307: A húbris épica de Trump e Hegseth

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🇵🇹 OPINIÃO

Sim, é possível odiar, com todas as forças, o regime do Irão, querer, desesperadamente, que ele acabe, e achar o ataque dos EUA e Israel uma completa, contraproducente e estulta barbaridade.

Desde que há pouco mais de uma semana Israel e os EUA iniciaram o seu ataque furioso ao Irão que tenho estado, pacientemente, a ouvir e a ler acusações descabeladas “à esquerda” e “às feministas de esquerda” sobre a sua alegada indiferença em relação ao destino das iranianas e iranianos que lutam contra o regime dos ayatollahs e até sobre a suposta defesa que a esquerda e as “feministas de esquerda” estariam a fazer desse mesmo regime.

Essa defesa, dizem e escrevem os que protagonizam tais diatribes, comprovar-se-ia pelo facto de a esquerda e as feministas de esquerda estarem, ao contrário dos iranianos que lutam contra o regime, a criticar a operação a que os EUA deram o nome de “fúria épica”. A Internet encheu-se de cartoons em que esquerdistas ocidentais explicam a iranianas por que motivo devem estar contra a intervenção e estas respondem sarcasticamente algo como “sim, deves saber melhor que eu e os meus o que é melhor para mim.”

Sem dúvida que há iranianas e iranianos a aplaudir o ataque, e sem dúvida que houve iranianas e iranianos a pedi-lo, a suplicar por ele. Há umas semanas, uma iraniana que está a viver em Portugal disse-me isso mesmo: “Precisamos de uma intervenção militar internacional.” Quem deveria intervir? “O mundo inteiro. Porque o que se está a passar dentro do país é um genocídio.” Quando falámos dos EUA e de Trump e do que este tinha dito — que iria intervir se começassem a matar manifestantes (o que como é sabido sucedeu, e aos milhares, havendo estimativas de até 40 mil opositores assassinados) —, ela não hesitou: “Queremos que os americanos intervenham no Irão. Quando não se vive sob aquela opressão, é fácil dizer que os EUA e Trump são bullies. Queremos que o regime caia, queremos ajuda, qualquer ajuda. Só queremos que seja cortada a cabeça da serpente.”

Quando quis saber o que, na opinião dela, sucederia ou deveria suceder caso os EUA interviessem (nem chegámos a discutir que tipo de intervenção poderia ter o resultado que ela almejava, ou seja, o que seria “cortar a cabeça da serpente”), respondeu: “Isso são muitas perguntas, não sei. São perguntas muito complicadas.”

Como tantos iranianas e iranianos dentro e fora do Irão, decerto esta jovem mulher terá festejado a notícia da morte, logo no primeiro dia dos bombardeamentos, do odioso Ali Khamenei, o clérigo xiita que desde 1989 ocupava o cargo de líder supremo do Irão, e sentido essa morte como o almejado princípio do fim do regime. Ao fim de tantas décadas de horrível repressão, de perseguição infrene aos que lutam por democracia, liberdade e um regime laico, do sangrento esmagar de sucessivas revoltas, a aniquilação do principal rosto da bárbara nomenclatura religiosa que submete o país não poderia deixar de ser recebido com júbilo. Mas, para além de causar satisfação — sim, podemos retirar satisfação da morte de um tirano sob cujas ordens incontáveis seres humanos foram perseguidos, presos, torturados e executados —, essa morte é o “cortar da cabeça da serpente” que a minha interlocutora deseja?

É cedo para dizer, mas a eleição, este domingo, do filho do líder assassinado para o seu lugar leva a crer que a resposta é negativa. Se o regime pode sobreviver às vagas sucessivas de bombardeamentos que estão a destruir as infra-estruturas do país não é possível prever, como não é possível perceber que plano, se algum, têm os EUA para o resultado da sua intervenção (os de Israel parecem bem mais claros: destruir o país e fragmentá-lo em unidades territoriais/étnicas, de modo a desaparecer como potentado regional, e o resto que se dane).

Ouvir Trump reconhecer, com impagável candura, que as pessoas com que contaria para fazer algo como o que está a fazer na Venezuela (eliminar Maduro e deixar o regime intacto, mantendo no poder a lugar-tenente do presidente raptado para que ela faça aquilo que ele manda, nomeadamente dar-lhe acesso ao petróleo) foram todas mortas ao mesmo tempo que Khamenei — olha o azar — ou o indescritível Peter Hegseth, “ministro da Guerra”, a debitar abjecções infantis e ocas, qual bully de liceu ou vilão de filme manhoso, como “morte e destruição caem do céu todo o dia”, “isto nunca foi suposto ser uma luta leal, atacámo-los quando estavam no chão e é assim que deve ser” e “esta guerra não é como as guerras politicamente corretas do passado, não há cá as estúpidas regras de engajamento” (em referência às regras da guerra que proíbem por exemplo o ataque a alvos civis, mas também ao Direito Internacional em geral), certificando que o objectivo nunca foi mudar o regime, não é decerto de molde a tranquilizar nem iranianos nem o mundo em geral.

