Apagão está a afectar gravemente o funcionamento dos Cuidados de Saúde Primários e de várias unidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde.
Um apagão informático está a afetar gravemente o funcionamento dos Cuidados de Saúde Primários e de várias unidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde, denuncia o Sindicato Independente dos Médicos (SIM), que dá conta de relatos de “uma falha informática generalizada”.
“Nos Cuidados de Saúde Primários, a falha reportada é total, impedindo o normal acesso aos sistemas informáticos essenciais à actividade clínica. Nos hospitais do SNS, estão igualmente indisponíveis os sistemas que dependem de ligação à Internet, com impacto directo nos actos necessários à prestação de cuidados”, indica um comunicado publicado no site oficial do SIM.
A falha está também a afectar os serviços de saúde das Regiões Autónomas e sector privado de todo o território nacional, com constrangimentos reportados no acesso à emissão de Certificados de Incapacidade Temporária (CIT) e à Prescrição Electrónica Médica (PEM).
A situação “não é um mero constrangimento técnico”. “É uma falha crítica de funcionamento do SNS, com consequências imediatas para os médicos, para os restantes profissionais de saúde e, sobretudo, para os doentes”, vinca o SIM.
Sem sistemas informáticos operacionais, os médicos ficam privados do acesso ao processo do doente, antecedentes, medicação habitual, alergias, resultados analíticos, exames complementares, prescrições e referenciações.
As receitas médicas estão a ser passadas em papel e nas farmácias há constrangimentos na dispensa, dá conta o Público. O SIM explica que “a actividade assistencial passa a depender de soluções improvisadas, fragmentadas e inseguras, aumentando o risco de erro médico e comprometendo a qualidade dos cuidados prestados”.
O SIM defende que “não deverão ser realizadas consultas médicas quando a falha impeça o acesso aos registos clínicos anteriores, diagnósticos, medicação habitual, alergias ou outros elementos essenciais à decisão médica” e considera que “obrigar os médicos a consultar nestas condições representa uma intolerável intensificação do risco profissional, potencia o erro médico por ação ou omissão e transfere para os profissionais uma responsabilidade que pertence às entidades que têm o dever de assegurar sistemas funcionais, seguros e com planos de contingência adequados”.
“O SNS não pode funcionar dependente da improvisação. A digitalização da saúde exige redundância, segurança, planos de contingência testados, comunicação clara e capacidade de resposta imediata. Quando os sistemas falham, falha também a organização que devia garantir a continuidade assistencial”, frisa o SIM.
A longa carta aberta de Volodymyr Zelensky a Vladimir Putin, a 4 de junho, não foi uma iniciativa diplomática convencional. Foi mais um lance numa guerra híbrida sem fim à vista. Ao apelar publicamente a um cessar-fogo no preciso momento em que a elite económica russa e personalidades do Sul Global se reuniam em São Petersburgo, o presidente ucraniano não tinha como objectivo principal persuadir o Kremlin – e foi revelador que tenha publicado a carta antes de a entregar ao destinatário, um gesto que o círculo próximo de Putin criticou abertamente.
Zelensky procurava explorar as tensões visíveis no interior do sistema russo e lembrar à comunidade internacional que Kiev continua a tomar a iniciativa, enquanto Moscovo permanece atolada numa guerra de atrito devastadora.
Como gesto político, Zelensky marcou pontos. Mostrou, de novo, que Putin está mais preocupado com a protecção da sua imagem e da sua pessoa do que com o destino do seu povo. Mas guerras desta escala não terminam porque um agressor descobre subitamente as virtudes da moderação.
Terminam quando a pressão militar, as dificuldades económicas e o isolamento político reduzem os benefícios da escalada e impõem uma negociação séria. A questão não é saber se a carta de Zelensky foi oportuna. A questão é como transformar pressão e impasse num processo de mediação que não sirva apenas como manobra dilatória.
Em teoria, esse papel de mediação pertence às Nações Unidas, que na prática pouca ou nenhuma capacidade têm para alterar os cálculos e as violações da Carta por um membro permanente do Conselho de Segurança.
As alternativas revelam limites igualmente evidentes. Genebra, um dos locais propostos por Zelensky, tem a sua neutralidade contestada por Moscovo devido ao alinhamento suíço com as posições da UE. Os Estados do Golfo estão absorvidos pelos conflitos que agora assolam o Médio Oriente. A Turquia – cujas capacidades de mediação ficaram demonstradas no processo de Istambul de Março de 2022, o momento em que as negociações chegaram mais perto de um resultado antes de colapsar – é membro da NATO, um espaço geopolítico que o conflito já excede.
