336: A Figura do Dia. Não falem apenas de Jorge Coelho

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🇵🇹 OPINIÃO

Relembramos hoje a Paixão e Morte de Jesus. Este é o dia em que ser cristão é acreditar que o sacrifício mais inominável pode ter um sentido que nos transcende.

É um excelente pretexto para recordar as 59 pessoas que morreram na ponte de Entre-os-Rios, fez agora 25 anos. Quando se volta à tragédia falamos quase sempre de Jorge Coelho, do pronto pedido de demissão, da sua verticalidade e coragem política. É justo, mas é terrível para a memória dos que deixaram de viver naquela noite de 4 de Março.

Muitas famílias de Castelo de Paiva choraram nessa madrugada e a maioria delas ainda continua num estranho e absurdo luto — 36 corpos nunca foram encontrados, é uma morte sem morte, um fim que não sossega os sonhos de quem ficou, há sempre quem acorde a meio da noite encharcado em pesadelos ou esperanças frustradas.

“Quando se volta à tragédia [de Entre-os-Rios] falamos quase sempre de Jorge Coelho, do pronto pedido de demissão, da sua verticalidade e coragem política.”
Arquivo DN

Foram 36 mulheres e 23 homens. Só cinco não eram de Castelo de Paiva, culpa de uma excursão a Foz Côa para ver o nascimento da primavera com as suas vaidosas amendoeiras em flor.

Jesus está na cruz. Celebramos a Páscoa, o mais terrível e proveitoso dos dias de fé. Celebramos também o inconcebível, a monstruosidade do que nos pode tocar, mas também a rede que precisamos para nunca deixar fugir a esperança do tanto que nos resta.

Aquelas pessoas não regressaram a casa, mas despediram-se da vida com o cheiro das amêndoas doces nas flores brancas e rosas nascidas nos troncos das árvores.

A maioria não voltou a ser encontrada, está viva para sempre ou pronta a ressuscitar.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
03.04.2026

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332: Irão: um plano de paz de Trump que aponta para uma escalada da guerra

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OPINIÃO

Na minha leitura, o ânimo do presidente Donald Trump é alimentado por três ambições centrais: ser ele e fazer os seus serem tão mais ricos quanto possível; exercer e manter um poder absoluto urbi et orbi; e ficar na História. A agressão contra o Irão, como as outras, tem esses objectivos em vista.

Mas na óptica de Trump precisa de ser resolvida sem demoras, para permitir tratar do caso de Cuba – sabemos o que isso significa – antes das eleições intercalares de Novembro nos EUA. Por isso, apresentou esta semana uma proposta de paz em 15 pontos. Se o Irão capitulasse e a aceitasse em toda a linha, Washington poderia fechar a contento esse capítulo e passar de imediato à questão cubana.

Porém, o plano de Trump não parece ter futuro, nem o equilíbrio necessário. Teerão, segundo as fontes de informação pública mais credíveis, olha para essa lista de 15 pontos como um conjunto de propostas inaceitáveis. Resumem-se a uma rendição indiscutível, que não deixa espaço nem para negociações, nem para uma solução honrosa.

Os EUA, ao exigirem a desnuclearização praticamente total do inimigo, o fim do apoio a grupos regionais aliados de Teerão, limites na produção e no grau de alcance dos seus mísseis de ataque e de defesa, a entrega de todo o seu urânio altamente enriquecido à agência especializada da ONU em matéria de energia atómica (AIEA), visam pura e simplesmente responder aos objectivos israelitas, bem como reduzir a zero as capacidades estratégicas de defesa e de alianças externas do Irão.

São questões fundamentais para o regime. Aliás, nenhuma proposta de Trump toca na questão do regime, que continuaria a sua política de violação brutal dos Direitos Humanos dos seus cidadãos. A democracia e a liberdade voltam a não fazer parte da lista de preocupações de Trump.

O único mecanismo de compensação perante as exigências feitas por Washington estaria relacionado com o levantamento das sanções e dos automatismos com elas relacionados. Não seria, contudo, uma concessão integral. Os embargos tecnológicos, directa ou indirectamente relacionados com as dimensões militares, continuariam. Ora, esses bloqueios aprofundariam a fragilização dos meios de defesa do Irão, não apenas em relação a Israel, mas também diante da Arábia Saudita e dos EUA.

Os EUA não abandonarão a região. Mais, devem ter em breve cerca de 60 mil militares de elite nas bases e nos navios que circundam o Irão.

A História ensina-nos, como tive a oportunidade de aprender em vários teatros de crise, que as sanções causam dor e problemas, mas são suportáveis, sobretudo num país tão vasto como o Irão e que tem alguns amigos de peso na comunidade internacional.

Já o desarmamento em larga escala não oferece qualquer tipo de garantias de segurança. Aceitar o desarmamento seria, no caso do Irão, um erro potencialmente fatal. Mais ainda, exigir a submissão total sem oferecer uma saída honrosa à parte considerada mais fraca – o Irão – ignora a realidade da política dos Estados e abre as portas ao reforço das alianças com os inimigos do Ocidente. É, por exemplo, uma prenda oferecida às super-potências que controlam os BRICS.

O chamado plano de paz tampouco agrada ao governo de Benjamin Netanyahu. Quer mais. O primeiro-ministro israelita quer ver em Teerão um outro tipo de liderança política, pronta para aceitar a proeminência de facto de Israel no Médio Oriente. E, sobretudo, quer ter a certeza de que as infra-estruturas nucleares foram de facto destruídas, que o programa de produção de mísseis foi reduzido à dimensão de uma fábrica de espingardas, incapaz de representar uma ameaça para Israel, e que o apoio iraniano aos grupos armados hostis, presentes no Líbano, na Síria, no Iémen e na própria Palestina, seja inteiramente aniquilado.

A proposta de Trump não prevê qualquer papel para o Conselho de Segurança da ONU. Ou seja, para terminar uma guerra iniciada fora da lei, o dito plano de paz continua fora do quadro e da prática da Lei Internacional.

Querer que os cerca de 450 quilogramas de urânio enriquecido, que se diz que o Irão detém, fiquem sob a custódia da AIEA, é um engodo. Exige uma capacidade logística e um mandato legal que a Agência onusiana não possui actualmente. A Agência é uma instituição técnica de verificação e de informação sobre o cumprimento dos compromissos assumidos pelo país que está sob um processo controlo. Não deve ter uma função política, porque a política pertence à competência exclusiva do Conselho de Segurança.

Na óptica do Irão, este plano não poderá ser aprovado. Já o fez saber. Niccolò Machiavelli lembra-nos, 500 anos passados, que um plano de paz desequilibrado e que não se baseia em concessões mútuas pode transformar-se rapidamente numa nova fonte de guerra.

É isso que o secretário-geral da ONU deu a entender esta semana, ao sublinhar, com enorme preocupação, que a guerra no Médio Oriente está fora de controlo. Na mesma altura, nomeou o meu antigo colega Jean Arnault, de nacionalidade francesa, como seu Representante Pessoal, para construir pontes entre as partes em conflito.

