374: Porque é que sou machista, por Cristina Ferreira

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🇵🇹 OPINIÃO

“Quero saber o que é que passa na cabeça de quatro jovens que, ouvindo um não, não respeitaram aquela rapariga (a provar-se isso, porque está ainda em julgamento). Quero perceber, quando um violador ouve o não, porque é que ele não o ouviu. E não o ouviu não é no sentido literal do termo. Porque, é claro, ele não quis ouvir. Porque é que eu sou machista em querer perceber o comportamento de um violador?

Esta é a explicação que Cristina Ferreira deu esta terça no Jornal Nacional da TVI, em entrevista a José Alberto Carvalho, sobre as palavras que lhe valeram uma multidão de críticas, mais de quatro mil queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e uma carta aberta intitulada “A violação não é matéria de opinião”, na qual é acusada de banalização da violência e ausência de empatia.

Lembremos que palavras foram essas, proferidas num programa da manhã em que os presentes comentavam o início do julgamento de quatro jovens acusados de, em Fevereiro de 2025 em Loures, terem violado uma adolescente de 16 anos e difundido as imagens do crime: “Temos de falar disto: mesmo que ela [a miúda] tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que têm de ouvir, mas alguém entende aquele ‘não quero mais’?”

Há vários elementos muito interessantes — porque muito reveladores — nisto que Cristina disse e que apresenta como uma pergunta. Desde logo, assumir que os rapazes (porque são rapazes, não é?) podem estar “a fazer sexo com uma rapariga” sem a ouvir, sem darem atenção ao que ela diz, faz, sente, se quer ou não quer, e que isso é uma coisa banal, nada tem de violento, reprovável ou ilícito: “Estão naquela adrenalina.”

Depois, considerar que é até atendível, expectável, “rapazes” não valorizarem um “não quero mais”. Porque Cristina questiona: “Alguém entende aquele não quero mais”?

“Alguém”. Como quem diz “cabe na cabeça de alguém que uma rapariga que alegadamente quis ter sexo deixe de querer a meio?”. Como quem diz “mas o que é que ela esperava, ao pôr-se naquela situação?” Questão, de resto, reiterada pela intervenção de uma das convidadas no programa, a psicóloga (psicóloga, imagine-se) Inês Balinha Carlos: “Nós temos de ser honestos e perceber que é muito mais difícil — não querendo justificar nada — parar a meio; é preciso muito mais maturidade para controlar os seus impulsos quando já vamos a meio do ato do que antes de começar o ato. Temos de ter essa honestidade e perceber a idade deles, sem justificar rigorosamente nada.”

É certo que, no Jornal Nacional, a apresentadora (a qual, recorde-se, é também acionista e administradora do canal), lamentou “não ter usado as palavras certas” na sua “pergunta”, admitindo que se a tivesse escrito não sairia assim. Mas recusou pedir desculpa, e sobretudo não dirigiu uma palavra à jovem de cuja alegada violação estava a falar — não disse: peço desculpa se aquilo que disse te magoou, se pareceu que trivializei, que te culpabilizei.

Não: nem quando José Alberto referiu o facto de Cristina ser acusada de falta de empatia e observou que para aquela rapariga só pode ser altamente doloroso ouvir discutir o assunto, reviver os detalhes sobre o que sucedeu, a entrevistada percebeu a deixa. Em vez disso, retorquiu, cortante: “Não tenho dúvida nenhuma. Como deve ter sido mais doloroso ainda tudo isto que se fez nos dias seguintes.” Ou seja, doloroso mesmo terá sido a onda de críticas (incluindo da família da jovem) que se abateu sobre a apresentadora. Que ainda perguntou: “Mas a minha empatia era o quê? Não perguntar sobre o comportamento do violador? Era essa a empatia?”

Porque Cristina está, garante, focada no “comportamento do violador”. Daí que frise que a sua “pergunta” surgiu na sequência do que disse outro comentador do programa da manhã, “psicólogo forense”: que “em tribunal é dificílimo uma vítima provar o não.” É que, prossegue, ”são feitas perguntas muito difíceis. Temos um juiz à frente que pergunta: Mas disse não? Mas disse não como? E o não foi expressivo? E o não foi dito em alta voz? E o não foi olhado pelo seu violador?” Para concluir: “Percebes o difícil que é, para uma vítima, ter que, em tribunal, dizer uma vez mais… E mais, nem sempre a vítima tem capacidade de dizer que não. Há reacções muito diferentes. E isto eu ouço há muitos anos. Há reacções muito diferentes de vítimas. Há vítimas que congelam. Que são incapazes de ter qualquer tipo de reacção. Há vítimas que gritam constantemente que se pare, e que o não seja cumprido. E se ele não é, estamos perante uma violação.”

Não sabemos como sairiam estas explicações se Cristina as tivesse escrito, mas fica bastante claro que para ela não é uma questão que os tribunais concentrem o seu questionamento, a sua avaliação, em suma, o seu julgamento, na vítima, mesmo se, como sucede desde 2019, a lei penal define violação como penetração contra a “vontade cognoscível da vítima” (antes de 2015 a jurisprudência exigia à vítima provas de “resistência”, não considerando sequer um não como suficiente).

