daí, manda-se como se quer.

Nero, um imperador errático, cultivava obsessivamente a adulação popular e o culto da personalidade. Projectar-se como figura divina – de Apolo ao Sol – e governou quase sempre em confronto com o Senado. Trump não pode ir tão longe num sistema com separação de poderes e uma imprensa plural.

Mas tem tentado empurrar os limites: minimizar o papel do Congresso, pressionar a Justiça, atacar governadores democráticos, condicionar os media e as plataformas sociais. E, quando convém, volta ao velho expediente das operações militares externas: projectar força, ocupar o ciclo noticioso, galvanizar franjas do eleitorado.

À falta de resultados que melhorem o quotidiano das famílias, ataca as fundações da democracia e explora o nacionalismo: os EUA são apresentados como a potência número um na cena internacional. Tudo isto é feito com o calendário eleitoral a apertar: aproximam-se as eleições intercalares de 3 de Novembro.

Nesse dia estará em jogo o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes, vários lugares de governador e outras posições. Na prática, é o próprio poder de Donald Trump que vai a votos. E os sinais, em geral, não lhe são favoráveis. Daí a urgência de conter – e, idealmente, encerrar – a escalada com o Irão antes que ela ganhe vida própria.

Como irá evoluir esta escalada e qual é a saída possível – uma saída que evite um recuo eleitoral expressivo? É esta, creio, a pergunta central, numa altura em que volta a circular a hipótese de uma segunda ronda de contactos entre as partes, em Islamabad.

A resposta – um acordo em Islamabad, sim ou não? – não depende de uma única variável. Eu resumiria assim: Ormuz, a questão nuclear, o futuro da política interna iraniana e, por fim, o factor israelita (com o peso particular da linha dura e inaceitável de Netanyahu). Um entendimento minimamente viável teria de baixar a temperatura no Estreito, estabilizar o dossier nuclear e criar canais de desescalada que funcionassem fora das câmaras e dos grandes cabeçalhos – e não apenas em comunicados para consumo internacional.

Seria um erro enorme se as autoridades de Teerão concluíssem que não vale a pena voltarem a sentar-se com uma delegação americana. Conhece-se a lista de exigências de Washington – maximalista, no limite daquilo que Teerão pode aceitar sem se desautorizar internamente – e conhece-se também a posição iraniana perante cada uma dessas condições.

Ainda assim, é plausível que um encontro, mesmo sem “negociações” formais, evite o retorno a hostilidades em larga escala e permita a outros actores continuar o trabalho diplomático já em curso – da China à Turquia, sem esquecer o Paquistão (aliado próximo de Pequim) – e, também, em vários países asiáticos e do Golfo.

A China e o Paquistão parecem estar a pressionar Teerão para que essa nova ronda de contactos – é cedo demais para lhe chamar “negociações” – aconteça agora ou em breve.

Ambos os lados teriam a ganhar com um acordo limitado. Para Washington, a vantagem é óbvia: travar uma dinâmica de escalada que, além de perigosa no terreno, aumenta o risco de violações do Direito Internacional Humanitário e degrada ainda mais a sua imagem na região e no Sudeste Asiático. E, convenhamos, a imagem americana hoje é muitas vezes lida através de dois filtros: a tentação do “músculo” e o alinhamento automático com a liderança israelita.

Para Teerão, o cálculo é igualmente claro: evitar o colapso económico e não cair na armadilha de uma guerra de represálias contra instalações petrolíferas e de gás natural – e contra portos dos Estados vizinhos do Golfo, onde basta um incidente para incendiar tudo.

Esta é uma crise que precisa de ser travada depressa. Em condições normais, seria assunto para o Conselho de Segurança da ONU. Vivemos, porém, num mundo em que as grandes potências escolhem, à carta, quais preceitos do Direito Internacional levam a sério.