Eu já o teria feito há mais tempo, desde os bombardeamentos de 22 de Junho de 2025 contra as centrais nucleares iranianas. Todavia, não teria nomeado um francês, nem um outro ocidental, embora tenha um grande apreço por Arnault. O Ocidente é visto como um eco de Trump e de Netanyahu. Parcial.

Olhando para o futuro, prevejo, infelizmente, um agravamento da crise. Uma forte escalada militar. Um recomeço dos ataques aéreos e navais contra o Irão, incursões terrestres por tropas especiais americanas, uma situação complicada nos países limítrofes do Golfo Pérsico e no Líbano, sem esquecer o impacto altamente negativo do conflito sobre a economia internacional. Isto sem já falar nas mãos livres, e reforçadas, para a Rússia continuar a bombardear a Ucrânia.

Ao fazer a listagem dos indicadores de uma possível escalada militar, vejo Abril com preocupação. Temos até lá não mais que três ou quatro semanas para encontrar uma alternativa de paz verdadeira.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
27.03.2026

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331: Inanição

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🇵🇹 OPINIÃO

Serei só eu a notar – e poderá ser, portanto, uma limitação pessoal – ou a sensação de inanição governativa, ao fim de dois anos de Governo PSD/CDS, é partilhada por outras pessoas?

É que dois anos não são dois dias. E Portugal tem um dos sistemas mais generosos do mundo em termos do que permite a um governo decidir e legislar, sem carecer de autorização ou validação parlamentar. Um governo, neste país, até manda.

Nenhum governo se pode atirar a tudo ao mesmo tempo. Este Governo, por exemplo, entendeu investir capital político e convicção numa alteração à legislação laboral. Ninguém percebeu porquê, nem a sua conveniência ou emergência – ou seja, quem o percebeu, não o partilhou… Poderá ser que resulte numa qualquer “flexibilização”, que significa que despedir será um pouco mais barato e contratar a termo será possível por um pouco mais de tempo. E, claro, ter meia dúzia de grandes empresas a definirem horários de trabalho de forma mais aleatória e a pagar menos por isso.

É isso que refunda a economia portuguesa? É isso que atrai mão de obra qualificada? O que mais existe hoje, aliás, é portugueses a quererem ir trabalhar para fora do país, para destinos exóticos como a Suécia, a Suíça ou a Holanda. Virão logo a correr, de volta, com uma qualquer nova legislação laboral que lhes diga que poderão ser contratados a prazo mais uns anos e despedidos com menor compensação, para aqui pagarem os seus impostos elevados e Segurança Social – e seguro de saúde privado, esse novo encargo que também a democracia criou, apesar de 25% do Orçamento do Estado ser atribuído ao SNS?

E vão para esses países cinzentos e ricos, desde logo, porque os salários aqui não permitem comprar peixe e fruta e ter uma casa para viver, esses luxos que a democracia portuguesa conseguiu erigir como tal, 50 anos depois.

Pensar-se-ia que um governo, qualquer que ele fosse, pensaria, perante a debandada dos seus cidadãos – e a sua substituição por outros, cujo critério e necessidades são, infelizmente, ainda mais frágeis – gostaria de fazer alguma coisa em relação ao facto de arrendar uma casa em Lisboa ser mais caro do que em Berlim, Amesterdão, Oslo ou Viena… Pelos vistos, não. É que baixar a tributação dos senhorios em IRS para 10% pode ser simpático. E é – para os senhorios. As rendas médias, entretanto, aumentaram.

E na Saúde, esse mundo caótico de conflitos de interesses institucionalizados e de demoras e ineficiências inexplicáveis? Sim, temos um excelente SNS para pobres, que salva milhares de pessoas – aquelas que há 50 anos morriam em casa, sem nunca se saber porquê, acolitadas pelo padre e pelas demais viúvas, 20 ou 30 anos antes do que estatisticamente lhes seria destinado. E isso vale alguma coisa. Mas não vale a pena insistir na virtude inabalável do mesmo, para todos, universal, tendencialmente gratuito. Já ninguém acredita nisso e, à excepção de situações de emergência absoluta, já ninguém o quer.

Pode ser um bom tempo para, então, com clareza, transparência e previsibilidade, pôr a sério no mercado (e não no “mercado português”, que é o que alguns usam e o Estado globalmente paga….) esse bem que se em tempos se entendeu público, a Saúde, todos sabemos que, hoje, não o é.

E o que dizer da “reforma do Estado”, esse mantra com que nos entretemos em conversetas inúteis, repetidas, vazias? Querem mudar a burocracia do Estado? Basta acabar com a dependência pública das taxas, que infestam a nossa vida, alimentam os serviços públicos e criam as entropias de que nos queixamos.

Um procedimento administrativo torna-se imediatamente fundamental a partir do momento em que gera receita… E como o financiamento público e a racionalidade dos procedimentos nunca foram devidamente avaliados, abunda o medo em qualquer decisor político para mudar qualquer coisa, na sua casinha, a que dará depois saudades.

Ah, que belo país, sempre tão previsível, tão esperado, tão estável – esses atributos que qualquer recrutador no mercado procura!

Diário de Notícias
Miguel Romão
25.03.2026

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326: A Quinta Corrosão

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🇵🇹 OPINIÃO

Na passada quinta-feira, em Bruxelas, Viktor Orbán bloqueou, mais uma vez, os 90 mil milhões de euros aprovados em Dezembro pelo Conselho Europeu para a Ucrânia. O argumento é conhecido: a Ucrânia não repara o oleoduto Druzhba com a rapidez que Budapeste exige, danificado por um ataque russo em Janeiro, e sem petróleo a Hungria não apoia nada. “Estamos à espera do petróleo. O resto são contos de fadas.”

António Costa respondeu em termos que raramente se ouvem na diplomacia europeia: o comportamento húngaro constitui uma violação do princípio da cooperação leal entre Estados-membros consagrado nos Tratados. Budapeste tinha aprovado o empréstimo em Dezembro. Vetou-o na quinta-feira. A lógica é simples: a Rússia danifica a infra-estrutura, a Ucrânia é culpada pela demora na reparação, e a Hungria transforma o dano num instrumento de bloqueio institucional. Não é política energética. É a doutrina da fadiga aplicada por dentro da União Europeia.

Daqui a menos de três semanas, a 12 de Abril, os húngaros votam. Orbán, que governa com maioria absoluta há 15 anos após redesenhar tribunais, meios de comunicação e leis eleitorais a seu favor, surge agora em segundo lugar nas sondagens, atrás de Péter Magyar e do partido Tisza.

O veto da semana passada não é desligável da campanha: o inimigo externo que ameaça o aquecimento das casas húngaras é exactamente o argumento que mobiliza a base do Fidesz. Moscovo percebeu-o antes de qualquer analista ocidental. O alinhamento de narrativas entre Budapeste e o Kremlin não requer coordenação explícita para ser funcionalmente perfeito: a Rússia ataca a infra-estrutura, a Hungria culpa a Ucrânia, a UE paralisa, e a Rússia avança no terreno. O resultado é funcionalmente idêntico ao de uma operação coordenada, sem que seja necessário demonstrar que o seja.