E para Cristina isso não é uma questão porque, se repete que quer perceber o violador, na verdade é a vítima que não compreende — é o comportamento da vítima que ela põe em causa. Daí que nos quase 30 minutos que durou a entrevista nunca tenha manifestado a sua indignação por, como relata, os juízes se focarem na existência audível de um não ou de uma clara objecção por parte da vítima, em vez de fazerem ao arguido a pergunta óbvia: como é que se certificou da “vontade cognoscível” daquela pessoa de ser penetrada? Foi alguma coisa que ela fez? Foi alguma coisa que ela disse? Ou ela não fez nem disse nada e mesmo assim achou que era de avançar?

Por mais que nos garanta que há muitos anos “estuda” este assunto, o da violência de género, e que as suas perguntas são feitas de  forma a “ajudar a informar as pessoas menos informadas”, Cristina só evidencia a sua desinformação, ignorância, preconceito. E a sua imensa, desmesurada, arrogante, crueldade.

Foi ela a apresentadora que em 2020, ante a difusão de imagens de uma jovem a ter sexo com dois jovens num comboio, falou do caso psiquiatrizando-a, enquanto deles dizia que era normal, como rapazes que eram, fazerem sexo assim, em qualquer sítio, ela é que ia “ficar marcada”. Foi ela a apresentadora que, falando de uma mulher que tinha sido assassinada por um ex-companheiro, a acusou de “se ter posto a jeito”. Justificando, na entrevista a José Alberto Carvalho: “Essa expressão foi utilizada porque estávamos a falar de uma senhora que já era agredida há algum tempo. E nós, aquilo que é o nosso dever, e que o fizemos, foi alertar qualquer vítima de agressão de que não pode abrir a porta a um agressor. Não pode entrar no carro com alguém que já a agrediu, com alguém que já a ameaçou. Porquê? Porque sabemos que é aí que acontece.”

É tudo para ensinar as pessoas, percebem? Para ensinar as pessoas a culpabilizar as vítimas, para ensinar que as mulheres têm de medir bem os riscos, ter cuidado, e que os homens, os rapazes, são assim uma espécie de animais selvagens incontroláveis, “naquela adrenalina”.

E por favor não se se diga, como Cristina previu que se diria mal terminasse a entrevista, que ela se esteve a vitimizar, que é narcisista, que não tem percepção dos seus comportamentos, que não tem qualquer tipo de responsabilidade social. Realmente: nem começou a entrevista por assegurar “estou bem”, nem reduziu as criticas que recebeu a “ódio” e “busca de visualizações”, nem ameaçou que no dia em que sinta que “ao me sentar nesta cadeira estiver a pensar naquilo que vou dizer, no que não posso dizer, naquilo que não me permitem dizer, está na hora de ir embora.”

Como é que alguém se poderá atrever a exigir a Cristina que, ante os milhões que a vêem e seguem, no lugar em que está, pense naquilo que vai dizer e no que não deve dizer?

E — isso então — como podem chamar-lhe machista, logo a ela que, se tantas vezes assegurou não ser feminista, decidiu agora revelar -nos o seu feminismo de “20 anos de televisão a mostrar através do meu exemplo que é possível, que a igualdade se pode conquistar”? Mas, atenção, avisa: “Isso não se faz com o derrube do homem.” Porque, já se sabe, as outras feministas, as que não são a Cristina, as más e doidas que a criticam, querem é “derrubar o homem”. O feminismo da Cristina nunca põe em causa o lugar do homem, dos “rapazes”; derrubar, só mulheres. Sempre.

Diário de Notícias
Fernanda Câncio
23.04.2026

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373: A Figura do Dia. Cristina Ferreira

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🇵🇹 OPINIÃO

A irresponsável opinião de Cristina Ferreira não tem defesa possível – e o seu comunicado apenas amplificou o embaraço –, mas talvez seja altura de perdermos um pouco de tempo com o essencial.

O país mediático agitou-se e rasgou as vestes. Como era possível tal monstruosidade dita em directo por alguém que tem a responsabilidade de falar para milhões de pessoas? Como se pode desculpabilizar uma violação feita a uma menor por quatro atrasados mentais? Como entender que a TVI não tivesse imediatamente retirado ilações?

Podemos voltar ao tempo do pelourinho ou da salvação pela purificação do fogo, mas a indignação colectiva conseguiu pasmar-me. De repente, Cristina era o “mal” e não a consequência do que nos estamos a tornar.

“Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore.”

Os programas com mais audiência têm como protagonistas gente ordinária, amoral, abjecta e violenta. Temos programas em que agricultores procuram mulheres como se a televisão se tivesse transformado num lugar de alterne. Temos muitas das nossas crianças a dançar músicas com letras em que os homens maltratam as mulheres e as rebaixam. Temos o Parlamento transformado numa tasca de vinho barato por culpa de deputados cujo partido não para de crescer. Temos tudo isso e mais o resto que aqui não cabe.

Cristina Ferreira estará esta terça-feira no jornal da noite na TVI, entrevista em que se desculpará para que tudo possa voltar aos eixos. A audiência será medida e, como sempre, soberana. O resto é folclore. Até ao dia em que a indignação seja em nome de um mundo novo que possa salvar-nos da bestialidade e do esgoto.

Diário de Notícias
Luís Osório
Escritor, jornalista e cronista
21.04.2026

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372: Temos pena, o SNS está fechado para si!