O que parece é que Trump achou que era boa ideia, até pela quantidade de problemas internos com que se tem confrontado, dos ficheiros de Epstein aos crimes do ICE, aproveitar a boleia dos israelitas para dar um show de belicismo “the american way”, como se tudo isto fosse um filme de acção para ver com pipocas — aliás, há dias a Casa Branca publicou um vídeo a glorificar a intervenção que entremeia imagens dos ataques ao Irão com excertos de fitas de super-heróis. Não é de esperar que tenha reflectido muito sobre o como, e muito menos sobre o porquê e o para quê: tem o poder e usa-o como lhe apraz a cada momento, tanto mais que desta vez, em segundo mandato, se soube rodear de gente tão ignorante e alucinada como ele.

É pois altamente duvidoso que algo de positivo resulte de um tão épico aparato de estupidez e barbaridade como o que o governo americano neste momento apresenta. E não é o facto de muitas iranianas e iranianos terem, em desespero, desejado uma intervenção estrangeira e saído às ruas a celebrá-la que muda a triste realidade.

O tão corajoso povo do Irão, a tão orgulhosa nação iraniana, as bravas feministas que afrontaram e afrontam décadas de opressão merecem triunfar — mereceram-no a cada revolta banhada em sangue, a cada vez que acreditaram, como tantos fora do país acreditámos, que a vitória não ia escapar. Não será, porém, um autocrata que mais não tem feito que destruir a democracia no seu país, e já admitiu que não se importa se os fundamentalistas xiitas mantiverem o poder desde que seja ele a escolher quem fica, nem, decerto, o maléfico Netanyahu, a trazer-lhes a liberdade. Oxalá fossem — oxalá pudesse, de toda esta maldade, de tão desalmada húbris, sair algo de bom.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
10.03.2026

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303: Teresa Morais

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🇵🇹 OPINIÃO

A actividade parlamentar da última semana voltou a trazer para o centro do debate uma questão difícil que ainda consome muita gente de bem: como deve a democracia lidar com quem testa constantemente os seus limites? Num prato da balança pesam-se os riscos de dar palco à vitimização que faz parte das narrativas “anti-sistema”; no outro, os riscos de normalizar atropelos e abusos quando apenas se encolhem os ombros.

Antes de mais, convém perceber que a Assembleia da República não é apenas um palco de confronto político, mas também, e antes de mais, a casa da democracia. Um espaço onde a liberdade de expressão e o debate aceso devem conviver com regras de respeito institucional, responsabilidade e decoro. Quando essas regras são sistematicamente desafiadas e desrespeitadas, estamos perante uma tentativa de redefinir as fronteiras do jogo democrático.

Foi isso que Teresa Morais decidiu não deixar passar em claro, esta semana, no Parlamento. A vice-presidente da AR tomou as rédeas das sessões, na ausência do presidente Aguiar-Branco, e decidiu ser vocal na defesa da honra da instituição a que presidia naquele momento.

Primeiro, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, assinalando a André Ventura que não podia deturpar as regras da interpelação à mesa para continuar o discurso político e não recuando perante as desconsiderações do presidente do Chega, que a tentou menorizar dizendo-lhe que “nem deveria estar ali” naquele dia.

Depois, no dia seguinte, quando decidiu não deixar passar uma acusação de Ventura à deputada Isabel Moreira, do PS, e às líderes parlamentares do Livre e do PCP, de ficarem caladas quando as mulheres são violadas por cidadãos estrangeiros. Ao afirmar que nenhuma deputada quer esconder violadores ou ignorar crimes contra mulheres, Teresa Morais não fez uma intervenção partidária, nem agitou qualquer bandeira feminista. “Limitou-se” a fazer o essencial: defender a honra da instituição a que presidia naquele momento.

Há quem veja nesta atitude a ingenuidade de alimentar a narrativa preferida dos populistas: a do “sistema” que os quer silenciar. Basta lembrar como o antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, foi tantas vezes acusado de contribuir para o crescimento do Chega por isso.

Numa abordagem diferente está, por exemplo, o estilo do actual presidente, José Pedro Aguiar-Branco, defensor de deixar que a própria dinâmica do debate parlamentar regule os conflitos.

Ambas as abordagens têm riscos evidentes. Mas quando um dia olharmos para trás para fazer o balanço deste tempo político, será importante perceber que houve quem não hesitou em erguer a voz para defender as instituições democráticas e os valores da decência. Teresa Morais, seguramente, não poderá ser acusada de ter assistido em silêncio.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

09.03.2026

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301: Realismo geopolítico: quando a força se sobrepõe ao Direito Internacional

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🇵🇹 OPINIÃO

Lamento ter de repetir, mas criticar a teoria do realismo geopolítico não constitui um exercício de idealismo ingénuo. Trata-se, pelo contrário, de recordar três dimensões fundamentais das relações entre os Estados. Primeiro, que a paz deve ser o princípio basilar da ordem internacional.

Segundo, que a Carta das Nações Unidas – ainda que careça de actualização em matéria de representatividade e do funcionamento do Conselho de Segurança – deve ser escrupulosamente respeitada. Terceiro, que o poder da força militar não pode, nem deve, sobrepor-se à força do Direito Internacional. O mundo não é um ringue de boxe, nem uma arena de gladiadores, onde vence invariavelmente o mais forte.