É aqui que entra o que chamo a quinta corrosão do Direito Internacional. Os primeiros quatro mecanismos de erosão são conhecidos e operam sobretudo a partir do exterior. O facto consumado territorial – de que a recorrente pretensão americana de tratar a Gronelândia como activo transaccionável é o caso paradigmático – estabelece que a soberania formal é uma variável negociável e não um constrangimento absoluto, esvaziando progressivamente princípios fundamentais sobre integridade territorial e delimitação de espaços, como os consagrados na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. A privatização do multilateralismo substitui fóruns vinculativos por redes de lealdade pessoal com estatuto diplomático, reproduzindo a forma das instituições sem o seu conteúdo normativo.

A privatização da decisão estratégica transfere poder efectivo para actores sem mandato democrático: quando Elon Musk restringe unilateralmente o acesso ao Starlink em teatro de guerra, a norma internacional não tem linguagem para o actor que detém o poder sem deter o título. E a subversão endógena instala dentro das próprias democracias os operadores que tratam a norma como obstáculo interno e não como escudo externo, de que Orbán ou as posições do partido AfD são hoje o exemplo acabado dentro da União Europeia.

A quinta corrosão é diferente porque é indirecta e opera a partir de dentro da única instituição que ainda poderia funcionar como garante normativo global.

A União Europeia não defende o Direito Internacional por idealismo. Defende-o por necessidade existencial: é a Europa que mais perde num mundo governado exclusivamente pela força, porque é a Europa que mais apostou na norma como substituto do poder.

Para cumprir esse papel precisa de coesão. Um único Estado-membro com poder de bloqueio, alinhado com a gramática transaccional de Moscovo e com a lógica de veto selectivo que tem contaminado o sistema, paralisa o mecanismo por dentro sem o destruir formalmente. Um Conselho Europeu bloqueado vale tanto quanto um Conselho de Segurança com veto permanente: existe, mas não decide.

O mesmo padrão repete-se na Eslováquia de Fico, e o crescimento da AfD na Alemanha aponta para a sua possível expansão. A lógica é sempre a mesma: não é preciso abandonar as instituições europeias. Basta ocupá-las para as neutralizar.

É por isso que as eleições húngaras de 12 de Abril não são um assunto interno húngaro. São um momento de definição sobre se a quinta corrosão se consolida ou recua. Um país com o eleitorado da dimensão de Portugal tornou-se um vector de erosão normativa tão eficaz quanto um actor externo com capacidade militar. Não destrói o Direito Internacional. Paralisa quem ainda o poderia defender.

O fim do Direito Internacional não é um evento. É um processo. E na semana que passou, ficou um pouco mais perto, em Bruxelas.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
23.03.2026

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322: Espanto e estupefacção

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🇵🇹 OPINIÃO

Vivemos um momento difícil da nossa vida enquanto colectividade. Nem tudo o que aparece aos nossos olhos ou é dito e escrito é verdade. Nem tudo o que de censurável ocorre é objecto de sanção.

Entre percepções, realidade virtual e narrativas criadas com o propósito de enganar, vai todo um percurso que exige, cada vez mais, maior lucidez de cada um de nós.

É certo que se instalou um certo voyeurismo sobre figuras públicas, quase uma certa obrigatoriedade de striptease integral. No entanto, há que não confundir coscuvilhice com transparência e, sobretudo, há que não exigir transparência no que não releva para a res publica.

O que é importante são os comportamentos e atitudes que aos cidadãos é lícito apreciar e “julgar” de acordo com o soberano princípio de que todos somos iguais e, portanto, devemos ser tratados da mesma forma.

É este meu axioma que me leva a comentar três recentes revelações.

1 – Esquadra do Rato

Temos vindo a ser invadidos por notícias da Esquadra do Rato. O que começou por parecer um desvio comportamental de alguns agentes da PSP configura-se, agora, com uma dimensão outra.

Vários agentes terão sido presentes às autoridades judiciárias e nove agentes terão, nos termos da lei, ficado em prisão preventiva.

O que agora terá acontecido é que outros seis agentes, da mesma esquadra, estarão a ser investigados pelo MP.

Especialmente chocante é a fragilidade das vítimas: toxicodependentes e sem-abrigo.

Também especialmente chocante é não se conhecer nenhuma posição pública relevante da hierarquia da PSP, o que denuncia uma certa crise de comando e disciplina. Situação especialmente grave numa força hierarquizada. Calar pode não ser consentir, mas é revelador de uma cobarde cumplicidade, e os cidadãos precisam de confiar nas suas polícias.

2 – Crime global

Neste mundo global em que vivemos vamos sabendo do que acontece a muitos milhares de quilómetros.

Revelados mais de um milhão de e-mails de Epstein, ficámos a saber: vivemos rodeados de perversos tarados; os poderosos acham que podem tudo; a pobreza não é boa companhia para resistir aos poderosos; etc.

Só que, o que é verdadeiramente relevante, é que não sabemos quem terá cometido os crimes, ninguém foi julgado, não há arguidos, não há processos em tribunal e, claro, não há condenados.

O processo Epstein é bom para distrair papalvos: ninguém viu, ninguém sabe, ninguém participou. Mais algum tempo e concluiremos que as vítimas foram criadas pela Inteligência Artificial na sua versão pré-histórica…

E, sobretudo, que do que o “suicidado” terá tratado, além das sempre oportunas e encobridoras perversões sexuais dos poderosos, não haverá “notícia”.

3 – O exemplo

O doutor Salazar instilou nos portugueses a abominável ideia do “remediado”, levando os portugueses a “viverem habitualmente”. Para que todos pensassem que esse era o caminho, difundiu a ideia de que ele próprio vivia comendo as galinhas e os ovos que a sua fiel governanta produzia nos jardins de São Bento. Isto, apesar dos seus regulares, e não-revelados, dominicais almoços com a família Espírito Santo.

A democracia veio exigir outros exemplos. De igualdade, de transparência e de uniformidade de tratamento.

Um bom exemplo foi dado pelo actual Presidente da República ao abdicar da subvenção a que tinha direito.

Um mau exemplo é o do ex-governador do Banco de Portugal que, sem quebrar qualquer regra, é certo, terá uma subvenção que decorre de um estatuto de privilégio quanto ao montante e quanto à idade.

A democracia lida, cada vez mais, com maior dificuldade com estatutos de privilégio.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
Luís Parreirão
Advogado e gestor
19.03.2026

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320: A responsabilidade mole

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🇵🇹 OPINIÃO

Perante tantos acontecimentos e processos que nos parecem impossíveis de controlar e que cruzam os nossos dias com uma força incompreensível, como as guerras atípicas e a usurpação da comunidade internacional por uma loucura admitida, a redução brutal do poder de compra ou fenómenos naturais que destroem e surpreendem, podem ter passado despercebidos eventos, sucessivos, que arriscam ser sistémicos. Em concreto: nas forças policiais, PSP e GNR. Em três momentos recentes. Recorde-se o que está em causa.