Ainda assim, uma conjugação de esforços de um novo tipo – China, Índia e União Europeia, com um par de países do Sul (Paquistão e Indonésia, por exemplo) – poderia fazer a diferença, no meu entender, onde a ONU está paralisada: manter canais de contacto permanentes, fazer aceitar medidas de cessar-fogo minimamente verificáveis e desenhar um roteiro pragmático para Ormuz e para o dossier nuclear. É este o tipo de trabalho diplomático que evita desastres. Essencial.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
24.04.2026

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Já passei muito ‘kokushobi’ no Alentejo

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🇵🇹 OPINIÃO

Sabe aqueles dias em que está tanto calor que não consegue imaginar fazer mais nada além de estar na praia, de preferência com os pés dentro de água para refrescar? Aqueles dias em que o nosso querido Eça de Queiroz diria estar “um calor de ananases”? Os japoneses arranjaram um nome para se referir a esses dias: kokushobi.

A palavra, apresentada há dias pela Agência Meteorológica do Japão, significa “dia de calor insuportável”, “dia de calor brutal” ou “dia de calor extremo”. Foi a vencedora de uma sondagem online realizada a nível nacional e refere-se, especificamente, a dias em que as temperaturas ultrapassem os 40ºC. A ideia de fazer uma sondagem surgiu depois de o Japão ter registado em 2025 o verão mais quente desde que há registos.

Quem participou no inquérito podia escolher entre 13 opções para descrever os dias mais quentes. Realizado entre Fevereiro e Março, este recebeu mais de 478 mil respostas. Ideia inovadora? Nem tanto, afinal o Japão é conhecido por gostar de “inventar” palavras. Um outro exemplo? Tsundoku, ou seja, a arte de empilhar no chão livros por ler. E em relação ao calor, já tinham palavras específicas para dias com temperaturas superiores a 25°C, 30°C e 35°C.

Por cá, se ainda não inventámos uma palavra para os designar também nós nos habituámos a Verões cada vez mais quentes. E, como alentejana – mesmo da “espécie” que cresceu na Suíça e gosta bastante mais de neve do que de calor -, já enfrentei muitos dias com os termómetros acima dos 40ºC. E ainda não esqueci aquele verão de 2003 em que a Amareleja chegou aos 47,3ºC, ainda hoje o recorde de temperatura em Portugal.

No Alentejo, antigamente, quando o mercúrio subia e nem bolia uma aragem, os mais antigos escondiam-se atrás das paredes grossas das casas, caiadas de branco para afugentar o calor, e só voltavam a sair ao final da tarde para se sentar às portas e queixar-se da “calmaça” que esteve.

Se não é inventada como as dos japoneses, esta palavra também não vem no dicionário, sendo uma espécie de equivalente local a “caloraça” mas com “calma”, como os alentejanos gostam de chamar ao calor. Hoje, infelizmente, as paredes das casas já não são tão grossas e se o branco ainda domina no Alentejo, os ares condicionados continuam a ser excepção nas casas de habitação.

Ora são cada vez mais estes dias de calor extremo, no Japão, em Portugal e um pouco por todo o mundo, reflexo dessas alterações climáticas que alguns insistem em negar e outros pretendem combater lançando tinta sobre obras de arte. Mas contra as quais há muito devíamos ter começado a agir para evitar ondas de calor ou tempestades destruidoras, como as do último inverno em Portugal.

Afinal, mesmo quem gosta do verão, dispensa com certeza muitos dias de caloraça… ou de kokushobi.

Diário de Notícias
Helena Tecedeiro
Editora-executiva do Diário de Notícias
24.04.2026

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375: A Figura do Dia. O CDS morreu há vários anos

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🇵🇹 OPINIÃO

O CDS é um partido que morreu há uns anos. Esteve um tempo nos cuidados paliativos e, por obra e graça de um destino sempre deliciosamente irónico, uma alma caridosa decidiu desligar a máquina e evitar mais sofrimento.

Por isso, quando alguém me conta que estão no Governo e ocupam lugares no Parlamento, concluo que o delírio tomou conta dos palácios e das cabeças.

Há um ministro que “monta” cenários e se aproveita das tragédias para mostrar músculo. E há um deputado que, nos últimos tempos, repete um mantra para que o povo não se esqueça de que o CDS é o original e o Chega um a imitação.

Paulo Núncio esforça-se para multiplicar uma mensagem que indigna a história do partido fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa. Cada vez que esta gente surge com Deus na boca, mas com raiva e ressentimento nas acções, penso em todos os democratas-cristãos que combateram com coragem por uma sociedade conservadora, mas inspirada no humanismo cristão.

Não, caro Paulo Núncio, o CDS morreu com dignidade. O senhor ou o seu líder, ministro da Defesa, não representam o partido, mas apenas o nome que herdaram.