O erro central do pretenso “realismo político” reside na redução do Estado ao papel de um ator único, ignorando as práticas democráticas. As instituições, as associações de cidadãos, os agentes económicos, a comunicação social e os intelectuais são desvalorizados ou instrumentalizados como meros peões do poder.

As oposições são diminuídas nos seus direitos, como alternativas normais em democracia. Na realidade, este pretenso realismo, que mais não é do que uma forma de reducionismo político, abre as portas ao poder absoluto e arbitrário, mesmo nas democracias aparentemente consolidadas.

Um líder, quando encara o mundo apenas pela alavanca da força e da agressão militar, vive ancorado noutros tempos, tem as suas raízes mentais enterradas no passado. Coloca-se fora da lei e chama a isso pragmatismo. Ignora – ou finge ignorar – que há um antes e um depois de 1945, e que o mundo mudou radicalmente desde o fim da Guerra Fria. Quando fala em “negociações”, refere-se, na verdade, à submissão do mais fraco perante a vontade do mais forte.

No século XIX, tal prática designava-se por “ultimato”. Hoje, apresenta-se sob a capa de um denso “nevoeiro geopolítico”. A falta de visibilidade, permite um jogo sem regras claras. A diplomacia é capturada para ganhar tempo, semear confusão – entre adversários e junto da opinião pública– e preparar, na sombra, a logística da guerra. Podemos confiar, hoje e amanhã, num líder assim?

Ahmed Mardnli / EPA

A guerra contra o Irão recorda-nos que é imperativo e urgente insistir na ética internacional e nos Direitos Humanos. Quando a força bruta se torna o critério primordial, ninguém está verdadeiramente seguro – nem mesmo os mais poderosos. Se os Direitos Humanos são desprezados, o medo transforma-se na única verdade aceitável e na regra social dominante. A novilíngua de George Orwell começa, inquietantemente, a ser imposta como norma linguística, quando em certas capitais europeias se fala de personagens invulgares que agora aparecem à boca de cena.

O que acontece hoje no Médio Oriente sublinha uma realidade constante: durante e no fim das más decisões e do despotismo, há sempre um grande número de seres humanos a pagar a factura. Esta realidade leva-me a sustentar que a única soberania que verdadeiramente conta é aquela que assenta na protecção da vida e da dignidade humana. Tudo o resto pertence à comédia trágica do poder, às ambições megalomaníacas absurdas e à indiferença perante as pessoas e o próprio mundo. Estaremos a assistir ao declínio definitivo das preocupações humanistas?

É urgente levar este tema à mesa do Conselho de Segurança. A diplomacia portuguesa, empenhada em obter um assento no Conselho para o biénio 2027-2028, deve assumir esta visão como uma bandeira sua: a bandeira da paz, do diálogo e da tolerância, com a Humanidade acima de tudo. Ao fazê-lo, Portugal alinhar-se-á com a maioria dos Estados-membros e com a própria essência da ONU. Não seremos meros espectadores passivos do niilismo e do unilateralismo actuais, mas sim uma voz ativa, capaz de proclamar que os grandes desafios exigem respostas colectivas e multilaterais.

A nossa participação na NATO tem um objectivo de paz e não impede a construção de pontes com organizações regionais na América Latina, em África ou na Ásia. Num momento em que algumas potências se afastam da ONU, ou a querem subalternizar e capturar, a diplomacia portuguesa poderá servir de mais um pilar – em articulação com outros Estados – na construção de consensos, na defesa do Direito Internacional e no apoio às instituições de interesse comum. Por exemplo, dos tribunais internacionais sediados em Haia e dos organismos do sistema das Nações Unidas, vitais para milhares de milhões de pessoas e para o planeta.

Em Junho, a Assembleia Geral votará a composição do Conselho para os próximos dois anos. A campanha portuguesa decorre num contexto exigente e bastante delicado. O nosso maior trunfo deve ser a promoção intransigente da paz através do reforço do papel político da ONU. É essa a mensagem que o mundo quer – e mais precisa – de ouvir com clareza.

Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
06.03.2026

Os renascidos 4 estarolas pré-históricos do século XXI

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299: A farsa dos loucos e Portugal

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🇵🇹 OPINIÃO

Querem um exemplo concreto da relevância do multilateralismo entre estados que também protege as populações portuguesas e Ocidentais? Olhem para o caos no Médio Oriente com a resposta do Irão à Operação Fúria Épica e onde tudo isso esteve ausente desde o primeiro momento.

Num contexto em que a União Europeia tanto invoca a “autonomia estratégica” pretendida, seria expectável que, pelo menos os estados afirmassem, o primado do Direito Internacional e da diplomacia. Alguns fizeram-no. Portugal optou pelo silêncio administrativo. Algo que nos tornou perigosamente coniventes. Mesmo que de forma prudente, a União tenha apelado à contenção e à legalidade institucional. Fora desse espectro, até o Reino Unido que é o grande aliado dos americanos, foi contundente e não renunciou ao reflexo na utilização das suas bases.