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🇵🇹 OPINIÃO

Há experiências que dispensam qualquer esforço de imaginação distópica. Não é preciso invocar George Orwell, nem revisitar Franz Kafka. Basta tentar marcar uma consulta no SNS pelos meios digitais, sobretudo quando se descobre, sem aviso e sem alternativa, que se ficou de fora, pois o médico de família reformou-se, mudou-se para o privado e o sistema não preencheu o vazio.

Tudo começa com uma promessa convincente, hoje concentrada na app SNS24. A aplicação é clara e organizada. Parece oferecer serviços, caminhos e soluções. Mas essa ordem é superficial. Por detrás da interface existe um sistema fragmentado, onde o digital não resolve, apenas expõe as suas deficiências.

O primeiro clique da “Marcação de consultas” revela a realidade com a mensagem “Sem vagas disponíveis”. Para muitos utentes, isto não é um imprevisto, é o estado permanente. E para quem não tem médico de família, é ainda pior, devido à inexistência formal de acesso. Não há agenda, não há referência, não há continuidade. O sistema não está atrasado, está indisponível.

É aqui que o problema deixa de ser apenas um incómodo e passa a ser perigoso. Sem consulta, não há prescrição. Sem prescrição, não há renovação de medicação crónica. Doentes com doenças prolongadas ficam sem seguimento regular e passam a gerir a sua terapêutica como podem. O risco deixa de ser teórico e torna-se clínico.

Sem consulta, não há exames, não há análises de rotina, não há diagnóstico precoce e não há vigilância. O sistema deixa de prevenir e passa a reagir, frequentemente tarde demais. A doença evolui enquanto o acesso permanece bloqueado.

A própria app, que deveria simplificar o percurso, limita-se a formalizar o impasse. Sugere alternativas que não existem na prática, encaminha para contactos que não respondem e apresenta funcionalidades “indisponíveis”. O digital deixa de ser solução e passa a ser a interface do problema.

Perante isto, muitos utentes recorrem ao privado. Fazem exames, obtêm respostas, mas quando regressam ao SNS, essa informação não entra. Os resultados não são integrados no dossier clínico, pois o sistema não reconhece o que já foi feito. A informação existe, mas não conta.

Quem não pode pagar insiste, espera ou acaba nas urgências hospitalares. É aqui que o sistema revela a sua falha mais grave. As urgências tornam-se a porta de entrada para cuidados básicos. Não por decisão clínica, mas por ausência de alternativas. O resultado é previsível, com serviços saturados, longos tempos de espera e decisões tomadas sob pressão.

Este não é apenas um problema de funcionamento. É um risco estrutural. Um sistema que não garante acesso regular empurra os doentes para situações mais graves. Um sistema que não integra informação perde capacidade de decisão. Um sistema que depende da urgência para funcionar está, na prática, em modo de falha contínua.

No meio de tudo isto, há a excepção da prescrição electrónica que funciona de forma simples, eficaz e invisível. É a prova de que o SNS consegue fazer bem, mas também é a prova de que essa competência não foi aplicada ao essencial, de garantir acesso, continuidade e integração.

O problema já não é tecnológico, é de governação, pois um sistema digital mal governado não é neutro. Cria desigualdade e separa quem consegue aceder de quem fica de fora. Não por decisão explícita, mas por acumulação de barreiras. E essa desigualdade está a tornar-se estrutural, entre quem tem médico de família e quem não tem, entre quem pode pagar e quem não pode, entre quem consegue insistir e quem desiste.

O SNS continua a ser universal no princípio, contudo na prática o acesso está a tornar-se condicional. Porque um sistema de saúde não falha apenas quando não responde, falha quando normaliza a ausência de resposta, quando transforma o bloqueio em rotina e quando aceita que haja cidadãos para quem a aplicação funciona… mas o sistema não.

No fim, o paradoxo é claro. O sistema sabe quem somos. A app SNS24 autentica-nos, identifica-nos, regista-nos, mas não garante que sejamos tratados. E quando um sistema de saúde chega a este ponto, já não estamos perante um problema digital, estamos perante um problema de confiança pública.

Diário de Notícias
Luís Vidigal
Governação electrónica
22.04.2026

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371: ERC já recebeu 4200 queixas por declarações de Cristina Ferreira

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🇵🇹 PORTUGAL // SOCIAL // ERC // QUEIXAS

As participações encontram-se em apreciação pelos serviços da ERC, no seguimento do procedimento de averiguações determinado pelo Conselho Regulador.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu até segunda-feira, 20 de Abril, 4.200 participações sobre as declarações de Cristina Ferreira relativas à violação de uma menor, mais 900 que quinta-feira.

Contactada pela Lusa, fonte oficial da ERC adiantou esta terça-feira, 21, que “o total de participações actualizado ao dia de ontem [segunda-feira] ronda já as 4.200”.

Em 16 de Abril, a ERC tinha recebido 3.300 participações relativas às declarações de Cristina Ferreira no programa ‘Dois às 10’, da TVI.

As participações encontram-se em apreciação pelos serviços da ERC, no seguimento do procedimento de averiguações determinado pelo Conselho Regulador, adiantou, na semana passada, a mesma fonte.