O CDS é o original, o Chega é a cópia, proclama o homem com voz grave e olhinhos vivos. O que diriam Francisco Lucas Pires, Adriano Moreira, Narana Coissoró, Krus Abecassis, Ribeiro e Castro, Lobo Xavier, Rui Pena e até Paulo Portas?

Não, caro Paulo Núncio, o CDS morreu com dignidade. O senhor ou o seu líder, ministro da Defesa, não representam o partido, mas apenas o nome que herdaram. Faria muita falta voltar a ter a democrata-cristã na nossa paleta de escolhas, seria até capaz de nela votar, mas a associação que os senhores representam é apenas um ardil, uma manigância, um insulto.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
22.04.2026

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374: Porque é que sou machista, por Cristina Ferreira

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🇵🇹 OPINIÃO

“Quero saber o que é que passa na cabeça de quatro jovens que, ouvindo um não, não respeitaram aquela rapariga (a provar-se isso, porque está ainda em julgamento). Quero perceber, quando um violador ouve o não, porque é que ele não o ouviu. E não o ouviu não é no sentido literal do termo. Porque, é claro, ele não quis ouvir. Porque é que eu sou machista em querer perceber o comportamento de um violador?

Esta é a explicação que Cristina Ferreira deu esta terça no Jornal Nacional da TVI, em entrevista a José Alberto Carvalho, sobre as palavras que lhe valeram uma multidão de críticas, mais de quatro mil queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e uma carta aberta intitulada “A violação não é matéria de opinião”, na qual é acusada de banalização da violência e ausência de empatia.

Lembremos que palavras foram essas, proferidas num programa da manhã em que os presentes comentavam o início do julgamento de quatro jovens acusados de, em Fevereiro de 2025 em Loures, terem violado uma adolescente de 16 anos e difundido as imagens do crime: “Temos de falar disto: mesmo que ela [a miúda] tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que têm de ouvir, mas alguém entende aquele ‘não quero mais’?”

Há vários elementos muito interessantes — porque muito reveladores — nisto que Cristina disse e que apresenta como uma pergunta. Desde logo, assumir que os rapazes (porque são rapazes, não é?) podem estar “a fazer sexo com uma rapariga” sem a ouvir, sem darem atenção ao que ela diz, faz, sente, se quer ou não quer, e que isso é uma coisa banal, nada tem de violento, reprovável ou ilícito: “Estão naquela adrenalina.”

Depois, considerar que é até atendível, expectável, “rapazes” não valorizarem um “não quero mais”. Porque Cristina questiona: “Alguém entende aquele não quero mais”?

“Alguém”. Como quem diz “cabe na cabeça de alguém que uma rapariga que alegadamente quis ter sexo deixe de querer a meio?”. Como quem diz “mas o que é que ela esperava, ao pôr-se naquela situação?” Questão, de resto, reiterada pela intervenção de uma das convidadas no programa, a psicóloga (psicóloga, imagine-se) Inês Balinha Carlos: “Nós temos de ser honestos e perceber que é muito mais difícil — não querendo justificar nada — parar a meio; é preciso muito mais maturidade para controlar os seus impulsos quando já vamos a meio do ato do que antes de começar o ato. Temos de ter essa honestidade e perceber a idade deles, sem justificar rigorosamente nada.”

É certo que, no Jornal Nacional, a apresentadora (a qual, recorde-se, é também acionista e administradora do canal), lamentou “não ter usado as palavras certas” na sua “pergunta”, admitindo que se a tivesse escrito não sairia assim. Mas recusou pedir desculpa, e sobretudo não dirigiu uma palavra à jovem de cuja alegada violação estava a falar — não disse: peço desculpa se aquilo que disse te magoou, se pareceu que trivializei, que te culpabilizei.

Não: nem quando José Alberto referiu o facto de Cristina ser acusada de falta de empatia e observou que para aquela rapariga só pode ser altamente doloroso ouvir discutir o assunto, reviver os detalhes sobre o que sucedeu, a entrevistada percebeu a deixa. Em vez disso, retorquiu, cortante: “Não tenho dúvida nenhuma. Como deve ter sido mais doloroso ainda tudo isto que se fez nos dias seguintes.” Ou seja, doloroso mesmo terá sido a onda de críticas (incluindo da família da jovem) que se abateu sobre a apresentadora. Que ainda perguntou: “Mas a minha empatia era o quê? Não perguntar sobre o comportamento do violador? Era essa a empatia?”