Lê-se grande parte da opinião pública americana e europeia, e existe uma crítica com pouco ou nada de ideológico a esta investida e que sublinha aquilo que já se deveria ter aprendido com a História recente. As mudanças de regime não acontecem assim num país da dimensão do Irão e com as células terroristas que dali espoletam. Antes, têm tendência a reforçá-las e até a reacender o que estava adormecido.

Netanyahu é um carniceiro que pretende dizimar a região para distrair aquilo que recai sobre si e Trump, de forma quase idêntica, é alguém que despreza os serviços de inteligência, a diplomacia e tudo o que é aconselhável na cautela que se deve ter sobre aquela região. Não será um pormenor esta guerra ter sido iniciada por quem foi do lado Ocidental.

Com o tema da utilização da Base das Lajes e os EUA como Estado agressor, Portugal colocou-se à margem de um dos maiores desafios na relevância da UE: a reabilitação do multilateralismo e do Direito Internacional. Perdemos espaço para a crítica recorrente da falta de força política e de autonomia da União.

Como se poderá exigir isso a partir daqui? É verdade que o Governo Português não participa no ataque, mas politicamente a resposta é insuficiente em relação às Lajes. Nem nos enquadrámos de forma pragmática. Se é certo que provavelmente não corremos o risco de ser atingidos por um míssil, também o é que a guerra assimétrica pode vir a revelar-se por outros meios e aí a comprometer-nos.

Nada aprendemos com a História. O resultado da invasão do Iraque à margem culminou num país devastado, de uma instabilidade regional duradoura e do fortalecimento de dinâmicas extremistas que ainda hoje moldam o Médio Oriente.

No Afeganistão, duas décadas de intervenção resultaram num regresso ao ponto de partida, com mais de dois milhões de mortos e custos financeiros incalculáveis.

Mudanças de regime promovidas externamente, por mais tenebroso e sanguinário que seja o mesmo – e o do Irão é tudo do pior – produzem efeitos desastrosos. Ignorar essa memória colectiva é um luxo ao qual a Europa não se pode dar. Muito menos um Estado como Portugal. Ao evitar qualquer afirmação política, o Governo enfraquece a relevância portuguesa e contribui para aquilo que tem sobrado: uma UE sem peso estratégico.

Pequenos Estados não ganham influência pelo alinhamento subserviente, mas pela consistência dos princípios que defendem. Se queremos uma Europa com voz própria, temos de começar por exercê-la. Caso contrário, continuaremos a queixar-nos da fragilidade europeia enquanto voluntariamente, somos hoje o principal promotor.

Olhemos para o nosso vizinho e entendamos como se mantém a lucidez, os princípios, a realpolitik e a coluna num tempo de ignorância trumpista e em que a farsa dos loucos comanda.

Podemos ser mais do que isto.

Diário de Notícias
Gonçalo Ribeiro Telles
Comentador Político. Fundador e consultor de Comunicação na GRiT Communication & Political Risk
04.03.2026

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298: A guerra que nos cerca

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🇵🇹 OPINIÃO

What passing-bells for those who die as cattle?
– Only the monstruous anger of the guns.
Only the stuttering rifles’ rapid rattle
– Wilfred Owen
(1893 – 1918)

As nossas mentes e as nossas escritas conseguem alhear-se deste clima de guerra total que nos rodeia e envolve? A bem da nossa saúde mental, era bom que continuássemos a falar de outras coisas, a olhar para fora de nós e das notícias terríveis que hora a hora nos chegam e em que, crescentemente, “cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas” (Eugénio de Andrade).

A nossa época está a transformar-se numa daquelas épocas em que os tempos se transformam por cima das nossas vontades, quaisquer que elas sejam, e em que se procede a uma destruição selvagem e radical do que passámos décadas a acumular. Como se a guerra fosse a limpeza que fazem os donos da casa antes de mudar a mobília.

O nosso drama é que não sabemos quem são os donos da casa, nem que nova mobília querem trazer, porque os fins da guerra ultrapassam sempre as estratégias mais ou menos racionais que movem os líderes que são instigadores e agentes das guerras. Por isso, no final, os resultados são tão diferentes do que vencedores e vencidos tinham previsto!

Outra característica de todas as guerras é que duram sempre muito mais tempo do que o programado. Daí que nalguns casos sejam os militares, conscientes da insustentabilidade dos objectivos bélicos, a impor a paz aos poderes políticos; mas a situação inversa pode também registar-se.

No momento presente, verificamos uma grande indefinição nos propósitos finais desta guerra generalizada no Médio Oriente, além do objectivo claro e permanente, por parte dos Estados Unidos, de garantir a segurança de Israel, mesmo que o final tenha de ser como o da história bíblica de Sansão…

A Ucrânia e, por tabela, a Europa, arriscam-se a perder força e presença nesta conjuntura, em que o Médio Oriente vai claramente passar à frente do drama ucraniano.

A situação do povo iraniano é cruelmente paradoxal: a esmagadora maioria das pessoas qualificadas e educadas, fora da burocracia estatal, odeia a ditadura teocrático-militar que lhes foi imposta; mas não creio que, apesar de tudo, possam ver com agrado o seu país ser atacado e destruído por forças estrangeiras.