Em causa estão as declarações de Cristina Ferreira na semana passada, no programa ‘Dois às 10’, sobre o caso dos quatro ‘influencers’ acusados de, em 2025, terem violado uma adolescente de 16 anos e filmado os actos sexuais, em Loures, que começaram a ser julgados à porta fechada na segunda-feira, 13 de Abril.

“Porque nós temos de falar disto. Porque é assim: mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele: ”Não quero mais'”, questionou a apresentadora no programa da TVI, o que gerou polémica e as queixas à ERC.

Na sequência disso, na quarta-feira, a TVI emitiu um comunicado em que rejeita as acusações de banalização de um caso de violação discutido no programa, afirmando que a pergunta colocada por Cristina Ferreira foi descontextualizada e alvo de “manipulação grosseira”.

“A pergunta aconteceu, o comentário não e muito menos a expressão da banalização do crime”, referiu a TVI, que criticou ainda a propagação de acusações nas redes sociais, que considera serem feitas de forma “gratuita e leviana”, indicando que irá recorrer aos tribunais para repor a justiça.

A Lusa contactou na semana passada a empresa e questionou quem escreveu o comunicado. Questionou também se o director-geral da TVI, José Eduardo Moniz, e o presidente executivo (CEO) da Media Capital, Pedro Morais Leitão, consideram que aquela comunicação da TVI espelha a posição do grupo. Fonte oficial respondeu que “o comunicado é da TVI”.

De acordo com a acusação do Ministério Público, os arguidos no caso referido têm actualmente entre 18 e 21 anos e respondem por um crime de violação agravado e 27 crimes de pornografia de menores agravados.

Um dos ‘influencers’ está ainda acusado de três crimes de ofensa à integridade física e outro de um da mesma natureza.

O caso remonta a 12 de Fevereiro de 2025, quando a vítima se encontrou com os quatro arguidos, então com canais nas redes sociais e públicos significativos, num jardim público em Santo António dos Cavaleiros, concelho de Loures, na área metropolitana de Lisboa.

Segundo a acusação, os actos sexuais, gravados com o telemóvel, terão começado de forma consensual no jardim público e continuado, contra a vontade da vítima, numa garagem próxima.

DN/Lusa

Diário de Notícias
21.04.2026

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370: Quem tem medo da transparência?

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🇵🇹 OPINIÃO

Ciclicamente, o tema da transparência é convocado para o centro do debate político. Desta vez foi recuperado por Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, ao defender que a declaração de rendimentos e interesses deve deixar de ser de acesso público. Este posicionamento, que lhe valeu severas críticas da oposição, é sintomático de um mal maior. Não há representação democrática de qualidade sem transparência.

Quem exerce poder em nome de outros tem de aceitar o escrutínio. Relativizar a sua importância é contribuir para o desgaste das instituições e da própria democracia. Nesse quesito, vários casos recentes servem de exemplo.

O primeiro é o da relação entre o principal cliente da empresa associada à família do primeiro-ministro e o financiamento do PSD; o segundo diz respeito à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos que, cinco anos depois, continua a pedir explicações sobre dinheiro sem origem conhecida nas contas dos principais partidos; o terceiro e último é o da decisão que tornou inacessível ao público a identidade de quem financia partidos e campanhas. Todos estes casos representam sintomas da fragilidade e da importância dos mecanismos de escrutínio. Mas mais importante, representam um retrocesso na transparência.

A relação entre transparência, confiança e integridade institucional está bem documentada. No plano institucional, a OCDE demonstra que a transparência só produz efeitos quando acompanhada de mecanismos eficazes de escrutínio e responsabilização. Isto suportado em dados que apontam para a sensibilidade do público à percepção de abertura, integridade e capacidade de prestação de contas das instituições.

Académicos como Stiglitz ou Larry Diamond defendem que o direito à informação é condição para o debate público informado e que a qualidade da democracia depende da capacidade de os cidadãos controlarem efectivamente o poder político. Quando esse controlo enfraquece, é a própria democracia que se desgasta.

A erosão da confiança pública nas instituições não resulta de um caso isolado, mas de sinais de opacidade contínuos – estes mais preocupantes num contexto em que forças populistas, radicais e abertamente antidemocráticas crescem na Europa, explorando a desconfiança nas instituições representativas.

A responsabilidade dos partidos é, por isso, ainda maior. Não dizer nada é contribuir para a descrença. Não aceitar o escrutínio é alimentar a dúvida. E aceitar a generalização da ignorância sobre quem financia, influencia, ou condiciona o exercício da representação, é dar munições a quem quer enfraquecer a democracia por dentro.

Com as já anunciadas iniciativas legislativas para alterar a Lei do Financiamento dos Partidos Políticos e das Campanhas Eleitorais, está agora nas mãos dos partidos com assento parlamentar tomar uma decisão. Têm agora a oportunidade de reverter a decisão, sujeitando-se ao escrutínio e debate que caracterizam as democracias representativas ou contribuir para menos informação, mais opacidade e desconhecimento.

A transparência é desconfortável para quem exerce poder. É precisamente por isso que é indispensável.

Diário de Notícias
André Santos Pereira
Professor universitário e analista político
20.04.2026

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369: O que a sociedade ainda não entendeu sobre violência sexual

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🇵🇹 OPINIÃO

Imaginemos, por um instante, que tratávamos outros crimes da mesma forma como tantas vezes tratamos a violência sexual.