Porque Cristina está, garante, focada no “comportamento do violador”. Daí que frise que a sua “pergunta” surgiu na sequência do que disse outro comentador do programa da manhã, “psicólogo forense”: que “em tribunal é dificílimo uma vítima provar o não.” É que, prossegue, ”são feitas perguntas muito difíceis. Temos um juiz à frente que pergunta: Mas disse não? Mas disse não como? E o não foi expressivo? E o não foi dito em alta voz? E o não foi olhado pelo seu violador?” Para concluir: “Percebes o difícil que é, para uma vítima, ter que, em tribunal, dizer uma vez mais… E mais, nem sempre a vítima tem capacidade de dizer que não. Há reacções muito diferentes. E isto eu ouço há muitos anos. Há reacções muito diferentes de vítimas. Há vítimas que congelam. Que são incapazes de ter qualquer tipo de reacção. Há vítimas que gritam constantemente que se pare, e que o não seja cumprido. E se ele não é, estamos perante uma violação.”

Não sabemos como sairiam estas explicações se Cristina as tivesse escrito, mas fica bastante claro que para ela não é uma questão que os tribunais concentrem o seu questionamento, a sua avaliação, em suma, o seu julgamento, na vítima, mesmo se, como sucede desde 2019, a lei penal define violação como penetração contra a “vontade cognoscível da vítima” (antes de 2015 a jurisprudência exigia à vítima provas de “resistência”, não considerando sequer um não como suficiente).

E para Cristina isso não é uma questão porque, se repete que quer perceber o violador, na verdade é a vítima que não compreende — é o comportamento da vítima que ela põe em causa. Daí que nos quase 30 minutos que durou a entrevista nunca tenha manifestado a sua indignação por, como relata, os juízes se focarem na existência audível de um não ou de uma clara objecção por parte da vítima, em vez de fazerem ao arguido a pergunta óbvia: como é que se certificou da “vontade cognoscível” daquela pessoa de ser penetrada? Foi alguma coisa que ela fez? Foi alguma coisa que ela disse? Ou ela não fez nem disse nada e mesmo assim achou que era de avançar?

Por mais que nos garanta que há muitos anos “estuda” este assunto, o da violência de género, e que as suas perguntas são feitas de  forma a “ajudar a informar as pessoas menos informadas”, Cristina só evidencia a sua desinformação, ignorância, preconceito. E a sua imensa, desmesurada, arrogante, crueldade.

Foi ela a apresentadora que em 2020, ante a difusão de imagens de uma jovem a ter sexo com dois jovens num comboio, falou do caso psiquiatrizando-a, enquanto deles dizia que era normal, como rapazes que eram, fazerem sexo assim, em qualquer sítio, ela é que ia “ficar marcada”. Foi ela a apresentadora que, falando de uma mulher que tinha sido assassinada por um ex-companheiro, a acusou de “se ter posto a jeito”. Justificando, na entrevista a José Alberto Carvalho: “Essa expressão foi utilizada porque estávamos a falar de uma senhora que já era agredida há algum tempo. E nós, aquilo que é o nosso dever, e que o fizemos, foi alertar qualquer vítima de agressão de que não pode abrir a porta a um agressor. Não pode entrar no carro com alguém que já a agrediu, com alguém que já a ameaçou. Porquê? Porque sabemos que é aí que acontece.”

É tudo para ensinar as pessoas, percebem? Para ensinar as pessoas a culpabilizar as vítimas, para ensinar que as mulheres têm de medir bem os riscos, ter cuidado, e que os homens, os rapazes, são assim uma espécie de animais selvagens incontroláveis, “naquela adrenalina”.

E por favor não se se diga, como Cristina previu que se diria mal terminasse a entrevista, que ela se esteve a vitimizar, que é narcisista, que não tem percepção dos seus comportamentos, que não tem qualquer tipo de responsabilidade social. Realmente: nem começou a entrevista por assegurar “estou bem”, nem reduziu as criticas que recebeu a “ódio” e “busca de visualizações”, nem ameaçou que no dia em que sinta que “ao me sentar nesta cadeira estiver a pensar naquilo que vou dizer, no que não posso dizer, naquilo que não me permitem dizer, está na hora de ir embora.”

