🇵🇹 OPINIÃO
wo roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
(Robert Frost)
É normal que em idades mais avançadas nos atinja e alcance com mais força o peso do irreversível e a aura da nostalgia. Compreendemos que não poderemos nunca mais retomar os caminhos que deixámos por percorrer, os trabalhos que deixámos por fazer, os seres e as coisas que deixámos por conhecer.
Como nos avisa Robert Frost, no seu famoso poema “The road not taken”, não teremos oportunidade de voltar ao bosque onde, na encruzilhada, escolhemos o caminho menos percorrido, para irmos reconhecer o outro caminho, aquele que não tomámos. E mesmo que regressemos a todos os lugares do nosso percurso de vida, nem nós próprios nem esses lugares são já os mesmos. Como amargamente reconheceu o português António Mourão, o tempo não volta mesmo para trás.
Ninguém reconheceu Ulisses (só o cão!) quando ele finalmente regressou a Ítaca. Estarmos vivos significa que o que já fomos morreu. E como fugir a esse eterno e permanente luto por nós próprios, que se acrescenta ao luto por todos aqueles que perdemos?
Menos pessimista que o nosso António Mourão, o filósofo francês Vladimir Jankélévitch, no seu livro L’Irréversible et la Nostalgie aponta para o facto de o nosso corpo, as células e os tecidos do nosso corpo, terem uma capacidade de regeneração e de substituição que, se não nos dá a imortalidade, pelo menos nos permite prolongar a vida.
E se olharmos a vida que nos resta como um novo terreno de escolhas e de apostas, em que continuamos a escolher entre caminhos – mesmo sabendo que não voltaremos àquela encruzilhada, pois outras se nos irão abrir –, guardaremos da nostalgia a sua irrepetível beleza, sem perdermos nela a alegria e o poder criador de estarmos vivos.
O irreversível vem assim abrir-se à esperança, que é a última a morrer-nos. E a força de “ter sido” vem compensar toda a nostalgia do que “poderia ter sido”.
Vivemos uma época de transição num ambiente de crescente irracionalidade. Não é inédita a violência e a irracionalidade destes nossos tempos, mas é nova a arrogante e assertiva afirmação (“para além do bem e do mal”), com que os poderosos se congratulam publicamente com a sua própria crueldade. Já não vivemos a banalização do mal, denunciada por Hannah Arendt: vivemos hoje a exaltação do mal!
Governos que torturam e governos que protegem e promovem desordeiros sempre existiram. Mas governos que filmam os seus próprios ministros, risonhos, a torturar, e governos que absolvem e indemnizam arruaceiros que invadiram o seu próprio Congresso, estes pertencem já a um novo modelo, o da exaltação do mal.
Eu escrevo estas considerações pessoais por imaginar que alguém possa tirar algum conforto destas ideias sobre a irreversibilidade do envelhecimento, neste país de população envelhecida e trabalhada pelo tempo e pela História. Mas eu sou dos que se recusam a olhar só para o copo meio vazio e por isso continuo, apesar de tudo, a acreditar nas jovens gerações.
Sim, há uma dura luta a travar pelo humano contra o instrumental, pelo pensamento contra o embrutecimento, pela vida contra a mecanização e a instrumentalização da vida, pela civilização contra a exaltação do mal. Mas acredito que o humano triunfará sobre a desumanização, porque a força das coisas e da própria vida a tal irá conduzir.
Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
Diplomata e escritor
27.05.2026

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Desde o início de 2022, os portugueses pagam consideravelmente mais pelo que põem no prato. Não é impressão: é aritmética. Segundo a Deco Proteste, que monitoriza semanalmente um cabaz de bens essenciais, a carne de novilho passou de 5,82 euros por quilo para mais do dobro – 12,95 euros. Os ovos subiram mais de 80%. O peixe acumulou subidas de dois dígitos, registando uma variação homóloga de 23,3% de Março de 2025 a Março de 2026. A inflação geral no mesmo período? Pouco mais de 15%. A diferença entre o que se paga na proteína animal e o que a inflação “oficial” registou é, ela própria, uma forma de empobrecimento silencioso.

Quando Xi Jinping e Vladimir Putin se encontram — como aconteceu de novo esta semana — assistimos a uma demonstração geopolítica altamente coreografada e rica em simbolismos. Falam de um mundo multipolar e brindam a uma “nova era” e a uma parceria “sem limites”, a célebre expressão que saiu da reunião que tiveram em fevereiro de 2022, uns dias antes do arranque da inadmissível guerra de agressão russa contra a Ucrânia. As mensagens que procuram enviar para o resto do planeta, nomeadamente para a Europa, são muito explícitas.






Imagine que é uma mulher do Congo, idosa, desorientada, chegada a um país novo. Veio porque alguém lhe prometeu que ali poderia viver em segurança. Mas faltavam-lhe papéis. É então encerrada numa sala no aeroporto, trancada a sete chaves, e ali fica dois meses. “Não está detida”, dizem-lhe.