“Foi assaltado? Então por que levava o telemóvel consigo? Terá sido um empréstimo?”

“Foi atropelado? E por que atravessou a rua naquele momento?”

“Foi vítima de burla? E porque foi tão ingénuo?”

Estes exemplos parecem absurdos – e são. No entanto, é precisamente este tipo de raciocínio que continua a ser aplicado às vítimas de violência sexual, minimizando a gravidade do crime e deslocando a responsabilidade de quem agride para quem é vítima.

Foi isto que voltou a acontecer nos mais recentes comentários de Cristina Ferreira sobre o caso de uma alegada violação de uma jovem por parte de quatro homens. Não se trata de julgar intenções, mas de reconhecer o impacto real das palavras, sobretudo quando ditas por alguém com enorme visibilidade pública.

Uma violação não é “fazer sexo”.

E o conceito de consentimento continua a ser profundamente mal compreendido. Consentimento é um “sim” claro, livre, informado e contínuo. Não é silêncio, não é medo, não é imobilidade, não é confusão, não é vulnerabilidade, não é cedência perante pressão, não é tentativa de evitar conflito, não é incapacidade de reagir.

Consentimento não se presume, não se interpreta, não se adivinha. Não depende da roupa, da hora, do local, do estado emocional ou da relação entre as pessoas. Não é válido se houver medo, intoxicação, desigualdade de poder, manipulação ou incapacidade de resistência.

E, sobretudo, pode ser retirado a qualquer momento. Se não há um “sim” explícito, há um “não”. Sempre. Esta é a regra básica que protege todas as pessoas, e que deve orientar qualquer análise pública sobre violência sexual.

Sempre que se confundem conceitos reforça-se uma narrativa perigosa: a de que a vítima poderia ter evitado o crime. E esta narrativa tem consequências profundas.

Em primeiro lugar, naquela vítima concreta. Uma jovem que foi violada não precisa de ser julgada pela sociedade. Precisa de ser protegida, acreditada e acompanhada.

Em segundo lugar, silencia todas as outras vítimas. Cada vez que uma vítima vê outra ser culpabilizada, aprende uma lição devastadora: “Se eu falar, vão dizer que a culpa foi minha.” E cala-se. E isola-se. E não procura ajuda. A culpabilização da vítima é um dos maiores factores de sub-notificação da violência sexual.

Em terceiro lugar, desculpabiliza quem agride. Quando se coloca o foco no comportamento da vítima, retira-se o foco do único responsável: quem cometeu o crime. A violência sexual não acontece porque alguém não teve cuidado ou não soube fazer-se ouvir. Acontece porque alguém decidiu violar. E é essa decisão – e apenas essa – que deve ser escrutinada.

A violência sexual não é um tema para improviso, opinião ligeira ou especulação. É um fenómeno complexo, com consequências devastadoras, que exige apresentadores e comentadores preparados, informados e capazes de comunicar com responsabilidade.

Precisamos, enquanto sociedade, de parar de perguntar “o que fez a vítima?” e começar a perguntar “por que é que alguém violou”?

Precisamos de educar para o consentimento, criar espaços seguros onde as vítimas possam ser ouvidas sem julgamento e responsabilizar quem agride, e não quem sofre.

A violência sexual é um crime.

E, como qualquer crime, deve ser analisado com rigor, empatia e responsabilidade.

A culpa nunca é da vítima. Nunca.

Diário de Notícias
Rute Agulhas
Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal
20.04.2026

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368: Quantas divisões tem o papa?

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🇵🇹 OPINIÃO

“Quantas divisões tem o papa?”, perguntou Joseph Stalin, no auge da Segunda Guerra Mundial, dando a entender que, sem Exércitos, o Vaticano seria irrelevante na política internacional. A história mostrou o contrário.

A Queda do Muro de Berlim e o fim da presença soviética na Europa de Leste não resultaram apenas da incapacidade do comunismo em responder aos desafios que enfrentava. Foram também o resultado de uma erosão de legitimidade. E, nesse processo, o papel de João Paulo II foi determinante.

Quando regressa à sua Polónia natal em Junho de 1979, João Paulo II não altera o regime por decreto. Mas altera o enquadramento. Ao afirmar a dignidade de um povo reduzido a uma função ideológica, introduz uma fractura no sistema. Ao dizer “não tenhais medo”, libertou o espaço psicológico em que o regime assentava.

Foi nesse espaço que o movimento Solidariedade, liderado por Lech Walesa, primeiro presidente da República da Polónia livre e Prémio Nobel da Paz, cresceu. Quando o medo recua e a legitimidade se esgota, o poder torna-se insustentável, mesmo quando ainda dispõe de meios.

A pergunta de Stalin estava, por isso, errada. O problema nunca foi saber quantas divisões tem o papa. O problema é perceber que tipo de poder está em causa.

É à luz desta distinção que importa ler o que aconteceu nos últimos dias na relação entre Washington e o Vaticano. As críticas do Papa Leão XIV à dureza das políticas migratórias, à lógica de exclusão e à instrumentalização do medo não foram declarações genéricas, mas visaram, na prática, a actuação da administração de Donald Trump.