Como é que alguém se poderá atrever a exigir a Cristina que, ante os milhões que a vêem e seguem, no lugar em que está, pense naquilo que vai dizer e no que não deve dizer?

E — isso então — como podem chamar-lhe machista, logo a ela que, se tantas vezes assegurou não ser feminista, decidiu agora revelar -nos o seu feminismo de “20 anos de televisão a mostrar através do meu exemplo que é possível, que a igualdade se pode conquistar”? Mas, atenção, avisa: “Isso não se faz com o derrube do homem.” Porque, já se sabe, as outras feministas, as que não são a Cristina, as más e doidas que a criticam, querem é “derrubar o homem”. O feminismo da Cristina nunca põe em causa o lugar do homem, dos “rapazes”; derrubar, só mulheres. Sempre.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
23.04.2026

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373: A Figura do Dia. Cristina Ferreira

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🇵🇹 OPINIÃO

A irresponsável opinião de Cristina Ferreira não tem defesa possível – e o seu comunicado apenas amplificou o embaraço –, mas talvez seja altura de perdermos um pouco de tempo com o essencial.

O país mediático agitou-se e rasgou as vestes. Como era possível tal monstruosidade dita em directo por alguém que tem a responsabilidade de falar para milhões de pessoas? Como se pode desculpabilizar uma violação feita a uma menor por quatro atrasados mentais? Como entender que a TVI não tivesse imediatamente retirado ilações?

Podemos voltar ao tempo do pelourinho ou da salvação pela purificação do fogo, mas a indignação colectiva conseguiu pasmar-me. De repente, Cristina era o “mal” e não a consequência do que nos estamos a tornar.

“Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore.”

Os programas com mais audiência têm como protagonistas gente ordinária, amoral, abjecta e violenta. Temos programas em que agricultores procuram mulheres como se a televisão se tivesse transformado num lugar de alterne. Temos muitas das nossas crianças a dançar músicas com letras em que os homens maltratam as mulheres e as rebaixam. Temos o Parlamento transformado numa tasca de vinho barato por culpa de deputados cujo partido não para de crescer. Temos tudo isso e mais o resto que aqui não cabe.

Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore. Até ao dia em que a indignação seja em nome de um mundo novo que possa salvar-nos da bestialidade e do esgoto.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
21.04.2026

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372: Temos pena, o SNS está fechado para si!

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🇵🇹 OPINIÃO

Há experiências que dispensam qualquer esforço de imaginação distópica. Não é preciso invocar George Orwell, nem revisitar Franz Kafka. Basta tentar marcar uma consulta no SNS pelos meios digitais, sobretudo quando se descobre, sem aviso e sem alternativa, que se ficou de fora, pois o médico de família reformou-se, mudou-se para o privado e o sistema não preencheu o vazio.

Tudo começa com uma promessa convincente, hoje concentrada na app SNS24. A aplicação é clara e organizada. Parece oferecer serviços, caminhos e soluções. Mas essa ordem é superficial. Por detrás da interface existe um sistema fragmentado, onde o digital não resolve, apenas expõe as suas deficiências.

O primeiro clique da “Marcação de consultas” revela a realidade com a mensagem “Sem vagas disponíveis”. Para muitos utentes, isto não é um imprevisto, é o estado permanente. E para quem não tem médico de família, é ainda pior, devido à inexistência formal de acesso. Não há agenda, não há referência, não há continuidade. O sistema não está atrasado, está indisponível.

É aqui que o problema deixa de ser apenas um incómodo e passa a ser perigoso. Sem consulta, não há prescrição. Sem prescrição, não há renovação de medicação crónica. Doentes com doenças prolongadas ficam sem seguimento regular e passam a gerir a sua terapêutica como podem. O risco deixa de ser teórico e torna-se clínico.

Sem consulta, não há exames, não há análises de rotina, não há diagnóstico precoce e não há vigilância. O sistema deixa de prevenir e passa a reagir, frequentemente tarde demais. A doença evolui enquanto o acesso permanece bloqueado.