Não penso de todo que isso leve estas pessoas (e qual será o seu peso relativo na população iraniana?) a solidarizar-se com um regime que odeiam. Mas não vemos emergir uma alternativa consistente e organizada no seio da valente oposição daquele país.

Rumi, o grande poeta e místico sufi (1207 – 1273) dizia das guerras que elas tinham a consistência “das brigas das crianças”. Infelizmente, entre essa consistência e as consequências das guerras a distância é enorme e mortal.

Há um costume no Irão de ir junto ao túmulo do poeta Hafez (século XIV) e, abrindo ao acaso o livro dos seus poemas, procurar nele o guia para o nosso futuro. Quando lá estive, vi muitos jovens a procurar o seu futuro num poema de Hafez tirado ao acaso. Fiz o mesmo agora, ao terminar este artigo, e surgiu-me este poema, que vos transmito aqui, com os meus agradecimentos a Hafez, e dedicado ao bravo povo iraniano que luta pela sua liberdade:

Os guerreiros domaram
as bestas
Em seus passados para que os cascos das patas
da noite
Não pudessem mais
quebrar a visão
Ricamente ornamentada do coração.

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor
04.03.2026

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297: Figura do Dia. Actores pornográficos em escolas de crianças

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🇵🇹 OPINIÃO

O Ministro da Educação admite uma investigação ao que está a acontecer nas escolas públicas frequentadas por crianças e adolescentes. A reportagem no Público criou ondas de choque: 79 associações de estudantes, de escolas de norte a sul, pagaram a actores pornográficos e misóginos para animar a malta. As sessões levaram os alunos ao delírio e vários professores assistiram à performance de “machonitos” de tronco nu e cuecas a transbordar das calças.

A indignação obriga-me a um sorriso triste. Porque a maioria dos que se chocaram não faz ideia da música que os miúdos ouvem, dos influencers que os contaminam, da linguagem que usam, das referências que têm.

Artur Machado

Há centenas de escolas primárias, para não falar dos outros ciclos, em que as festas de final de período, incluindo o Natal, são feitas à base das músicas rascas que as crianças conhecem e consomem em casa. Música funk, com letras ordinárias, machistas, sexualizadas e altamente promiscuas.

Não sou moralista. Acredito no futuro e nas gerações dos meus filhos e futuros netos. No entanto, que não haja ilusões. Há uma multidão de miúdos que está a crescer sem referências. Lê pouco ou nada, está online em permanência e venera pessoas de quem nunca ouvimos falar, gente com milhares e milhares de seguidores que são populares por serem “manos muita-malucos e bacanos”.

Estamos chocados pelos idiotas que entram nas escolas dos nossos filhos com a autorização dos directores, mas ligamos pouco ou nada ao que nos trouxe até aqui.

Diário de Notícias
Luís Osório
04.03.2026

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294: O dilema de Rangel nas Lajes

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🇵🇹 OPINIÃO

A utilização da Base das Lajes para o reabastecimento de aviões norte-americanos a caminho do Médio Oriente, para apoiar as operações contra o Irão, voltou a colocar Portugal no centro de uma polémica sensível. Especialistas contestam a versão do ministro dos Negócios Estrangeiros e defendem que os Estados Unidos precisariam de autorização explícita para usar a base no âmbito de uma ofensiva militar.

O ministro argumentou que nenhum aparelho que tenha passado pelas Lajes foi utilizado no ataque, mas terão sido usados em funções de reabastecimento, o que significa que Portugal terá facilitado a intervenção norte-americana e israelita. E isso tem consequências políticas.

O problema é que esta não é uma questão de resposta simples. Em teoria, Portugal poderia recusar o uso da base, como prevê o tratado assinado nos anos 50. Mas, na prática, uma recusa colocaria em causa uma aliança que, desde há décadas, contribui para a nossa segurança e para a preservação da nossa integridade territorial. É aqui que a política externa deixa de ser um exercício académico e passa a ser um confronto com a realidade.

A cedência da base na Terceira nasceu no contexto da Guerra Fria, numa altura em que os Estados Unidos procuravam apresentar-se como uma potência democrática e pós-colonial, distinta dos antigos impérios europeus e guiada por valores que sustentavam a sua ambição de liderar o “mundo livre”. O acordo foi assinado entre estados soberanos que, no papel, se tratavam como iguais. Mas Salazar sabia que a recusa das pretensões norte-americanas poderia pôr em risco a sobrevivência do Estado Novo e até a integridade territorial do país.

A memória da Segunda Guerra Mundial estava demasiado presente: em 1943, as potências anglo-saxónicas deixaram claro que poderiam ocupar os Açores, se necessário, como fizeram na Gronelândia e na Islândia, se Portugal não permitisse a sua utilização. Além disso, desde a Restauração, Portugal sempre procurou manter uma aliança com a potência marítima dominante, para garantir a sua independência e preservar o império colonial.