Em Março de 2024, dois agentes da PSP, em Olhão, terão levado dois cidadãos, marroquinos para um descampado, onde os espancaram. Um deles veio a morrer na sequência dessa agressão, tendo sido agredido, enquanto algemado, com pancadas na cabeça. Segundo a acusação do Ministério Público aos dois polícias, reproduzida na imprensa, “a detenção obrigaria a um relatório escrito na esquadra, mas em vez disso terão feito um desvio e levado os dois imigrantes para uma estrada isolada a cinco quilómetros.

O Ministério Público diz que os agentes desferiram pancadas na cabeça e na face de uma das vítimas, Aissa, pelo menos uma das vezes com um objecto. O homem de 26 anos não terá conseguido defender-se, estava algemado com as mãos atrás das costas. A gravidade das lesões deixou-o nos cuidados intensivos. Ao fim de 19 dias morreu no Hospital de Faro. Tinha fracturas no crânio, nariz, maxilares e coluna”.

Na GNR, em Beja, descobre-se no ano passado que os seus guardas eram contratados por empresas agrícolas para gerirem a sua mão de obra imigrante. 10 militares da GNR (e um agente da PSP) aguardarão julgamento. “Era uma espécie de braço armado de uma rede de exploração laboral de imigrantes no Alentejo. Coagiam ou agrediam os trabalhadores agrícolas estrangeiros em situação de vulnerabilidade, forçados a trabalhar por salários reduzidos e sem contrato formal.

Foi por estas suspeitas que, ontem, a Polícia Judiciária deteve dez militares da GNR e um elemento da PSP, além de empresários agrícolas e intermediários. O serviço de “vigilância e coação privada”, praticado pelos elementos das forças de segurança, seria liderado por um oficial da GNR, com o posto de tenente”, escrevia-se no Jornal de Notícias de 26 de Novembro passado.

E, no coração da Lisboa bem-falante e alimentada a tostas de abacate, na Esquadra da PSP do Rato, a 500 metros do Parlamento e da residência oficial do primeiro-ministro, é notícia que agentes desta polícia agridem, torturam e violam pessoas dentro de uma esquadra.

Segundo o despacho da acusação transcrito, “um dos arguidos é acusado de um total de 29 crimes: sete de abuso de poder, seis de tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos graves, um de violação consumada, quatro de violação na forma tentada, dois de ofensas à integridade física qualificadas, dois crimes de falsificação de documento, um crime de furto qualificado, um crime de violação de correspondência ou de telecomunicações, um crime de ofensas à integridade física graves qualificadas, dois crimes de roubo e dois crimes de detenção de arma proibida”, escrevia-se na página da Amnistia Internacional.

O Euronews destacava: “Sete agentes da PSP ficaram em prisão preventiva por crimes de tortura grave, violação, abuso de poder e ofensas à integridade física graves. O caso pode alastrar-se a cerca de 70 colegas de várias esquadras”…

Ora há aqui qualquer coisa que não pode ser tratada como incidental e única. É credível que, em pleno centro de Lisboa, numa realidade com esta triste dimensão aparente, ninguém soubesse? Não há um ou vários responsáveis pelo quotidiano destas estruturas? Não há chefias? Continuam a sê-lo?

É que chefiar serviços públicos que usam fardas não pode servir apenas para as abanar como backdrop engomado em cerimónias.

PS – Num texto anterior neste espaço, referi-me, em lapso, a uma anterior ministra da Administração Interna como magistrada do Ministério Público e não como magistrada judicial. À visada e aos leitores, aqui ficam a nota devida e as minhas desculpas pelo facto.

Diário de Notícias
Miguel Romão
18.03.2026

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319: Variações queirosianas: o senhor Sousa Neto, hoje

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🇵🇹 OPINIÃO

Se bem se recordam os leitores que eventualmente partilhem a minha “ecite” (termo que os brasileiros inventaram para nomear a paixão avassaladora por Eça de Queirós que entra forte em alguns), a personagem de Os Maias o senhor Sousa Neto é um cavalheiro que se dirige a Carlos da Maia para lhe perguntar “se havia, lá na Inglaterra, folhetinistas, poetas de pulso, como temos aqui em Portugal”, respondendo-lhe Carlos, com desfaçatez, que “não senhor, não havia lá disso”, para satisfação do senhor Sousa Neto, que era, aliás, o nosso director-geral da Educação l, como revelou depois o Ega.

Os novos senhores Sousa Netos não se preocupam minimamente com a existência ou com a carência, seja onde for, de “folhetinistas, poetas de pulso”, porque não os leem, de qualquer modo. Mas todo o desprezo da moda passou para a cultura humanística e toda a admiração restante para a cultura que se possa verter em números.

Os senhores Sousa Netos não aceitam qualquer análise económica que não seja conforme ao liberalismo manchesteriano do século XIX, tido agora como detentor das luzes da modernidade e do perfil do futuro, ao contrário de liberais maçadores como Keynes ou (pior ainda) de socialistas que acreditem ainda no socialismo.

A política internacional é vista pelos senhores Sousa Netos estritamente no seguimento dos princípios proclamados por aqueles que mandam em nós, mas estão prontos a mudar de princípios, assim mudem os que mandam, porque, como Groucho Marx, têm sempre outros disponíveis.

O bom senso e o bom gosto estão a ser crescentemente banidos da vida internacional, onde parece ter-se perdido um módico de racionalidade. A lógica da força domina a fraqueza das lógicas. Da subtileza de O Príncipe de Maquiavel passámos bruscamente para a brutalidade pura do Leviathan de Hobbes.

Il est très fort”, dizia o diplomata Steinbroken (outra personagem queirosiana) sobre o chanceler Bismarck, construtor no século XIX da grandeza do poder alemão. E logo, angustiado, prosseguia: “Mais où va-t-il? Où va-t-il?” O século XX, com duas Guerras Mundiais que destruíram a Europa, deu a resposta histórica às dúvidas de Steinbroken.

A força pura conduz à destruição pura. Mas renasceremos como Humanidade. E haverá um futuro para julgar e condenar o que andámos todos a fazer nestes últimos anos.

E os senhores Sousa Netos desse distante futuro serão, num mundo em reconstrução, os mais determinados e consequentes pacifistas … enquanto não tiverem de mudar de princípios!1

CITAÇÃO DA SEMANA

“O caminho da História não é, de facto, o de uma bola de bilhar, que, após lançada, segue um curso previsível; assemelha-se, antes, ao caminho de uma nuvem, que segue também as leis da física, mas sofre ainda a influência de alguma coisa a que só poderemos chamar uma coincidência de factos.”