A Índia tem peso estratégico, mas falta-lhe a imparcialidade. Nova Deli tem demonstrado sistematicamente mais interesse em preservar a ambiguidade estratégica do que em exercer uma pressão real sobre Moscovo. Sem esquecer que tem aumentado significativamente a importação de petróleo russo, bem como a compra de equipamento militar e de componentes para o desenvolvimento da sua energia nuclear civil.
Um anfitrião credível tem de satisfazer quatro critérios em simultâneo. Primeiro, aceitabilidade política: tem de ser aceite, acima de tudo, por Moscovo e Kiev, e ter credibilidade política em Washington e Pequim.
Segundo, margem de manobra jurídica: as decisões do Tribunal Penal Internacional (TPI) não podem ser ignoradas. O país anfitrião tem de oferecer uma base legal clara para receber representantes russos de alto nível sem destruir o sistema de responsabilização que o TPI defende.
Terceiro, competência técnica: estão em jogo questões de extraordinária complexidade – sanções, activos congelados, garantias de segurança, financiamento da reconstrução, corredores energéticos. Os processos de paz não falham por falta de retórica; falham porque as garantias são vagas e as violações não são sancionadas.
Quarto, discrição estrutural: negociações públicas são negociações infrutíferas. Um anfitrião que não consiga proteger a confidencialidade das sessões de trabalho tornará o processo impossível antes de começar.
À luz destes critérios, olho para Singapura e considero que merece mais atenção do que tem recebido – mas o argumento exige precisão, não apenas um ato de fé. O país reúne um conjunto raro de condições institucionais que o tornam um candidato plausível – ainda que não evidente – para coordenar uma mediação internacional.
Com efeito, em termos de aceitabilidade política, Singapura mantém simultaneamente uma parceria estratégica com Washington e tem a China como maior parceiro comercial, com décadas de relações funcionais que incluem Pequim discretos de comunicação entre Beijing e actores Ocidentais. Esta dupla interdependência revela uma enorme capacidade de ser um interlocutor credível.
Quanto ao TPI, Singapura não é um Estado-parte do Estatuto de Roma. Poderia, adicionalmente, suspender as suas próprias sanções à Rússia como incentivo à participação, sem comprometer a arquitectura das sanções Ocidentais. E negociar com Moscovo a sua saída da lista de “países hostis”, estabelecida pelo Kremlin. Um processo destes exige concessões que, à partida, poderiam parecer inimagináveis, mas porventura não. Curiosamente, o primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, visitará a cidade russa de Kazan na próxima semana, no quadro de uma cimeira entre a Rússia e ASEAN, e encontrar-se-á com Vladimir Putin.
Singapura é um dos maiores centros financeiros e de arbitragem internacional do mundo, com capacidade institucional para tratar dos aspectos mais complexos de qualquer processo de paz. E o seu historial já demonstrou que consegue gerir a confidencialidade, a logística e a segurança de eventos de alto risco – com um profissionalismo diplomático exemplar.
Tal como Paris, Oslo ou Doa se tornaram palcos de processos diplomáticos que ultrapassaram a sua dimensão geográfica, a eficácia de uma mediação depende frequentemente mais das condições oferecidas pelo anfitrião do que do seu peso militar ou geopolítico. Singapura retiraria o processo do quadro euro-atlântico conflituoso e reescrevê-lo-ia num contexto genuinamente multilateral.
A honestidade intelectual exige reconhecer os limites. Nenhum país pode forçar a Rússia a negociar. A mediação só começará quando o Kremlin chegar à conclusão de que prolongar a agressão se tornou política e economicamente insuportável, e um desastre militar. Esse momento pode não estar próximo. Mas acabará por chegar, e importa ter uma arquitectura diplomática preparada e competente para iniciar a mediação.
Singapura teria ainda de aceitar o papel. Washington, Pequim e outras capitais deveriam discutir esta hipótese e sondar discretamente a disponibilidade política do país, bem como a receptividade de Moscovo e Kiev. Esta mediação, que acontecerá um dia, tem de ser tratada com muita circunspecção e originalidade.
Diário de Notícias
Victor Ângelo
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
12.06.2026
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- Neste Blogue, escreve-se em Português 🇵🇹 de Portugal (não adulterado pela colonização do AO).