“A margem jurídica para rejeitar a utilização da base existe, mas a margem estratégica é estreita. A decisão de Rangel é um exercício de equilíbrio entre a autonomia política e a dependência estrutural do país.”
Igor Martins

Setenta anos depois, o mundo mudou, o país democratizou-se e o império desvaneceu-se, mas a nossa geografia continua a ser a mesma. Portugal é um pequeno país atlântico, responsável por uma vasta área oceânica que inclui dois arquipélagos e recursos submarinos ainda pouco explorados. Por estas águas passam rotas essenciais do comércio marítimo internacional.

Ao contrário de países europeus com grande profundidade continental, Portugal não tem o luxo de poder dispensar uma relação estreita com a principal potência marítima. E esta tem dado sinais de que está disposta a contornar a ordem internacional construída no pós-guerra e a regressar a lógicas de competição imperial, chegando a admitir a anexação de territórios alheios, como se viu na Gronelândia.

É verdade que não estamos sozinhos, dado que Portugal integra a União Europeia, mas trata-se de uma construção recente e de futuro incerto. A geografia, porém, não muda. Com ou sem União Europeia, Portugal vai ser sempre um país marítimo e os EUA vão permanecer a grande potência do Atlântico Norte.

É neste contexto que qualquer governo português tem de decidir se autoriza ou não o uso das Lajes. A margem jurídica existe, mas a margem estratégica é estreita. A decisão nunca é apenas técnica ou legal. É, acima de tudo, um exercício de equilíbrio entre autonomia política e dependência estrutural, num mundo em que a geografia e o poder continuam a pesar mais do que as declarações formais.

Diário de Notícias
Filipe Alves
Director do Diário de Notícias

04.03.2026

Ainda sobre as constantes agressões ao Direito Internacional e à Carta das Nações Unidas por parte de psicopatas terroristas que não possuem o mínimo respeito pelos valores humanos, voltámos à Idade da Pedra.

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293: O projecto de transformação de Passos

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🇵🇹 OPINIÃO

Regressado das brumas, o dom Sebastião da direita garante não querer desforras nem provar nada — quando, com a inestimável ajuda dos do costume, não faz outra coisa.

Vai por aí uma grande excitação com o regresso de Passos Coelho às lides. O que é completamente natural, tendo em conta que o ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD entrou logo a disparar canhões contra o seu ex-mui-delfim Luís Montenegro..

Criticou a política de nomeações para cargos no Estado, criticou a resposta do Governo às tempestades, criticou a passagem do ex-director da Polícia Judiciária para ministro da Administração Interna, criticou a falta de “ímpeto reformista” e, em entrevista este domingo publicada no Eco, na qual garante “não querer desforras nem provar nada”, o facto de Luís Montenegro não ter aproveitado “a grande maioria no Parlamento à direita” para tentar construir “um acordo de legislatura” com Chega e IL.

Dando-se o caso de esta entrevista ter ocorrido após as presidenciais, surpreende um pouco que Passos não tenha sido confrontado com a evidência de que a maioria bastante esmagadora dos eleitores da AD e até da IL votaram no socialista António José Seguro contra André Ventura — o que talvez queira dizer que não querem misturas com o Chega e prezam a ideia de uma cerca sanitária face à extrema-direita, mesmo quando isso implica votar à esquerda.

E surpreende ainda mais que, opinando Passos que o Chega estará bem posicionado para ganhar as próximas eleições, considere que a melhor solução para o PSD seria ter-se aliado a ele. Quiçá para melhor se deixar engolir, perdendo para o PS e a IL os (como se constatou, muitos) eleitores que rejeitam o discurso de ódio, racista e xenófobo de Ventura e apaniguados?

Tácticas à parte, sobre o que Passos pensa da extrema-direita também não vimos qualquer questão nesta bastante interminável entrevista — ficamos só a saber, caso tivéssemos ainda dúvidas (o entrevistador claramente não teve), que em nada o incomoda. O que não pode ser grande surpresa: foi com Passos e o PSD, através da candidatura à presidência da Câmara de Loures nas autárquicas de 2017, que Ventura estreou o seu discurso anti-ciganos (levando, recorde-se, o parceiro de coligação CDS-PP a afastar-se), iniciando, com o beneplácito da então direcção do partido, a caminhada de radicalização racista e desbragada que conduziu à criação do Chega.

Ainda assim, não se incomodando com o racismo e a xenofobia — que, de resto, o próprio assume, ao dizer a dada altura que, se Portugal precisa de imigrantes, não os quer “neste volume, nem estes”, e comentando: “Alguns já não são imigrantes, já são nacionais” — talvez fizesse sentido perguntar a Passos como defende uma aliança do PSD que quer “reformista” (do que entende por “reformista” falaremos a seguir) com um Chega que, para usar uma expressão do próprio entrevistado, “quer dar tudo a toda a gente”. Um Chega que passou do hiper-liberalismo a la Milei (e de certo modo a la Passos) do primeiro programa do partido, em 2019, para as actuais promessas de aumentos generalizados de pensões e de melhores salários para a função pública e para a recusa, como “bar aberto para os despedimentos” (Ventura dixit) da “reforma laboral” que o Governo Montenegro propõe e Passos elogia.

Talvez, claro, Passos tenha outras informações, que não as que constam nos programas do Chega e no discurso público do seu dirigente, sobre o que o partido e Ventura defendem/querem — sabemos bem quão elásticas são as respetivas posições.