Robert Musil

“O alemão como

sintoma”, 1923

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor

18.03.2026

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314: Ucrânia ou Irão? A fronteira da soberania europeia

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🇵🇹 OPINIÃO

A guerra iniciada a 28 de Fevereiro pelos EUA e Israel contra o Irão não é apenas um foco de instabilidade no Médio Oriente e um factor de perturbação mundial de alto risco. Resulta de uma decisão labiríntica, que levanta muitas questões. Por essa razão, tornou-se o tema mais debatido nas diversas arenas internacionais. Os ângulos de análise são numerosos: a legalidade da decisão, os seus objectivos, incluindo o poder nuclear do Irão e a essência do seu regime, as implicações geopolíticas, macroeconómicas e humanitárias, a marginalização absoluta da diplomacia e do sistema político multilateral, bem como questões relacionadas com a política interna norte-americana.

Para nós é igualmente o choque que expôs as hesitações estratégicas da União Europeia. Enquanto o mundo se interroga sobre o futuro, a Europa enfrenta uma verdade inegável: ao deixar-se arrastar para o Golfo Pérsico, corre o risco de se esquecer que o futuro do nosso continente se decidirá, em grande parte, nas planícies da Ucrânia.

Para a Europa, o apoio à Ucrânia não é uma qualquer escolha de política externa, entre outras – é sim uma prioridade absoluta. Trata-se da defesa da nossa integridade territorial e dos nossos valores, da segurança dos países vizinhos candidatos à adesão à comunidade e da sobrevivência do projecto europeu. A agressão russa não visa apenas Kiev, mas sim e sobretudo a demolição de toda a arquitectura de cooperação que tem sustentado a paz no nosso continente desde 1945.

O regresso da Ucrânia a uma situação de paz, sólida e justa, reforçará a convicção de que as fronteiras europeias permanecerão invioláveis. Para a Europa, perder anunciaria um futuro de submissão perante Moscovo ou uma dependência sem fim à vista de uma Washington agora cada vez mais distante da filosofia e das opções políticas europeias.

Deixemos a Rússia para acrescentar que a UE não pode estar subordinada aos ziguezagues e aos interesses norte-americanos. Parceria e aliança não podem ser sinónimos de vassalagem. Isso não implica abdicar da crítica e das sanções a regimes autocráticos. As sanções são uma via para resolver querelas entre os Estados, sem recurso à guerra. Inaceitáveis são os conflitos armados e as acções militares fora do quadro legal das Nações Unidas.

Uma dimensão alarmante do presente conflito no Médio Oriente é a drenagem imediata de recursos que seriam vitais para a defesa legítima da Ucrânia. As estimativas mais recentes indicam que mais de 1000 mísseis interceptores Patriot (PAC-3) já foram disparados contra os ataques iranianos desde 28 de Fevereiro. Trata-se de um contraste onde a Ucrânia sai a perder, apesar da gravidade e da legitimidade da sua situação serem incomparavelmente superiores. Em quatro anos de resistência, a Ucrânia recebeu menos de 600 desses mesmos mísseis interceptores.

Esta disparidade sugere que a Administração Trump prioriza marcadamente os objectivos regionais do governo de Benjamin Netanyahu, em detrimento das democracias europeias. Bruxelas não pode assistir em silêncio enquanto o “escudo” que deveria proteger o céu ucraniano é consumido numa estranha guerra no Médio Oriente. Cada recurso gasto no Médio Oriente representa uma nova oportunidade para os mísseis russos que massacram dia e noite o povo ucraniano.

É à luz deste erro estratégico que deve ser lida a posição recente da liderança europeia. Neste cenário, a mensagem que Ursula von der Leyen passou esta semana aos embaixadores da UE é profundamente ambígua. O discurso deixou a impressão que Von der Leyen se aproximou mais das ideias de Trump e de Netanyahu do que da letra e do espírito da Carta das Nações Unidas.

No caso concreto dos ataques ao Irão, Von der Leyen ecoou mais os argumentos – os pretextos, seria mais correto dizer – repetidamente mencionados por Washington e Telavive que o Direito Internacional. Saiu do campo da neutralidade e da mediação, fragilizou uma vez mais a linha mais dialogante de Kaja Kallas e deixou uma parte significativa dos observadores europeus perplexos, incluindo algumas alas importantes do Parlamento Europeu.

A Europa deve ser vista pelo resto do globo como um espaço de valores e de acatamento do Direito Internacional, de equilíbrio geopolítico e de defesa do sistema multilateral. É aí que reside a nossa força, na cooperação com os países do Sul que vêem na Lei Internacional a protecção de que necessitam.

Ao adoptar a retórica da “força militar”, como se a Europa pudesse tornar-se da noite para o dia uma super-potência armada, a presidente da Comissão pareceu ignorar que a verdadeira autoridade da nossa União assenta na aceitação dos valores universais e na solidariedade com os diferentes povos do mundo. Como sublinhou António Costa após o discurso da presidente, a UE deve defender a ordem internacional baseada em normas. Costa não deixou espaço para ambiguidades.

Também não quero ser visto como ambíguo. Sou contra a submissão e não defendo uma política de neutralidade, porque não escolher já é, em si, uma opção, e raramente a melhor. Não advogo nem o silêncio, nem a indiferença. Já Dante dizia há mais de sete séculos na Divina Comédia, a sua obra monumental, que “no inferno, as labaredas mais impiedosas estão reservadas para os que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.

O respeito pela Lei Internacional e pelo direito à legítima defesa não são neutrais. São maneiras civilizadas de dizer não às decisões arbitrárias, ao uso da força bruta e aos ataques contra os Direitos Humanos. É essa clareza meridiana que espero dos dirigentes europeus e que o futuro nos exige.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
13.03.2026

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309: Timor-Leste não esquece

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🇵🇹 OPINIÃO

Há poucas semanas, quando boa parte de Portugal estava a ser assolada pelos temporais, Timor-Leste decidiu enviar um donativo de apoio. Não foi a primeira vez que chegou a Portugal essa solidariedade do outro lado do mundo, o mais distante dos países lusófonos: no ano passado, também as autoridades timorenses tinham oferecido uma ajuda em resposta aos fogos em território português.

Aliás, não resta dúvida da forte ligação emocional entre Portugal e a sua antiga colónia asiática. Os timorenses não esquecem a solidariedade do Estado Português, e do povo português, durante a ocupação indonésia, que durou entre 1975 e 1999. Foi obra da diplomacia portuguesa o referendo patrocinado pelas Nações Unidas que permitiu ouvir a vontade dos timorenses sobre o futuro que ambicionavam para a sua terra: quatro em cada cinco escolheram então a independência, proclamada finalmente em 2002, depois de uma primeira tentativa frustrada em 1975.

Se há nome que simboliza a resistência timorense é José Ramos-Horta. Com Xanana Gusmão a liderar a guerrilha nas montanhas de Timor, coube-lhe liderar a frente externa. O Nobel da Paz que recebeu em 1996, cinco anos depois de o massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, ter exposto ao mundo a brutalidade do Exército ocupante, foi um passo decisivo para mobilizar a comunidade internacional contra a tentativa de anexação.

“Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9.”
Paulo Spranger

Herdeira das Índias Orientais Holandesas, desde a independência em 1949, a Indonésia sempre tinha respeitado a soberania portuguesa sobre a metade leste da ilha de Timor, onde os nossos navegadores chegaram no início do século XVI. Sukarno, primeiro presidente, chegou a visitar Portugal. Mas com Suharto no poder, e no contexto da Guerra Fria, Timor foi invadida no mesmo ano em que se deu a queda de Saigão. Para contrariar a teoria do dominó, e alegando que a descolonização portuguesa tinha aberto portas ao comunismo, Suharto procurou transformar os timorenses em indonésios, mas falhou. E hoje Timor-Leste é um jovem país que merece elogios, basta ver a posição que ocupa nos índices de democracia e de liberdade de imprensa.

Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9. No Facebook contou que foram muitas horas a viajar, mas que não podia faltar, para cumprimentar o novo Presidente português. Voou de Díli para Bali, dai para Hong Kong, depois para Zurique e finalmente aterrou em Lisboa. “Chegámos no dia 8, a meio do dia. Temperatura amena, agradável. Não podia faltar. Cerimónia comovente, mais uma pedagogia de democracia. Parabéns Portugal. Vir a Portugal é vir à segunda Casa Mãe”, escreveu o presidente timorense, que me recordo de nos anos 1990 ir ao DN, no edifício histórico da Avenida da Liberdade, encontrar-se com Carlos Albino, o jornalista que acompanhava a difícil situação em Timor.

“Timor-Leste merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e materiais, e oferecendo bolsas de estudo no país.”

Também me recordo de o ter entrevistado em Díli, em 2021, antes de voltar a ser eleito presidente. Então, Ramos-Horta mostrou-se optimista sobre o futuro da língua portuguesa em Timor-Leste, que é oficial a par do tétum. Se o grande legado português é o catolicismo (e a Igreja foi essencial na defesa da identidade aquando da ocupação pelo maior país muçulmano), a opção pela língua portuguesa em detrimento do bahasa ou do inglês foi uma escolha política que merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e manuais, e oferecendo bolsas de estudo.

É longe? Sim, é longe, mas isso nunca impediu a solidariedade nos tempos de resistência à Indonésia, nem que agora Ramos-Horta viajasse longas horas para assistir à passagem de testemunho de Marcelo Rebelo de Sousa a Seguro. A distância também não existiu, quando Timor, país pobre, indo buscar aos seus limitados recursos petrolíferos, se lembrou de ajudar Portugal em tempo de tempestade ou de fogos.

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
Diretor-adjunto do Diário de Notícias
11.03.2026

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308: “Epá, desisto, não quero saber mais”: quanto mais o mundo precisa de salvação, maior a indiferença?

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🇵🇹 OPINIÃO

Há quem fale de “psychic numbing” (“entorpecimento psicológico”) e quem use a expressão “fadiga da solidariedade”. Certo é que parece haver cada vez mais pessoas, face ao carrossel de tragédias e ao sentimento de “tudo cada vez pior”, a querer desistir de acompanhar a actualidade e a desligar a empatia.

Manifestação em Israel, em Setembro de 2025, pela libertação dos reféns ainda então detidos pelo Hamas e o fim da guerra em Gaza. Este é um dos conflitos/tragédias que, em conjunto com a invasão russa da Ucrânia e, agora, a intervenção dos EUA e Israel no Irão, mais são referidos como motivo da overdose de pessimismo que leva ao desligar da empatia.
ABIR SULTAN / EPA

“Parece que estamos a ser bombardeados de todos os lados e para onde quer que se olhe é tudo mau.”

“Chamo-lhe o PAEC: processo de alienação em curso.”

“Às tantas já não sei se é normal ou se se passa algo de errado comigo. Olho para as coisas com um distanciamento e um pessimismo enorme. Não vejo qualquer tipo de esperança ou de futuro para o mundo, para a sociedade.”

“Esse sentimento de ‘Epá, não, desisto, não quero saber mais, não adianta, não posso fazer nada e quem podia/pode, ou já não pode ou não quer fazer’, sim, tem-me vindo a assolar bastante nos últimos tempos.”

As vozes são de quatro pessoas diferentes, em resposta, no Twitter/X, à pergunta “mais alguém está a sentir que ante tanta merda a acontecer quer desligar por se afogar em impotência?”  A última das quatro é Pedro, 40 anos, bancário. Questionado sobre o momento em que foi invadido por tal desalento, aponta para 2025: “No último ano esse sentimento acentuou-se. Parece que vivemos em ‘última hora’ de forma permanente: nem bem terminou a pandemia, começou a invasão da Ucrânia, o genocídio em Gaza, o descalabro da democracia nos EUA, o lambe-botismo da UE, o Direito Internacional a ser enterrado… Daí a sensação de impotência elevada à nona potência.

Mas não é só, precisa, “a sensação de impotência, como a da inevitabilidade (de que algo, de facto, terá de acontecer). Tento desviar alguma atenção deste círculo vicioso: menos consumo de notícias, mais de tudo o resto (livros, filmes, séries, meditação, ginásio, etc). Mas não é fácil porque estão, de facto, a acontecer coisas, e viver na ignorância por opção parece-me, no mínimo, muito estranho. Talvez afine mais o que leio/vejo, sobretudo online. Claro que as redes sociais (X, principalmente) contribuem para este estado de actualização permanente, mas acaba por ser inevitável, já que são acontecimentos verdadeiramente cruciais. Um detox digital urge mas não será fácil.”

Rita, 50 anos, que como auxiliar de acção directa num serviço de apoio domiciliário trabalha exclusivamente com idosos com demência, está no mesmo sítio: “Estou a tentar não pensar nos assuntos, não ter muita informação. Neste momento sinto que viver ‘na ignorância’ é uma estratégia para manter a minha sanidade mental face à actualidade. Penso que tem vindo a escalar depois da pandemia e guerra na Ucrânia. Não sei se será apenas impotência, no meu caso talvez seja mais falta de esperança em voltar a viver num mundo normal… E será sentimento de impotência ou egoísmo? Também penso nisso.”

O egoísmo de não querer sentir que se é totalmente impotente, que seja o que for que se pense ou deseje ou se faça não serve para nada? Mariana, 30 anos, académica que tem nas suas áreas de investigação “especialização em paz e conflitos”, assente: “Agora, acordar, pegar no telemóvel às sete da manhã ou antes de ir dormir, e ler que os EUA e Israel continuam a violar o Direito Internacional, a bombardear países, crianças, seres humanos, saber que quase nenhum estado do Norte Global os pode ou os quer parar, dá uma sensação geral de impotência enorme. Também porque destrói as bases dos valores que defendo, do que estudei, dos temas com que trabalho. Sempre senti isto, mas de forma muito intensa desde o genocídio na Palestina, que, em última análise, foi onde se testaram os limites da banalidade do mal no nosso século.

