🇵🇹 PORTUGAL // METEOROLOGIA // EL NIÑO
O El Niño regressou oficialmente ao Pacífico e os especialistas internacionais admitem que possa vir a transformar-se num dos episódios mais intensos das últimas décadas, aumentando o risco de ondas de calor, secas, cheias e fenómenos extremos em várias regiões do planeta. No entanto, há uma parte do mundo onde os seus efeitos deverão ser praticamente imperceptíveis: a Europa. E, em particular, Portugal.

Calor em Portugal (LUSA)
© CNN Portugal
Apesar dos alertas lançados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), os especialistas portugueses garantem que não é expectável que o fenómeno tenha um impacto significativo no continente europeu. Uma conclusão reforçada por mais de quatro décadas de observações do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que mostram uma relação “praticamente inexistente” entre o El Niño e as temperaturas ou a precipitação em Portugal.
À CNN Portugal, a meteorologista do IPMA Margarida Belo-Pereira explica que os efeitos do fenómeno se fazem sentir sobretudo nas regiões tropicais e sublinha que “não é expectável uma grande correlação na Europa”.
Mais de 45 anos de dados mostram uma relação “praticamente inexistente”
O IPMA analisou a evolução do índice ENSO – utilizado para medir a intensidade dos episódios de El Niño e La Niña – e comparou-a com os registos de temperatura e precipitação observados em Portugal continental desde 1980.
“A correlação do índice ENSO com qualquer uma das variáveis é praticamente inexistente, não se podendo afirmar que o fenómeno El Niño esteja relacionado com padrões específicos de temperatura e precipitação em Portugal Continental”, lê-se no documento elaborado pelo IPMA.

Uma análise do IPMA aos últimos 45 anos mostra que a relação entre o índice ENSO e a temperatura ou precipitação em Portugal continental é praticamente nula. (IPMA)
Os mesmos exercícios foram realizados para as estações meteorológicas do Porto, Lisboa e Faro e as conclusões repetem-se. Segundo Margarida Belo-Pereira, correlações abaixo de 0,5 já são consideradas muito baixas e, neste caso, os valores situam-se abaixo de 0,1. “É praticamente zero”, resume a meteorologista.

Os resultados obtidos para a estação meteorológica do Porto mostram coeficientes de correlação próximos de zero. (IPMA)

Os resultados obtidos para a estação meteorológica de Lisboa mostram coeficientes de correlação próximos de zero. (IPMA)
Impactos concentram-se nas regiões tropicais
Os impactos do El Niño fazem-se sentir sobretudo nas regiões tropicais e equatoriais, muito longe da Europa. Segundo o climatologista Mário Marques, os efeitos mais directos verificam-se no Sudeste Asiático, na Oceânia e em grande parte do continente americano, especialmente nas regiões próximas do Equador, onde o aquecimento anormal das águas do Pacífico altera de forma mais significativa os padrões de precipitação e temperatura.
Existem regiões onde o fenómeno favorece condições mais húmidas e outras onde aumenta a probabilidade de seca, mas a Europa surge praticamente fora das áreas tradicionalmente afectadas.

Os efeitos do El Niño fazem-se sentir sobretudo nas regiões tropicais. A Europa surge praticamente fora das áreas onde historicamente se registam alterações significativas dos padrões de precipitação. (IRICS/NOAA)
Alguns especialistas admitem, ainda assim, uma influência indirecta sobre a circulação atmosférica do Hemisfério Norte. Segundo Mário Marques, as oscilações da corrente de jato poderão favorecer alguma instabilidade atmosférica.
“A corrente de jacto pode oscilar e depende da forma como entra no território americano e depois como sai. Esses desequilíbrios na atmosfera poderão originar mais instabilidade”, afirma o meteorologista.
Também Margarida Belo-Pereira reconhece que existem estudos que tentam estabelecer uma ligação entre o Pacífico e a Europa através da propagação do sinal atmosférico pela América do Norte e pelo Atlântico, mas sublinha que se tratam de “casos muito particulares” e que “a correlação não é muito evidente”. Para a meteorologista do IPMA, a Oscilação do Atlântico Norte (NAO) continua a ser um factor muito mais importante para explicar o estado do tempo na Europa durante o inverno.
O que é, afinal, o El Niño?
O El Niño é a fase quente do fenómeno ENSO (Oscilação Sul-El Niño) e caracteriza-se pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e influencia os padrões de precipitação e temperatura em várias regiões do globo, sobretudo nas latitudes tropicais.
O fenómeno ocorre em ciclos que variam entre dois e sete anos e atinge normalmente o seu pico durante o outono ou o inverno do hemisfério Norte. Quando a anomalia da temperatura da superfície do mar ultrapassa os dois graus Celsius, os especialistas classificam-no como um episódio muito forte, popularmente conhecido como “super El Niño”.
“As águas do Pacífico já começaram a aquecer e a tendência é de intensificação até ao final do ano, como acontece habitualmente nos episódios moderados e fortes”, esclarece Mário Marques.
Aliás, o próprio nome El Niño – em referência ao nascimento do Menino Jesus – está associado ao facto de o fenómeno atingir normalmente a sua máxima intensidade em Dezembro.
As previsões internacionais apontam para a possibilidade de o actual episódio vir a integrar a lista dos mais intensos desde meados do século XX. Mas, pelo menos para Portugal e para a Europa, a existência de um eventual “super El Niño” não significa automaticamente mais calor, mais chuva ou mais seca.
CNN Portugal
Marta Coropos Carvalho
12.06.2026

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