Como, de resto, são as do próprio Passos. É que ainda não nos esquecemos (ou esquecemos?) que chegou a apresentar uma proposta de revisão constitucional “liberal” que, à imagem do que sucedeu ao primeiro programa do Chega, foi para a gaveta mal percebeu que lhe ia tirar votos.

Nem nos olvidámos (ou olvidámos?) do que dizia e prometia antes das eleições de 2011; como, em plena crise do euro, face à imposição de austeridade por parte da Comissão Europeia e parceiros europeus (a começar pela Alemanha) e mesmo já após o pedido de resgate, recusava a ideia de cortar pensões ou salários ou subsídios de Natal ou férias, como torcia as mãos face à ideia de aumentar impostos e como garantia que tudo se resolveria apenas “cortando as gorduras do Estado”. Era esse singelo e indolor corte “das gorduras do Estado” que, prometia o PSD à época, constituía as famosas “reformas estruturais” que até hoje Passos tanto incensa e apelida de o seu “projecto de transformação”.

As “reformas estruturais” que, uma vez no poder, consubstanciou em cortes e mais cortes de pensões, salários e apoios sociais, aumentos de impostos e venda ao desbarato (ao Estado chinês) de activos fulcrais como a rede eléctrica e a EDP.

Daí que seja verdadeiramente delicioso vê-lo agora a censurar Montenegro por não se ter, e cito, dirigido “aos eleitores naquela eleição [2024] pedindo-lhes um mandato para fazer reformas, com espírito reformista”. Isto porque Passos diz acreditar “que as reformas que duram são aquelas que as pessoas desejam” e portanto “um partido não pode chegar ao Governo e, de repente, mostrar às pessoas que, afinal, as surpreende com um pacote, um conjunto de reformas que as pessoas não esperavam que acontecessem e que poderiam até não gostar que fossem feitas.”

Foi, por acaso, exactamente o que o actual PSD fez com a proposta de reforma laboral — à imagem da estratégia de Passos quando governou: apresentar propostas, grande maioria delas inconstitucionais (e como tal declaradas pelo Tribunal Constitucional), que nunca submetera a sufrágio. E não se diga que houve circunstâncias supervenientes a justificá-lo: quando elaborou o programa eleitoral Portugal estava sob resgate, e os termos desse resgate foram também negociados com a troika FMI-Comissão Europeia-Banco Central Europeu pelo PSD, como o negociador-mor do partido, Eduardo Catroga, não se cansou de proclamar.

Era aliás à época director do FMI para a Europa o dirigente do PSD António Borges, que logo a seguir Passos convidaria para funcionar como uma espécie de “ministro à solta” com o pelouro das privatizações, em passagem directa do organismo que as impusera para um cargo cujo salário de centenas de milhares de euros o Governo recusou durante meses revelar (só o fazendo quando foi obrigado a isso). Em termos de portas giratórias e “precedentes graves” (foi a expressão que usou em relação à escolha de Luís Neves para o MAI), digamos que Passos não tem grandes lições a dar.

Não as tem, de resto, em nada. O homem que se quer apresentar como “sério” e “transparente” e é tantas vezes referido como “reserva moral da direita” já mudou radicalmente de ideias e discurso uma meia dúzia de vezes e foi tudo menos honesto quando se apresentou a eleições.

Sabe bem ele, e deveria saber toda a gente, que se tivesse em 2011 anunciado o que queria realmente fazer e que o seu sonho era pôr em prática a tal revisão constitucional que  meteu na gaveta em 2010 (quando, lembre-se, além de se apresentar como um liberal na economia também garantia sê-lo nos costumes, pronunciando-se a favor da legalização do aborto, do casamento das pessoas do mesmo sexo e da adoção por casais homossexuais), seria bastante improvável obter uma maioria absoluta.

Mas, reconheça-se, há um projecto de transformação do país que Pedro Passos Coelho conseguiu levar a bom porto: aquele que permite que, depois de tudo o que aconteceu, de tudo o que fez e disse, se alcandore a exemplo de probidade, lisura e ética. Isso sim é obra.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
03.03.2026

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292: Primeiro a Venezuela, depois a Gronelândia, agora o Irão: o que virá a seguir na agenda de Trump?

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🇵🇹 OPINIÃO

O mundo já não observa apenas com inquietação — observa com perplexidade. Em poucos meses, a segunda Presidência de Donald Trump transformou a política externa norte-americana numa demonstração aberta de força, onde a lógica do facto consumado substitui a diplomacia e o multilateralismo é tratado como obstáculo, não como instrumento.

A captura de Nicolás Maduro, as ameaças à Gronelândia e a eliminação do Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, não são episódios isolados. São peças de uma mesma estratégia: afirmar hegemonia através da coerção directa, testando até onde o mundo está disposto a tolerar.

A Operação Absolute Resolve, que levou Maduro de Caracas para Nova Iorque, não foi apenas uma acção cirúrgica contra um regime autoritário. Foi uma mensagem política inequívoca: Washington considera-se novamente com legitimidade para intervir unilateralmente no seu “quintal estratégico”. A Doutrina Monroe, que muitos julgavam um artefacto do século XIX, regressa sob nova embalagem — jurídica, mediática e militar.