Ao insistir na centralidade da dignidade humana e na obrigação de acolhimento, o papa colocou em causa a coerência entre valores proclamados por Trump e pelos que o cercam, frequentemente ancorados num imaginário cristão, e políticas concretas.

Nos últimos dias, Leão XIV criticou também a guerra no Irão e a retórica do medo, e a resposta da administração foi rápida e reveladora. Entre a rejeição das críticas, acusações de fraqueza, a negação de qualquer direito de escrutínio moral sobre a política americana e a reafirmação da soberania nacional como critério absoluto, o argumento foi claro: a legitimidade política resulta do mandato democrático interno, não de avaliações externas, sejam elas religiosas ou morais.

Este confronto não é episódico. É estrutural.

De um lado, um poder político que decide, impõe e controla. Do outro, uma autoridade moral que não decide, mas condiciona pela capacidade de expor incoerências, mobilizar milhões de americanos e gerar custos reputacionais. Ao desvalorizar o papa, a administração americana procura reduzir esse efeito. Se a crítica moral for apresentada como irrelevante, deixa de constituir constrangimento.

Mas esta estratégia tem limites. Num sistema internacional fragmentado, onde a percepção conta tanto como a capacidade de agir, a legitimidade tornou-se um activo estratégico. Pode não impedir decisões. Mas condiciona a sua eficácia.

É aqui que a lição de João Paulo II permanece actual. Não porque os contextos sejam comparáveis, mas porque o mecanismo é semelhante. A erosão da legitimidade não destrói imediatamente o poder político. Mas fragiliza-o de forma cumulativa.

Tal como João Paulo II, Leão XIV não terá divisões. Nem precisa delas. Se tiver capacidade para moldar percepções, expor contradições e aumentar o custo moral de determinadas escolhas, terá influência suficiente para condicionar o poder. No final, a pergunta relevante não é quantas divisões tem o papa. É quanto custa ignorá-lo.

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
Professor convidado UCP/UNL/UÉ
20.04.2026

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367: (Fr)ágil

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🇵🇹 OPINIÃO

O que têm em comum a reforma do Tribunal de Contas e a flexibilização das regras de contratação pública? Uma visão do Estado e da sociedade mais ágil, maior simplicidade de processos, eliminação de entropias, argumentará o ministro Gonçalo Matias, a quem Luís Montenegro entregou a missão da reforma do Estado. Argumentos defensáveis, num país enredado em burocracias e camadas de indecisões várias, como todos sabemos.

Mas, vistas em conjunto, contam também uma outra história comum, um padrão que se vai repetindo na governação e que aponta para um sistemático alívio de sistemas de controlo, agitando perigos de menor escrutínio, maior opacidade do sistema e “roda livre” no uso de fundos públicos, num país escaldado de casos do género num passado até bem recente.

Não se trata necessariamente de menos legalidade, mas seguramente menos capacidade de detectar problemas cedo, comparar decisões ou perceber quem influencia o quê, alargando o espaço onde o abuso pode existir sem ser detectado.

Entrevistada pelo Expresso, a propósito da reforma proposta para a actividade do “seu” Tribunal de Contas, a presidente desta entidade, Filipa Urbano Calvão, sublinha que “há aqui um contexto de maior descontracção para a realização da actividade pública e privada”. E acrescenta: “Nem sei se houve uma avaliação rigorosa por parte do Governo sobre o impacto destas medidas (…).

Em todo o caso, eu quero acreditar que continuamos num Estado de Direito democrático e que, portanto, o que quer que seja feito no plano legislativo, não perca essa capacidade de o poder político e de o poder público em geral se sujeitarem a um escrutínio público.” Ora, lembre-se, Filipa Calvão foi já uma escolha de Montenegro para o cargo, em Outubro de 2024, e está longe, pois, de poder ser considerada uma força de bloqueio.

A mudança de filosofia que esta maioria quer implementar é evidente: confiar mais nos decisores, desimpedir caminhos e corrigir depois, se necessário. No caso do Tribunal de Contas, segundo a própria presidente, a confirmar-se a proposta de isenção de visto prévio até aos 10 milhões de euros, “passamos da fiscalização de mais de 1000 contratos, no valor de 9 mil milhões, para 100”.

O Governo argumenta que na maior parte dos países europeus não se faz controlo prévio. O problema, nesta febre de simplificação, é que todos sabemos que em Portugal persistem fragilidades conhecidas, desde uma Administração Pública com falta de recursos até uma notória ineficiência na fiscalização. Esse é o real teste que ditará o sucesso ou insucesso.

A questão não é se este modelo funciona em teoria, é se funciona bem num contexto real onde os mecanismos de controlo já são frágeis. E sem esse reforço dos mecanismos de fiscalização, simplificar pode significar apenas fragilizar o Estado de Direito.

P.S.: Ficámos também a saber esta semana que as listas de financiadores dos partidos passam a ser secretas, tornando mais difícil identificar potenciais conflitos de interesse. Mais um prego no caixão da transparência.

Diário de Notícias
Rui Frias
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias
20.04.2026

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366: A rainha dos vícios

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🇵🇹 OPINIÃO

JD Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, sentiu-se habilitado a explicar ao Papa Leão XIV que a sua teologia precisava de ser mais rigorosa. Ao papa. Ao Bispo de Roma. Ao vigário de Cristo, como o reconhecem 1500 milhões de católicos.