A própria app, que deveria simplificar o percurso, limita-se a formalizar o impasse. Sugere alternativas que não existem na prática, encaminha para contactos que não respondem e apresenta funcionalidades “indisponíveis”. O digital deixa de ser solução e passa a ser a interface do problema.

Perante isto, muitos utentes recorrem ao privado. Fazem exames, obtêm respostas, mas quando regressam ao SNS, essa informação não entra. Os resultados não são integrados no dossier clínico, pois o sistema não reconhece o que já foi feito. A informação existe, mas não conta.

Quem não pode pagar insiste, espera ou acaba nas urgências hospitalares. É aqui que o sistema revela a sua falha mais grave. As urgências tornam-se a porta de entrada para cuidados básicos. Não por decisão clínica, mas por ausência de alternativas. O resultado é previsível, com serviços saturados, longos tempos de espera e decisões tomadas sob pressão.

Este não é apenas um problema de funcionamento. É um risco estrutural. Um sistema que não garante acesso regular empurra os doentes para situações mais graves. Um sistema que não integra informação perde capacidade de decisão. Um sistema que depende da urgência para funcionar está, na prática, em modo de falha contínua.

No meio de tudo isto, há a excepção da prescrição electrónica que funciona de forma simples, eficaz e invisível. É a prova de que o SNS consegue fazer bem, mas também é a prova de que essa competência não foi aplicada ao essencial, de garantir acesso, continuidade e integração.

O problema já não é tecnológico, é de governação, pois um sistema digital mal governado não é neutro. Cria desigualdade e separa quem consegue aceder de quem fica de fora. Não por decisão explícita, mas por acumulação de barreiras. E essa desigualdade está a tornar-se estrutural, entre quem tem médico de família e quem não tem, entre quem pode pagar e quem não pode, entre quem consegue insistir e quem desiste.

O SNS continua a ser universal no princípio, contudo na prática o acesso está a tornar-se condicional. Porque um sistema de saúde não falha apenas quando não responde, falha quando normaliza a ausência de resposta, quando transforma o bloqueio em rotina e quando aceita que haja cidadãos para quem a aplicação funciona… mas o sistema não.

No fim, o paradoxo é claro. O sistema sabe quem somos. A app SNS24 autentica-nos, identifica-nos, regista-nos, mas não garante que sejamos tratados. E quando um sistema de saúde chega a este ponto, já não estamos perante um problema digital, estamos perante um problema de confiança pública.

Diário de Notícias
Luís Vidigal
Governação electrónica
22.04.2026

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370: Quem tem medo da transparência?

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🇵🇹 OPINIÃO

Ciclicamente, o tema da transparência é convocado para o centro do debate político. Desta vez foi recuperado por Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, ao defender que a declaração de rendimentos e interesses deve deixar de ser de acesso público. Este posicionamento, que lhe valeu severas críticas da oposição, é sintomático de um mal maior. Não há representação democrática de qualidade sem transparência.

Quem exerce poder em nome de outros tem de aceitar o escrutínio. Relativizar a sua importância é contribuir para o desgaste das instituições e da própria democracia. Nesse quesito, vários casos recentes servem de exemplo.

O primeiro é o da relação entre o principal cliente da empresa associada à família do primeiro-ministro e o financiamento do PSD; o segundo diz respeito à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos que, cinco anos depois, continua a pedir explicações sobre dinheiro sem origem conhecida nas contas dos principais partidos; o terceiro e último é o da decisão que tornou inacessível ao público a identidade de quem financia partidos e campanhas. Todos estes casos representam sintomas da fragilidade e da importância dos mecanismos de escrutínio. Mas mais importante, representam um retrocesso na transparência.

A relação entre transparência, confiança e integridade institucional está bem documentada. No plano institucional, a OCDE demonstra que a transparência só produz efeitos quando acompanhada de mecanismos eficazes de escrutínio e responsabilização. Isto suportado em dados que apontam para a sensibilidade do público à percepção de abertura, integridade e capacidade de prestação de contas das instituições.

Académicos como Stiglitz ou Larry Diamond defendem que o direito à informação é condição para o debate público informado e que a qualidade da democracia depende da capacidade de os cidadãos controlarem efectivamente o poder político. Quando esse controlo enfraquece, é a própria democracia que se desgasta.