O levantamento selectivo de sanções e a reconfiguração do setor petrolífero venezuelano revelam que a moralidade invocada anda de mãos dadas com interesses energéticos. A narrativa da libertação convive, sem grande pudor, com a reorganização económica sob tutela externa. E quando Trump declara que os Estados Unidos “gerirão o país até ser seguro entregá-lo”, a frase ecoa menos como promessa de transição democrática e mais como afirmação de protectorado.

O caso da Gronelândia é igualmente revelador. A pressão sobre a Dinamarca mostrou que, para esta administração, alianças são instrumentos contingentes, não compromissos estruturais. Ao admitir o uso da força para adquirir território aliado, Washington quebrou um tabu geopolítico dentro da própria NATO. A confiança — verdadeiro cimento da Aliança Atlântica — não resiste facilmente a este tipo de teste.

Mas foi no Irão que a doutrina da força atingiu o seu ponto máximo. A morte de Ali Khamenei, confirmada por Teerão, inaugurou uma fase de imprevisibilidade estratégica raramente vista desde o início do século XXI. Falar abertamente em “mudança de regime” numa potência regional com capacidade de retaliação assimétrica é jogar xadrez geopolítico com peças inflamáveis.

O Estreito de Ormuz sob ameaça, o petróleo em escalada, mísseis sobre Israel e bases americanas: a região entrou num ciclo de acção-reacção cujo fim ninguém controla plenamente. O risco já não é apenas regional; é sistémico.

Perante este padrão, a pergunta “qual será o próximo alvo?” deixa de soar especulativa e passa a ser estrutural.

Cuba surge como hipótese lógica, fragilizada pela perda do apoio energético venezuelano. A Coreia do Norte observa, calculando custos e oportunidades. No Indo-Pacífico, Taiwan permanece o epicentro latente de uma confrontação maior entre Washington e Pequim. Mesmo cenários aparentemente improváveis — como pressões acrescidas sobre o Panamá ou intervenções indirectas em África — deixam de parecer ficção estratégica.

O que une todos estes episódios não é apenas a retórica musculada; é a normalização da excepção. A ideia de que a estabilidade internacional depende menos de regras partilhadas e mais da capacidade de impor vontades.

Para a União Europeia, isto representa um dilema existencial. Se o principal aliado age de forma imprevisível e coerciva, a autonomia estratégica deixa de ser um slogan francês e passa a necessidade estrutural. Portugal, na periferia atlântica, mas no centro das rotas energéticas e comerciais, não pode assistir como mero espectador. A instabilidade no Atlântico Norte e no Médio Oriente atinge-nos directamente.

A questão central não é se estas acções são eficazes a curto prazo. Podem sê-lo. A questão é que mundo produzem a médio e longo prazo. Um mundo onde as potências agem sem constrangimentos multilaterais tende a tornar-se menos previsível, mais volátil e mais propenso a escaladas acidentais.

A era Trump 2.0 não é apenas uma mudança de estilo; é uma alteração de paradigma. Se esta lógica se consolidar, estaremos perante o regresso explícito da política de esferas de influência, onde o poder substitui a norma.

E quando a força passa a falar mais alto do que o direito, a História ensina-nos que raramente é a última palavra.

Diário de Notícias
José Manuel Maia
EuroDefense-Portugal
03.03.2026

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289: A Figura do Dia. Feios, porcos e maus

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🇵🇹 OPINIÃO

O mundo como eu o conhecia está a morrer. Os valores em que acredito perderam relevância. O poder é exercido por homens indecentes e amorais. O mal ocupou o tabuleiro de jogo e não há incenso ou rezas capazes de afastar ogres com um bafo a enxofre e agonia.

Tenho quatro filhos, o meu optimismo foi sempre exacerbado e inconsciente, mas quando o penso, quando os penso nessa sua sede e fome de futuro e eternidade, preciso de encontrar uma forma de combater a profunda descrença no que vejo ou pressinto.

As guerras fazem parte do nosso menu. Algumas foram necessárias, em algumas o sangue derramado permitiu o progresso ou o fim do caos ou das ameaças de Apocalipse. O jogo continua e só terminará quando o último de nós fechar a porta, só que agora é um combate sem regras e imprevisível.

EPA / Abedin Taherkenareh

Já não há bons e maus. Justos e ímpios. Batoteiros e honestos. Progressistas e fanáticos. Democratas e fascistas. No tabuleiro que agora nos prende a atenção é tudo mau, são todos horríveis, não há ponta por onde se possa pegar, não há gente ou ideias em que possamos confiar ou por quem valha a pena morrer.

Os fanáticos religiosos xiitas têm de ser travados – quem pode duvidar da premissa? Mas quem os está a travar é menos fanático e menos perigoso? Se colocarmos cada uma das forças numa mão, que mão preferimos? A que está contaminada com autocratas que matam, torturam e aterrorizam em nome de Deus? Ou a que está ocupada por loucos varridos e criminosos de guerra? Que mundo é este? Lutamos por quem? Pelo quê? Contra quem?

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
02.03.2026

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