Quarenta por cento dos portugueses apresentam sintomas de ansiedade: insónias, aumento da frequência cardíaca, tensão muscular, tonturas e fadiga. Não é uma estatística abstracta; é quase metade do país a viver com o corpo em alerta permanente, como se cada dia fosse uma prova de sobrevivência. A ansiedade é, por natureza, uma resposta normal ao medo e ao stress. Mas quando se torna regra, e não excepção, deixa de ser um mecanismo de protecção e passa a ser um modo de vida. E os portugueses, hoje, vivem demasiado nesse modo. Têm medo do amanhã.
Uma sociedade ansiosa é uma sociedade que respira curto. Que olha para o futuro com desconfiança. Que se sente pressionada, exausta e sempre à beira de um sobressalto. A ansiedade colectiva não é apenas um fenómeno clínico; é um fenómeno social. Molda comportamentos, altera prioridades, condiciona decisões. Uma comunidade ansiosa é mais vulnerável a discursos simplistas, a soluções mágicas e a narrativas de medo. O medo é um excelente vendedor de certezas.
“É também neste campo que os meios de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida. Como todos os outros meios, o Diário de Notícias tem um papel decisivo na construção de uma sociedade mais informada e esclarecida (…).” FOTO: Paulo Spranger / Arquivo
Há, porém, um dado curioso que a neuro-ciência nos oferece: a ansiedade e a gratidão não conseguem coexistir no cérebro. Activam zonas diferentes, mas incompatíveis. Quando uma está acesa, a outra apaga-se. Uma sociedade dominada pela ansiedade é, inevitavelmente, uma sociedade onde a gratidão escasseia. Não porque as pessoas sejam más, mas porque o cérebro não consegue estar em dois estados ao mesmo tempo.
Daqui nasce a pergunta: serão os portugueses ingratos pelo país que têm? A resposta é não. Sentir gratidão não depende apenas de termos razões para isso; depende também da nossa capacidade de as reconhecer. E essa capacidade diminui quando vivemos em permanente sobressalto, com medo do que pode acontecer amanhã e se conseguimos pagar a renda e a escola das crianças. Há quem esteja grato sem ter motivos sólidos para tal, o que torna a gratidão oca. E há quem tenha motivos para agradecer, mas não consiga senti-lo, o que não faz dessa pessoa um ingrato. Faz dela alguém esmagado pelas suas circunstâncias.
O ideal seria este equilíbrio difícil: sermos gratos quando o devemos ser e também quando não o devemos ser; e não sermos ansiosos, mesmo quando o mundo nos dá razões para isso. Não se trata de ingenuidade, mas de higiene mental, de sobrevivência emocional e de lucidez.
“A ansiedade colectiva não é apenas um fenómeno clínico. É social. Uma comunidade ansiosa é mais vulnerável a discursos simplistas, soluções mágicas e narrativas de medo. O medo é um excelente vendedor de certezas.”
Porque a ansiedade, apesar de ser um mecanismo natural que nos acompanha desde que existimos como espécie, corrói o nosso bem-estar e o próprio tecido da sociedade. Corrói a confiança, a esperança e a capacidade de pensar com clareza. E quando um país inteiro vive ansioso, torna-se presa fácil de discursos de medo, discursos que prometem protecção, mas oferecem submissão; que prometem ordem, mas alimentam ressentimento; que prometem força, mas cultivam fragilidade.
É também neste campo que os meios de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida. Como todos os outros meios, o Diário de Notícias tem um papel decisivo na construção de uma sociedade mais informada e esclarecida, composta por pessoas capazes de decidir pela própria cabeça, tal como estabelece o manifesto publicado na primeira edição do nosso jornal, no longínquo dia 29 de Dezembro de 1864.
Com as nossas falhas e limitações, fazemos o que está ao nosso alcance para cumprir esse propósito e chegar o mais próximo possível da Verdade. Ao fazê-lo, contribuímos para um país menos ansioso, mais consciente e onde cada pessoa tenha a possibilidade de revelar o melhor de si mesma.
Se a verdade e a razão libertam, o medo aprisiona. E Portugal não precisa de mais prisões invisíveis. Precisa de luz. De esperança. De serenidade. De um futuro que não seja visto como ameaça, mas como possibilidade.
Diário de Notícias
Filipe Alves
Director do Diário de Notícias
12.06.2026
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