Para tentar “não sucumbir à apatia”, Mariana faz um esforço para “transformar estes sentimentos em acção, activismos”, e tenta “limitar os horários de acesso a algumas redes sociais para reduzir a intensidade”.

Já Tânia, 49 anos, economista que trabalha em marketing, recusa desligar mas, reconhece, “é uma luta”. Inventou uma palavra, “desesperância”, para descrever o que sente “desde Gaza” e aventa que possa haver, no que respeita a alguns actores ou movimentos políticos, uma deliberação no bombardeamento de enormidades, de modo a criar apatia: “Conheço várias pessoas que me dizem que já não conseguem ver notícias, que já está para além delas, do que conseguem aguentar. Julgo que o sentimento é de negação porque é mau demais. Começo a achar que é uma estratégia premeditada. Decerto foram percebendo que, ultrapassando um determinado limite, as pessoas bloqueiam e a intenção é mesmo essa. Bloqueados é o estado que julgo nos define melhor neste carrossel de horrores.

O triunfo do mal e a “fadiga da compaixão”

A noção de que, confrontados com calamidades avassaladoras — ou aquilo que sentem ou percebem como tal —, as pessoas tendem a desenvolver indiferença ou apatia tem vindo a ser frequentemente resumida na expressão “psychic numbing”, ou “entorpecimento psicológico”. Usada na actualidade para referir sobretudo o sentimento expresso pelas pessoas que responderam à citada pergunta no Twitter — um sentimento nascido sobretudo da observação de acontecimentos terríveis à distância, através dos media —, a expressão foi cunhada a partir de algo bastante mais radical: o efeito de uma das mais terríveis tragédias registadas na história em pessoas que a viveram directamente.

O seu autor é o psiquiatra americano Robert Jay Lifton, a partir da investigação junto de sobreviventes da bomba largada pelos EUA a 6 de Agosto de 1945 sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Os seus entrevistados, escreveu Lifton em Death in Life: The Survivors of Hiroshima/Morte em vida: os sobreviventes de Hiroshima, ficaram emocionalmente bloqueados em resposta às horríficas cenas de morte em massa a que assistiram. Algumas décadas depois, a expressão foi utilizada pelo psicólogo americano Paul Slovic para referir um outro mecanismo: aquele que leva a que, ante a notícia de hecatombes humanitárias nas quais perecem dezenas ou centenas de milhar de seres humanos, se instale uma indiferença que, para este cientista social, advém precisamente da dimensão da catástrofe.

If I Look at the Mass I will Never Act: Psychic Numbing and Genocide/Se eu olhar para a multidão nunca agirei: Entorpecimento psicológico e genocídio” (2007) é um dos artigos que publicou sobre esse fenómeno. Partindo da asserção de que ao longo da história recente “as pessoas boas repetidamente ignoraram o homicídio em massa e o genocídio”, Slovic aprestou-se a perceber porquê, para concluir que “as estatísticas de homicídio em massa e genocídio, não importa quão esmagadores os números, não conseguem representar o verdadeiro significado dessas atrocidades. O reporte do número de mortes corresponde a estatísticas sem interesse, ‘seres humanos com as lágrimas secas’, que não logram desencadear emoção ou sentimento e portanto não motivam acção.”

Tendo pedido emprestada à freira albanesa-indiana que ficou conhecida como madre Teresa de Calcutá a frase do título — “Se olhar para a multidão nunca agirei. Se olhar só para uma pessoa, sim” — , Slovic cita um colunista digital que em 2005 observou: “Há mais de 60 anos, desde a libertação dos campos de morte nazis, dissemos ‘nunca mais’. Desde então assistimos a extermínios em massa de seres humanos, seja por maldade deliberada ou por pura, sanguinária, estupidez ideológica, na China, no Cambodja, na Nigéria, na Etiópia, no Kosovo, no Rwanda. De cada vez censuramos, censuramos, mas… não fazemos nada. ‘Nunca mais’ transformou-se em mais e mais outra vez.”

O psicólogo prossegue a reflexão referindo que as organizações humanitárias há muito perceberam que para obter dádivas é muito mais eficaz apresentar uma única criança, com nome e rosto e história, que pedir para a grande causa das crianças desvalidas ou em perigo. Há experiências que o comprovam, como é o caso daquela em que esteve envolvido, publicada em 2007: um grupo de pessoas foi confrontado com a possibilidade de doar cinco dólares (4,30 euros na actual taxa de câmbio) para uma ONG (Save the Children), com três opções: uma criança identificada com nome, rosto e história; número total de vítimas; vítima identificada mais informação sobre o número total de vítimas. Em todas as opções, era dada a informação de que “todo o dinheiro doado seria usado para mitigar a fome na Etiópia e na África Austral”. As doações para a criança identificada foram muito superiores às dirigidas às vítimas em geral. Mas mais relevante ainda, e, lamenta Slovic, “mais desanimador”, é que ante a opção que aliava a cara, nome e história da criança individualizada com os números das outras vítimas as pessoas doavam menos que quando estava só em causa essa mesma criança.

Há pior: um grupo de estudantes suecos foi usado numa experiência em que foram divididos em três grupos, cada um para uma destas três opções: doar a uma criança identificada do sexo feminino; doar a uma criança identificada do sexo masculino; doar às duas. Para cada opção, deviam pontuar o seu nível de afecto de 1 (negativo) a 5 (positivo). A conclusão foi de que no caso das crianças individualizadas o valor da doação estava fortemente relacionada com o sentimento; no caso do par, essa correlação era muito menor. Se, conclui Slovic, a nossa capacidade de sentir é limitada, esta experiência parece indicar que a “fadiga da compaixão”, começa nos muito pequenos números — no número dois, pelos vistos.

E Slovic conclui: “Robert Jay Lifton cunhou o termo ‘psychic numbing’ para designar o ‘desligar’ do sentimento que possibilitava, no horrífico rescaldo do bombardeamento de Hiroshima, que quem tentava ajudar pudesse continuar a fazê-lo; aqui estamos perante um entorpecimento sem qualquer resultado positivo. É, ao contrário, um entorpecimento que leva à apatia e à inacção, consistente com aquele a que temos repetidamente assistido na reacção ao homicídio em massa e ao genocídio.”

Empatia e etnocentrismo

A compaixão pelos outros é “uma flor frágil, facilmente esmagada pelo egoísmo”, escreve ainda o psicólogo, citando o estudo Influence of self-reported distress and empathy on egoistic versus altruistic motivation to help (1983). E nessa equação os vieses desempenham um papel muito relevante.