A tradição que Vance diz professar tem um nome para esta disposição. Gregório Magno chamou-lhe a rainha de todos os vícios. Em latim, superbia. O incidente seria apenas um episódio de impertinência teológica se não fosse também um retrato. Para perceber o retrato é preciso perceber o modelo.

Vance foi fuzileiro naval e serviu no Iraque como jornalista das Forças Armadas, mas não construiu a sua biografia pública em torno do combate directo. Sem uma carreira política prévia, foi eleito senador pelo Ohio em 2022 e deixou o lugar ao tornar-se vice-presidente. Antes disso, manteve durante anos uma hostilidade pública em relação a Trump. A conversão foi rápida, completa e politicamente funcional. Houve alinhamento. Houve acesso ao poder. Houve fidelidade ao ticket. O que não houve foi uma revisão pública de princípios que explicasse a mudança com rigor.

A carreira política de Vance não teria existido sem Peter Thiel. O co-fundador da PayPal, investidor em vigilância e Inteligência Artificial, natural da África do Sul, foi um dos principais patronos da nova direita tecnológica americana. Thiel financiou a candidatura ao Senado, abriu a porta ao ecossistema de Silicon Valley e ajudou a construir a plataforma política que tornou possível a chegada de Vance à vice-Presidência.

Elon Musk, também nascido na África do Sul, completa o quadro. São homens que se tornaram poderosos nos Estados Unidos, mas cuja formação inicial ocorreu numa ordem racial hierárquica, branca, em que uma minoria governava uma maioria negra. Quando essa ordem colapsou, ficou uma memória política da perda e do deslocamento que nunca foi inteiramente elaborada. Não é por acaso que Thiel financia Curtis Yarvin, o teórico do neo-reaccionarismo que trata a democracia como um sistema obsoleto a substituir por estruturas de poder centralizado e hierárquico

É nesse ponto que a ligação sul-africana ganha relevo interpretativo. A narrativa da perseguição à comunidade branca sul-africana, que chegou a Trump através destes circuitos e que ele adoptou com entusiasmo, não deve ser lida apenas como propaganda eleitoral. Deve ser lida também como uma gramática emocional e política de cerco, despossessão e revanche, transportada para o espaço americano. A afinidade estrutural entre o universo social de onde vieram e o modo como lêem a ordem liberal é demasiado consistente para ser ignorada.

Vance apresenta-se como o rosto do MAGA, o porta-voz da América profunda, o defensor das comunidades trabalhadoras do Ohio contra as elites cosmopolitas. Mas o seu protagonismo no ataque à regulação europeia, ao Digital Markets Act, ao AI Act e à arquitectura regulatória europeia sobre as grandes plataformas tecnológicas, não é apenas populismo. É também o retorno político do investimento feito por Silicon Valley.

A América que Vance representa não é apenas a do Ohio. É a dos servidores, do capital de risco e de um projecto de tecno-feudalismo em que a lei é progressivamente substituída pelos termos de serviço das plataformas. Quem controla o algoritmo não precisa de corrigir o papa. Pode simplesmente desligá-lo.

O apoio ao AfD alemão confirma o que o discurso MAGA tende a obscurecer. O AfD não é um partido populista genérico. É uma força de identidade étnico-nacional, com raízes no nacionalismo völkisch, e tem sido alvo de escrutínio das autoridades alemãs por suspeita de extremismo.

Vance não se limita a expressar simpatia pelo descontentamento social europeu. Alinha-se com uma visão específica de pertença, fronteira e exclusão. O fio sul-africano, o fio alemão e o fio americano formam, aqui, a mesma trama.

A contradição religiosa completa o retrato. Vance assumiu o catolicismo como identidade política, mas a sua leitura pública da fé parece cada vez mais subordinada à conveniência do poder. Quando confrontado com a posição do papa Leão XIV sobre o Médio Oriente, respondeu como quem se julga habilitado a corrigir o Magistério da Igreja, insinuando que a autoridade espiritual devia render-se à lógica política.

A soberba não é apenas um traço pessoal de JD Vance. É a marca de um projecto. O projecto de um grupo que acumulou capital tecnológico suficiente para comprar influência política, que transporta consigo uma visão de mundo moldada por experiências históricas de hierarquia e perda, e que encontrou no MAGA o veículo ideal para transformar essa visão em poder estatal. Vance é o rosto apresentável dessa operação.

Gregório Magno classificou bem o vício. O que não previu foi que a rainha teria fundo de investimento, linguagem de redenção e passaporte americano.

Diário de Notícias
Jorge Silva Carvalho
Analista de Estratégia, Segurança e Defesa
20.04.2026

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365: Ordem dos Psicólogos reforça repúdio a abusos após polémica com TVI

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🇵🇹 PORTUGAL // ORDEM DOS PSICÓLOGOS // TVI

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) frisou, no sábado, que “a sociedade como um todo tem de ser totalmente clara no repúdio ao abuso sexual e na educação para a responsabilidade, o consentimento e a empatia”, tendo recordado já ter vários recursos com “recomendações específicas para a relação dos psicólogos com os meios de comunicação”, no rescaldo da polémica com a TVI.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) respondeu, no sábado, à carta aberta “A violação não é matéria de opinião”, tendo não só recordado que já disponibilizou “recomendações específicas para a relação dos psicólogos com os meios de comunicação”, mas também que “a sociedade como um todo tem de ser totalmente clara no repúdio ao abuso sexual e na educação para a responsabilidade, o consentimento e a empatia”.