A erosão da confiança pública nas instituições não resulta de um caso isolado, mas de sinais de opacidade contínuos – estes mais preocupantes num contexto em que forças populistas, radicais e abertamente antidemocráticas crescem na Europa, explorando a desconfiança nas instituições representativas.

A responsabilidade dos partidos é, por isso, ainda maior. Não dizer nada é contribuir para a descrença. Não aceitar o escrutínio é alimentar a dúvida. E aceitar a generalização da ignorância sobre quem financia, influencia, ou condiciona o exercício da representação, é dar munições a quem quer enfraquecer a democracia por dentro.

Com as já anunciadas iniciativas legislativas para alterar a Lei do Financiamento dos Partidos Políticos e das Campanhas Eleitorais, está agora nas mãos dos partidos com assento parlamentar tomar uma decisão. Têm agora a oportunidade de reverter a decisão, sujeitando-se ao escrutínio e debate que caracterizam as democracias representativas ou contribuir para menos informação, mais opacidade e desconhecimento.

A transparência é desconfortável para quem exerce poder. É precisamente por isso que é indispensável.

Diário de Notícias
André Santos Pereira
Professor universitário e analista político
20.04.2026

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369: O que a sociedade ainda não entendeu sobre violência sexual

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🇵🇹 OPINIÃO

Imaginemos, por um instante, que tratávamos outros crimes da mesma forma como tantas vezes tratamos a violência sexual.

“Foi assaltado? Então por que levava o telemóvel consigo? Terá sido um empréstimo?”

“Foi atropelado? E por que atravessou a rua naquele momento?”

“Foi vítima de burla? E porque foi tão ingénuo?”

Estes exemplos parecem absurdos – e são. No entanto, é precisamente este tipo de raciocínio que continua a ser aplicado às vítimas de violência sexual, minimizando a gravidade do crime e deslocando a responsabilidade de quem agride para quem é vítima.

Foi isto que voltou a acontecer nos mais recentes comentários de Cristina Ferreira sobre o caso de uma alegada violação de uma jovem por parte de quatro homens. Não se trata de julgar intenções, mas de reconhecer o impacto real das palavras, sobretudo quando ditas por alguém com enorme visibilidade pública.

Uma violação não é “fazer sexo”.

E o conceito de consentimento continua a ser profundamente mal compreendido. Consentimento é um “sim” claro, livre, informado e contínuo. Não é silêncio, não é medo, não é imobilidade, não é confusão, não é vulnerabilidade, não é cedência perante pressão, não é tentativa de evitar conflito, não é incapacidade de reagir.

Consentimento não se presume, não se interpreta, não se adivinha. Não depende da roupa, da hora, do local, do estado emocional ou da relação entre as pessoas. Não é válido se houver medo, intoxicação, desigualdade de poder, manipulação ou incapacidade de resistência.

E, sobretudo, pode ser retirado a qualquer momento. Se não há um “sim” explícito, há um “não”. Sempre. Esta é a regra básica que protege todas as pessoas, e que deve orientar qualquer análise pública sobre violência sexual.

Sempre que se confundem conceitos reforça-se uma narrativa perigosa: a de que a vítima poderia ter evitado o crime. E esta narrativa tem consequências profundas.

Em primeiro lugar, naquela vítima concreta. Uma jovem que foi violada não precisa de ser julgada pela sociedade. Precisa de ser protegida, acreditada e acompanhada.

Em segundo lugar, silencia todas as outras vítimas. Cada vez que uma vítima vê outra ser culpabilizada, aprende uma lição devastadora: “Se eu falar, vão dizer que a culpa foi minha.” E cala-se. E isola-se. E não procura ajuda. A culpabilização da vítima é um dos maiores factores de sub-notificação da violência sexual.

Em terceiro lugar, desculpabiliza quem agride. Quando se coloca o foco no comportamento da vítima, retira-se o foco do único responsável: quem cometeu o crime. A violência sexual não acontece porque alguém não teve cuidado ou não soube fazer-se ouvir. Acontece porque alguém decidiu violar. E é essa decisão – e apenas essa – que deve ser escrutinada.

A violência sexual não é um tema para improviso, opinião ligeira ou especulação. É um fenómeno complexo, com consequências devastadoras, que exige apresentadores e comentadores preparados, informados e capazes de comunicar com responsabilidade.