Um bom exemplo desses vieses é a forma como o mundo ocidental reagiu em Setembro de 2015 à imagem do cadáver de Alan Kurdi, o menino de três anos fotografado numa praia turca após o naufrágio do barco de refugiados sírios em que seguia com a família (da qual só o pai se salvou). Também aí se proclamou “nunca mais”. Alan foi apenas uma de muitas, muitos milhares, de crianças mortas devido à guerra na Síria — mas ali estava, vestido como um menino ocidental, branco como um menino ocidental, igual a qualquer criança ocidental e portanto identificado e sentido como “nosso”. De repente, toda a gente garantia que era preciso salvar os Alan Kurdis, que não podia continuar a indiferença e a crueldade que lhes barrava a entrada na Europa. Mas, como é sabido, nada mudou — ou, na verdade, as coisas mudaram para pior, com o movimento anti-imigração e anti-refugiados a ganhar cada vez mais apoiantes e políticas de acolhimento como a que Angela Merkel aplicou na Alemanha a serem responsabilizadas pelo escalar do extremismo nativista de extrema-direita. A mágoa e a empatia europeias/ocidentais esgotaram-se nas lágrimas por aquela criança morta, sem reflexo em todas as outras que poderiam ser salvas.

“Somos todos humanos, ou alguns são mais humanos que os outros? Se acreditamos que todos os humanos são humanos, como é que o provamos? Só podemos prová-lo através das nossas acções”, escreveu o militar canadiano Roméo Dallaire, que comandava a missão da ONU no Rwanda aquando do genocídio que ocorreu naquele país africano, em 1994, e que não conseguiu que lhe dessem autorização nem tropas para tentar impedir a mortandade que ceifou 800 mil vidas em 100 dias.

Ao contrário de Dallaire, a maioria de nós não está em situação de tentar impedir massacres — só podemos envolver-nos de formas muito mais distantes e bem menos arriscadas. E, no entanto, a tendência geral será, como aduz Slovic, para nos afastarmos emocionalmente desse tipo de ocorrência, de soçobrarmos à fadiga da compaixão e da solidariedade.

“Há um fenómeno de saturação. As pessoas estão constantemente a ser bombardeadas com informação. Quando as coisas começam a atingir uma determinada intensidade, quanto maior é essa intensidade, mais temos tendência para nos protegermos. Começamos a ficar como que saturados de nos expormos e então procedemos ao fenómeno de evitamento, procedemos a uma negação afectiva”, diz ao DN a psicóloga Ana Cardoso de Oliveira. “Começamos por empatizar, mas os seres humanos foram feitos para a acção, e quando, ante algo de horrível, sentimos que não podemos fazer nada, o impulso é fugir. E o fugir é omitir essa informação dentro de mim, é desligar. A ideia é ‘não consigo fazer nada, portanto, olha, é deixá-los.’ E quanto mais os acontecimentos são distantes, menos empatia temos. Aí temos tendência para intelectualizar, enquadramos do ponto de vista histórico, encontramos razões. Porque somos extremamente etnocentrados.”

“Se te sentes sem saída não estás só”

Pode ser esse etnocentrismo a explicar que aquilo a que se dá o nome de psychic numbing esteja a afirmar-se entre nós de forma mais generalizada nos últimos tempos, aventa esta psicóloga, que nota um crescendo desse tipo de fenómeno na sua prática clínica. O que se deverá, crê, não só à imersão diária no tsunami informativo mas também ao facto de “haver mais coisas a acontecer no hemisfério ocidental”.

Nos últimos anos, a incerteza sobre o presente e o futuro passou a atingir de forma particularmente aguda a Europa e as Américas. Se a pandemia, com o seu sabor apocalíptico, surtiu um grande rombo na forma como vemos as coisas, será provavelmente a partir da segunda invasão da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro de 2022, a que se seguiu, a 7 de Outubro de 2023, o horrendo ataque do Hamas a Israel e a infindável e genocida retaliação deste país sobre Gaza, e logo depois a alteração, com a segunda era Trump, a partir de 2025, do papel dos EUA no mundo e na relação com a Europa, e também agora o ataque conjunto de EUA e Israel ao Irão, que o sentimento de “é de mais, não consigo” se notabiliza.

Claro que, como bem nota Ana Cardoso de Oliveira, a preocupação com Gaza e com as consequências da mudança política nos EUA ou com a actual ofensiva contra o Irão “não estão presentes em todas as pessoas, mas mais nas camadas diferenciadas da população”. Dever-se-á, de resto, sublinhar que aquilo que para uns é grande motivo de angústia — a escalada do extremismo nativista, do racismo, xenofobia e misoginia, e o aumento do apoio a ideias, regimes ou políticos autocráticos e belicistas — será para outros razão de alegria, esperança, maior confiança no futuro.

Nesta matéria, há uma forte divisão entre a esquerda e a direita. Quem, como a antropóloga britânica Theresa MacPhail num artigo publicado em Janeiro no Guardian (“Vivemos num tempo de policrise. Se te sentes sem saída não estás só”), fala da incapacidade de imaginar “um futuro melhor”, da sensação paralisante de apenas existirmos, sem horizonte, encurralados no agora, não pertence decerto às fileiras dos movimentos que recuperam ideologias que se julgou, pelo menos no que respeita ao Ocidente, terem sido para sempre derrotadas há quase um século.

“Não tinha realmente percebido o quanto a ideia de um futuro melhor me aguentava — como me tornava a vida mais vivível, as dificuldades mais suportáveis, e possibilitava a criatividade. Quando podíamos facilmente imaginar um mundo mais justo e mais saudável, era mais fácil comprometermo-nos com projectos de longo prazo e investir na próxima geração”, escreve MacPhail.

É como se a linha daquilo que uma parte das pessoas — as que sentem este desalento, precisamente — via como progresso se tivesse partido, e a reacção fosse a de deixar cair os braços, porque se sente que, perante uma tal regressão, não vale mais a pena lutar. Que, como na canção dos Xutos e Pontapés O Homem do Leme (“a vida é sempre a perder”), a história, o mundo, são sempre a perder.

No Twitter e nas respostas à pergunta inicial, a conta anónima @masquepiadaéqueissotem resume, como num longo e soturno suspiro, esse desânimo: “Sinto uma certa pena e um certo desapontamento por não poder deixar um mundo melhor como os meus pais acreditavam que me deixavam a mim. Mas olhando a história, o período de paz e acalmia que se viveu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial foi uma excepção na humanidade. E foi uma excepção europeia. (…) No fim de contas, não temos como resolver nada sobre as guerras em curso. Mas lamento profundamente que se esteja a regressar a um mundo mais inconstante, onde manda o bully da escola.”

Também no Twitter mas em sentido contrário, a escritora e jornalista Inês Pedrosa, 63 anos, aconselha contextualização e, portanto, esperança e ganas. “Todos os dias ao acordar, desde muito miúda, agradeço à sorte não ter nascido num país islâmico. Nos dias piores, ler Hannah Arendt também ajuda. Ou a História da Idade Média, ou da Roma Antiga. Ou a vida das mulheres na encantadora democracia grega. (…) Além desta epígrafe existencial que roubei ao Savater: ‘Recusar-me-ia a  nascer antes da invenção da anestesia’. (Cuja hoje em dia não é acessível a nenhuma mulher no Afeganistão…) O progresso não é uma linha recta, mas existe.”

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.03.2026, 20:12

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