Assinado por mais de 100 personalidades, o documento divulgado na sexta-feira surgiu após as declarações da apresentadora da TVI Cristina Ferreira e da psicóloga Inês Balinha Carlos, no programa Dois às 10 do dia 14 de Abril, no qual foi abordado o início do julgamento do caso de uma jovem de 16 anos que terá sido violada por quatro influencers.

“Porque nós temos de falar disto. Porque é assim: mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele: ‘Não quero mais'”, questionou Cristina Ferreira, o que deu azo a duras críticas e motivou mais de três mil queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), uma das quais assinada pelos pais da vítima.

Os signatários da carta manifestaram, assim, “o mais absoluto repúdio pelo teor e pelo tom do debate“, argumentando que “tertúlias televisivas sobre criminalidade tendem a trivializar os casos de violência, dissecando histórias de vida como se personagens de novela se tratassem, sem reflectirem nos impactos que as palavras ditas na TV têm nas pessoas que sofreram a violência comentada”.

Apelaram, por isso, a que a OPP emitisse “directrizes claras sobre esta matéria” e reforçasse “a necessidade de especialização para todas/os as/os profissionais que atendem e acompanham vítimas de violência sexual“, já que “a não especialização compromete as vítimas-sobreviventes”.

Há recomendações desde Agosto de 2022

Na resposta divulgada no sábado, o organismo frisou que “um ato sexual não consentido é abuso sexual” e que “obrigar alguém a assistir a actividades de cariz sexual sem o seu consentimento também é abuso sexual”. Aclarou, de igual modo, que “valoriza e acolhe iniciativas que promovam uma melhor informação e literacia em temas da Psicologia, como a carta aberta ‘A violação não é matéria de opinião’”, mas ressalvou que, em Agosto de 2022, “foram disponibilizadas recomendações específicas para a relação dos psicólogos com os meios de comunicação“.

Entre elas, a Ordem concedeu destaque à consideração pelos “princípios da competência específica, privacidade e confidencialidade, respeito pela dignidade da pessoa, integridade, beneficência e não maleficência”, apontando que, “quando fazem declarações públicas, os psicólogos devem observar o princípio do rigor e da independência, abstendo-se de fazer declarações falsas ou sem fundamentação científica”.

“Devem relatar os factos de forma criteriosa com base em fundamentação científica adequada, utilizando o direito de rectificação, sem suprimir as posições críticas e permitindo a existência do contraditório”, complementou, aconselhando a que estes profissionais limitem “as suas declarações públicas apenas a temas para os quais têm conhecimento ou experiência relevantes“.

A par disto, a entidade sublinhou que “os psicólogos reconhecem o impacto das suas declarações junto do público, em função da credibilidade da ciência que representam”, o que “aumenta a sua responsabilidade em relação às suas afirmações, uma vez que representam uma classe profissional”.

Nessa linha, a OPP lembrou que o código deontológico deixa claro que “os psicólogos têm como obrigação exercer a sua actividade de acordo com os pressupostos técnicos e científicos da profissão, a partir de uma formação pessoal adequada e de uma constante actualização profissional”, sob pena de acrescer “a possibilidade de prejudicar o cliente e de contribuir para o descrédito da profissão“.

“A sociedade como um todo tem de ser totalmente clara no repúdio ao abuso sexual”

Na mesma nota, a bastonária da instituição, Sofia Ramalho, vincou que, “em qualquer caso de violência sexual, sobretudo quando está envolvido uma menor, há o dever de rigor, de protecção, de linguagem correta e científica e de responsabilidade pública e colectiva”, defendendo “o papel dos media e dos profissionais de saúde mental [enquanto] parte da resposta social à violência contra mulheres e raparigas, e não amplificar as polémicas“.

“Temos espaço para uma melhoria concreta e uma correcção estrutural. O país precisa de discutir consentimento, responsabilidade, prevenção e protecção. É necessário um plano nacional de combate ao abuso sexual, incluindo o abuso sexual infantil, que integre educação sexual nas escolas, por profissionais devidamente qualificados e com competência específica, educação para os media, literacia em saúde e literacia mediática.

Precisamos também de protocolos de actuação integrados para escolas, serviços de saúde e comunitários, bem como para estruturas judiciais e media. […] A sociedade como um todo tem de ser totalmente clara no repúdio ao abuso sexual e na educação para a responsabilidade, o consentimento e a empatia“, acrescentou.

A OPP recordou ainda ter um guia para os meios de comunicação sobre a abordagem de temas sensíveis, incluindo a violência sexual, além de disponibilizar e promover recursos de literacia com orientações para a prática dos profissionais e destinados à população, como é o caso do documento “Vamos Falar Sobre Abuso Sexual“, de Julho de 2023.

Oferece, além disso, formação contínua especializada na área da violência sexual e na área da violência doméstica, colaborando também com “a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género no desenvolvimento de programas e acções inter-sectoriais articuladas, e na formação especializada de psicólogos no âmbito das respostas de apoio psicológico”, no que diz respeito à violência interpessoal.

Notícias ao Minuto
Cristina Ferreira
19.04.2026

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