Precisamos, enquanto sociedade, de parar de perguntar “o que fez a vítima?” e começar a perguntar “por que é que alguém violou”?

Precisamos de educar para o consentimento, criar espaços seguros onde as vítimas possam ser ouvidas sem julgamento e responsabilizar quem agride, e não quem sofre.

A violência sexual é um crime.

E, como qualquer crime, deve ser analisado com rigor, empatia e responsabilidade.

A culpa nunca é da vítima. Nunca.

Diário de Notícias
Rute Agulhas
Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal
20.04.2026

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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).

 

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368: Quantas divisões tem o papa?

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🇵🇹 OPINIÃO

“Quantas divisões tem o papa?”, perguntou Joseph Stalin, no auge da Segunda Guerra Mundial, dando a entender que, sem Exércitos, o Vaticano seria irrelevante na política internacional. A história mostrou o contrário.

A Queda do Muro de Berlim e o fim da presença soviética na Europa de Leste não resultaram apenas da incapacidade do comunismo em responder aos desafios que enfrentava. Foram também o resultado de uma erosão de legitimidade. E, nesse processo, o papel de João Paulo II foi determinante.

Quando regressa à sua Polónia natal em Junho de 1979, João Paulo II não altera o regime por decreto. Mas altera o enquadramento. Ao afirmar a dignidade de um povo reduzido a uma função ideológica, introduz uma fractura no sistema. Ao dizer “não tenhais medo”, libertou o espaço psicológico em que o regime assentava.

Foi nesse espaço que o movimento Solidariedade, liderado por Lech Walesa, primeiro presidente da República da Polónia livre e Prémio Nobel da Paz, cresceu. Quando o medo recua e a legitimidade se esgota, o poder torna-se insustentável, mesmo quando ainda dispõe de meios.

A pergunta de Stalin estava, por isso, errada. O problema nunca foi saber quantas divisões tem o papa. O problema é perceber que tipo de poder está em causa.

É à luz desta distinção que importa ler o que aconteceu nos últimos dias na relação entre Washington e o Vaticano. As críticas do Papa Leão XIV à dureza das políticas migratórias, à lógica de exclusão e à instrumentalização do medo não foram declarações genéricas, mas visaram, na prática, a actuação da administração de Donald Trump.

Ao insistir na centralidade da dignidade humana e na obrigação de acolhimento, o papa colocou em causa a coerência entre valores proclamados por Trump e pelos que o cercam, frequentemente ancorados num imaginário cristão, e políticas concretas.

Nos últimos dias, Leão XIV criticou também a guerra no Irão e a retórica do medo, e a resposta da administração foi rápida e reveladora. Entre a rejeição das críticas, acusações de fraqueza, a negação de qualquer direito de escrutínio moral sobre a política americana e a reafirmação da soberania nacional como critério absoluto, o argumento foi claro: a legitimidade política resulta do mandato democrático interno, não de avaliações externas, sejam elas religiosas ou morais.

Este confronto não é episódico. É estrutural.

De um lado, um poder político que decide, impõe e controla. Do outro, uma autoridade moral que não decide, mas condiciona pela capacidade de expor incoerências, mobilizar milhões de americanos e gerar custos reputacionais. Ao desvalorizar o papa, a administração americana procura reduzir esse efeito. Se a crítica moral for apresentada como irrelevante, deixa de constituir constrangimento.

Mas esta estratégia tem limites. Num sistema internacional fragmentado, onde a percepção conta tanto como a capacidade de agir, a legitimidade tornou-se um activo estratégico. Pode não impedir decisões. Mas condiciona a sua eficácia.

É aqui que a lição de João Paulo II permanece actual. Não porque os contextos sejam comparáveis, mas porque o mecanismo é semelhante. A erosão da legitimidade não destrói imediatamente o poder político. Mas fragiliza-o de forma cumulativa.

Tal como João Paulo II, Leão XIV não terá divisões. Nem precisa delas. Se tiver capacidade para moldar percepções, expor contradições e aumentar o custo moral de determinadas escolhas, terá influência suficiente para condicionar o poder. No final, a pergunta relevante não é quantas divisões tem o papa. É quanto custa ignorá-lo.

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
Professor convidado UCP/UNL/UÉ
20.04.2026

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